Category Archives: Bacia das almas

Provavelmente ausente até dia 8 de maio

Miniférias. Talvez poste durante a viagem, talvez não consiga.

Que vocês tenham dias bons, cada vez tudo mais junto e misturado, se expondo e correndo o risco de conhecer outras pessoas incríveis e a viver eventos mágicos.

Até logo.

A tristeza pela morte de Domingos Montagner e minha reverência à genialidade da assessoria de imprensa

Sou daquelas pessoas que alterna trabalho com espiadas por portais de notícias. Causa dispersão, eu sei, e quando quero mesmo concentrar não abro nenhuma janela. Mas se não preciso de foco, costumo olhar notícias e caixas de comentários, pensar nos argumentos, lógica, sentido.

Quando apareceu a notícia de que Domingos Montagner tinha sumido no rio, pensei “vixi, morreu”. E foi triste. O que eu sabia dele? Fotos na internet, uns pedacinhos de Cordel Encantando que assisti com a minha mãe quando ia pra Limeira, nada sobre a vida pessoal, mas a tristeza era e é como se fosse alguém conhecido. Provavelmente por uma mistura de fatores: ator global, bonitão, jeito de gente boa. Acho que em Cordel Encantando ele fazia papel de um cara com muito caráter, e imagino que nas outras novelas também, não sei se chegou a fazer papel de vilão. No nosso imaginário essa é a imagem que fica dele, e fora isso aparecem as notícias de que IRL ele também era excelente pessoa.

Há fatores pessoais. Ele me lembra um amigo da consultoria. Não, desculpe, não conheço alguém que é parecido fisicamente com ele, é só algo do jeito. Porque esse amigo é do Nordeste, capaz de desfilar pelos corredores com chapéu de cangaceiro, e é uma força moral, reconhecido por todos como uma pessoa íntegra, rigorosa, exigente, forte, capaz de dar broncas e falar de assuntos difíceis com qualquer um. E, ao mesmo tempo, doce, tão doce, de ser capaz de fazer discurso lindo no casamento de um outro economista, amigo há anos.

Também há esse novo love, a Caatinga. Penso em Domingos Montagner naquele cenário da Caatinga como um jagunço sangue-bom, penso nesse meu amigo da consultoria, e dá vontade de chorar.

Hoje apareceu uma notícia com uma declaração do pai da Camila Pitanga, falando da nobreza de Domingos, que ele salvou a filha dele. Pensei “ué, mas a notícia de ontem é que ela tinha tentando puxá-lo, segurando-o pela mão duas vezes, e não conseguiu”. E está lá a declaração que faz sentido, que em geral as duas pessoas morrem afogadas porque a pessoa apavora e puxa a outra pro fundo, mas que Domingos Montagner foi nobre, que mesmo diante da morte ele conseguiu raciocinar e não se agarrar a Camila Pitanga, ou então os dois teriam morrido.

É bonito, não? Combina perfeitamente com a imagem dele, e é o último grande ato de um homem que pra mim e provavelmente pros outros tem essa imagem de herói. E não salvou qualquer um, salvou uma mulher linda e que também tem essa imagem de gente boa, que é a Camila Pitanga.

Será que é verdade? “De acordo com Dória, Domingos entrou em desespero ao ser puxado pela correnteza. A atriz Camila Pitanga, que estava com ele, ainda tentou segurar o ator, mas não conseguiu. “Ela relatou que ele começou a entrar em estado de pânico. Ele não falava, começou a ficar dispneico (sem ar), e ela tentou ajudar, mas a correnteza muito forte o tomou da mão que ela estava segurando”, disse Dória em entrevista ao Uol.”

Não há como saber se ele escolheu não se agarrar a Camila, ou se ele não tinha mais forças pra se segurar nela. Não é muito melhor acreditar que ele escolheu não se agarrar? Li a declaração do pai da Camila Pitanga e fiquei emocionada, depois fiquei pensando “caramba, que gênio”. Se foi ele que pensou nisso, se alguém mandou ele falar isso pra aliviar a leve saia justa do bombeiro ter contado que Camila declarou que Domingos estava entrando em pânico,  não sei de quem foi a ideia, mas foi genial.

Nunca vamos saber quais foram os últimos pensamentos de Domingos Montagner. Não tem nada de errado em supor que, contrariando o instinto de sobrevivência e o pânico de morrer afogado, ele escolheu salvar Camila Pitanga.

— x — x

É uma informação fora do clima, mas tem sua utilidade: se você for pego por uma correnteza, não lute contra ela. Não tente nadar contra, nem na perpendicular que costuma ser o caminho mais curto pra margem. Nade a favor da corrente na diagonal em direção à margem ou à praia, mesmo que você vá sair num ponto bem mais pra baixo.

Se você estiver num rio com muitas pedras, em que é difícil nadar sem bater nelas, vá boiando, com seus pés apontados a favor da corrente (ou seja, de forma que diminua a chance da sua cabeça bater em pedras), seus braços cruzados sobre o peito pra diminuir a chance de fraturar contra as pedras, e provavelmente logo você sairá num trecho mais manso em que será possível nadar.

Se você pegar uma corrente de água que te puxa pra baixo, ou um turbilhão (algo comum em cachoeiras maiores), nunca tente nadar contra o sentido da água. Deixe a água te levar pra baixo e tente atravessar a corrente ou o turbilhão, eles são fortes mas costumam ser estreitos, logo você sai do fluxo e consegue voltar pra superfície.

O mais importante é tentar não entrar em exaustão porque daí vem as câimbras, o pânico. Se você estiver fazendo muita força, está nadando errado. Se você estiver nadando e começar a cansar ou apavorar, tente boiar e recuperar as energias, mesmo que isso te afaste da terra firme. Se você cansa demais ou apavora fica mais difícil controlar a respiração, o que dificulta você flutuar. O pulmão cheio de ar te mantém na superfície,  o pulmão com pouco ar te leva pra baixo. Quando você inspira parece uma quantidade pequena, mas faz muita diferença. É um dos exercícios do curso de mergulho (inspirar e expirar de forma a se manter no lugar, sem subir ou descer), você pode testar em qualquer piscina.

Também já vi um programa que mostrava o que fazer se seu carro cai na água. Enquanto tem ar dentro do carro, se você tenta abrir a porta não consegue porque a água empurra contra. Você tem que esperar o carro encher de água, daí você consegue abrir a porta (com muita facilidade, o programa mostra) e sair.

Claro que devem ser situações horrorosas, que é muito fácil esquecer tudo e entrar em pânico Eu sei bem. No meu primeiro curso de mergulho, numa piscina de 4m de profundidade, meu instrutor tirava nossa máscara de repente – porque você tem que treinar conseguir recolocar, tirar a água de dentro da máscara usando as bolhas do regulador (respirador), é uma situação possível e frequente a máscara inundar porque tem um fio de cabelo deixando entrar gota a gota, ou você esbarrar em algo que a desloca. Mas eu não conseguia recolocar e tirar a água, e várias vezes subi apavorada (só por estar sem a máscara, mas ainda com o regulador), que é tudo que você não pode fazer, porque subir rápido se você estiver fundo é o que dá embolia e te mata.

A água pode ser apavorante, mas se sobrar alguma coisa na cabeça, tentar lembrar de questões físicas, e a luta inglória de brigar contra grandes volumes de água.

Você já ouviu falar dos campeonatos de luta de braço?

O Cris que me contou. Ele soube por acaso, porque na mesa do CPH tinha um cara que era da equipe Zeus. E foi aí que descobrimos que o interior de São Paulo, em especial Indaiatuba e Campinas é celeiro de vários campeões nacionais e mundiais de luta de braço.

Mas sabe o que é o mais legal? Muitos deles são trabalhadores da roça. Esse cara que estava conversando com o Cris estava explicando que o principal na luta de braço é a força do punho, não do bíceps, assim, os trabalhadores rurais, acostumados a carpir, carregar saco de batata, vão desenvolvendo a força do punho e chegam nos campeonatos com vantagens.

Vide por exemplo, Jesus Fortão, que carregava sacos de tomate:

http://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/2012/02/04/brasileiro-acata-apelido-jesus-fortao-e-se-inspira-em-stallone-para-mundial-de-luta-de-braco.htm

Se fosse pra travecar, pra que lado você iria?

Amanhã tem um acontecimento histórico. Festa grande de capricorniano, não se vê isso com frequência. A festa não é minha, mas a mim foi concedido o direito de convidar um punhado de gente. Duas das pessoas que eu convidei perguntaram dos trajes… uma delas perguntou especificamente se era festa temática. Levei meia hora pra responder, querendo muito dizer “sim”, bem séria, mas no fim não tive coragem, e assim não terei o prazer de ver meu irmão de Teletubies, Star Wars, Festa do Havaí ou algo assim.

Quando um outro convidado perguntou sobre roupa (é uma pergunta normal, mas fiquei pensando que ele queria mesmo era que fosse festa à fantasia 🙂 ), quase lamentei não ter convencido a fazerem festa temática.

Sei que muita gente acha mico… mas talvez haja um número maior ainda de gente que adoraria ter mais oportunidades de sair travestido por aí.

O que me fez pensar qual seria a minha fantasia.

Na adolescência era sempre bruxa ou alguma variação.

Hoje em dia acho que seria algo meio Out of Africa ou O Paciente Inglês (antes de ter virado churrasco). Quando o mundo era grande.

Sem atração pelos rifles ou caçadas, com as câmeras quem precisa de armas? Só os psychos. Quantas roupas charmosas. Não precisamos lembrar que na vida real, tantas vezes passeei pela África de dentro de um carro, de shorts, camiseta e chinelo.

Então é isso. Se fosse pra travecar, iria pros anos 20, pro lado de aventuras ou de festas em Paris.

 

A mesa de jantar do Wait but Why

http://waitbutwhy.com/table/wish-you-had-known-at-22?doing_wp_cron=1417475462.0030610561370849609375

Essa citação do Francis Bacon me rendeu muito:

“A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos (…) Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. (…)

Francis Bacon, Novun Organon (1620)

Eu li em algum lugar, queria transcrever, e pensei “com certeza alguém já transcreveu”, digitei um pedaço no Google e caí num site que me indicou o Barking up the Wrong Tree, o americanoide mas bom, e o Wait but Why, que tem alguns posts bem legais.

E aqui, sob o signo do Bacon, confirmo mais uma vez que o homem acredita mais facilmente naquilo que gostaria que fosse verdade. Ontem usei posts do Barking pra legitimar coisas que penso sobre discussões e interações entre pessoas. Hoje vou usar a mesa de jantar do Wait But Why pra dizer que me sinto menos estranha por reclamar do nível médio de conversação dos encontros.

O Wait But Why decidiu criar um evento todo domingo, com um tema, e as pessoas vão respondendo na hora. A primeira rodada foi algo como “o que você sabe hoje, e gostaria de já saber quando tinha 22 anos?”.

Uma pergunta legal. Mas imagino poucas pessoas capazes de responder isso de coração. E sei que não sou especialmente azarada, porque infelizmente tenho que ouvir conversas de restaurante da mesa ao lado, e sei que a maioria das pessoas só fala de coisas inócuas e pasteurizadas, repetidas como um autônomo.

Ou as ideias do Alain de Botton. De um mundo em que suas primeiras perguntas não são “qual sua profissão?” e sim “do que você tem medo?” “quem você não consegue perdoar?”.

Não tenho inglês pra participar da mesa de jantar do Wait but Why, mas recebam meu brinde virtual.

Por menos gente de papelão, por uma vida menos ordinária.

 

Pronta pra trabalhar pro FBI

Posts de um dos sites que costumo ler, o Barking up the Wrong Tree.

Certo, é um site muito muito americano, às vezes até americanóide. Mas sempre tem algo interessante. Por exemplo, hoje eu estava vendo que sou capaz de fazer muitas coisas recomendadas por experts, como gente que trabalhou 27 anos pro FBI.

Sou uma misantropa, mas quando trabalhava, era capaz de cuidar da Ouvidoria, oficial e informalmente. O Marcelo cunhou a expressão “melhor do que o soro da verdade”. E umas semanas atrás vimos acontecer de novo, com um amigo de um amigo do Cris, com quem conversei durante 15 minutos enquanto esperávamos vagar uma mesa pra eles.

E, como dizem os textos e é importante frisar, não são truques pra enganar as pessoas. Eu realmente me interesso pelo o que elas têm a dizer, não sinto ansiedade em falar de mim, e é por isso que elas conversam comigo.

http://www.bakadesuyo.com/2013/06/hostage-negotiation/

http://www.bakadesuyo.com/2014/11/how-to-deal-with-difficult-people/

http://www.bakadesuyo.com/2014/10/how-to-get-people-to-like-you/

Pode parecer estranho a uma ostra misantropa, mas o fato é que além de ser ouvidora oficial e informal, tenho experiência em  assuntos espinhudos: ter que demitir alguém, ter que informar falecimento de gente querida, mediar briga entre meus pais, mediar discussão sobre espólio com tios, enquadrar uma empregada, conselhos sobre assuntos complicados diversos, me desconvidar de ser madrinha de casamento. Nada agradável, mas nunca me senti incapaz.

Também li um post que apoia algo em que realmente acredito: o quanto as discussões são inúteis. Pura exibição de ego e retórica, quem se dispõe a discutir não está realmente ouvindo. Quem ouve é quem te pergunta sinceramente o que você pensa sobre tal assunto, ou por que você diz tal coisa.

http://www.bakadesuyo.com/2013/09/how-to-win-every-argument/

O post das técnicas do FBI (o http://www.bakadesuyo.com/2013/06/hostage-negotiation/) também reforça uma sensação: a maioria das pessoas não quer saber de ouvir – criar empatia – criar um laço de comunicação. Elas acham que podem ir direto pra etapa de  falarem e serem influentes. E não acho que isso se dá só em situações de negociação de refém, mas sim o tempo todo.

Ler esses posts hoje diminui um pouco o peso de se reconhecer misantropa.

Feliz Ano Novo 5775

Amanhã é a comemoração da virada do ano judaico. Dia 25 de setembro começa o ano de 5775.

Os pais do Cris são judeus romenos (mas não ortodoxos), vindos da Romênia, com leve sotaque e tudo. Faz vários anos que participo de celebrações de Pessach (a Páscoa judaica – libertação do cativeiro egípicio) e de Rosh Hashana (o Ano Novo), e só neste ano me ocorreu que estou desperdiçando muitas oportunidades por ver esses encontros apenas pelo lado social-familiar, e não pelo lado simbólico.

Não sou judia. E na verdade não tenho religião nenhuma mas, como bem falou Alain de Botton, isso não é motivo para não aproveitar as coisas boas que as religiões destilaram durante milênios. Eu, por exemplo, tenho a oportunidade de passar por duas datas no ano que marcam o início de um novo ciclo.

Em São Paulo, Higienópolis é o bairro dos judeus, e que reúne vários judeus ortodoxos (comentário inútil: na BHphotovideo, em NY, você tem a oportunidade de ver o que judeus ortodoxos podem fazer quando não estão nem na Sinagoga. Vários trabalham na loja). Em Higienópolis é muito legal caminhar pelas ruas aos entardecer no dia da celebração da virada. As pessoas com roupas de festa, as crianças tão arrumadinhas, os judeus ortodoxos com aquela cara de ortodoxos.

A virada de ano é uma data móvel – na comparação com o nosso calendário. Às vezes coincide com os dias próximos do início da primavera, mas pode ser no início de setembro, ou até no início de outubro. Aqui no Brasil, hereges como eu têm uma associação a mais: a primavera.

A recomendação é comer algo doce no dia da virada, para que você tenha um ano doce. No 210 Diner, em Higienópolis, você pode comer um prato típico de Rosh Hashana, a Matze Ball Soup – consommé de frango com uma bolona de Matze. Quando vem no capricho, a bolona vem bem temperada com cebola, o que não é muito tradicional, mas fica ótimo. Faz um tempo que não vou no Diner, mas se continuar o mesmo, é um lugar muito bem recomendado. Trilha sonora, ambiente e cardápio pra se sentir em Nova York. Aparentemente eles não colocaram cardápio de sobremesa no site, mas há duas muito boas: os wafles com sorvete são especiais, o wafle é crocante por fora e macio por dentro, e o Devil’s Food Cake é referência, nunca comemos um tão bom.

Shana Tová!

E algumas fotos não ortodoxas de um ortodoxo: Yoel Weisshaus posando pra American Apparel: