Category Archives: Artes plásticas

Quem me dera o Vincent Munier

Algumas fotos do Vincent Munier:

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Vincent Munier se tornou meu fotógrafo favorito. Gosto muito do Jim Brandenburg, mas Jim não tem publicado coisas novas no site, e é preciso reconhecer que essa elegância monocromática do Munier é hipnotizante.

As fotos do Munier me causam um finiquito (eta ousadia usar essa palavra num post que contém Munier), como as obras do Kamisaka Sekka, outro que já teria morrido mil vezes se elegância matasse:

E cá estou eu tentando brincar de Vincent Munier, a anos luz, mas me sentindo inspirada, reolhando fotos, trabalhando loucamente.

“Estou reolhando e reeditando um monte de fotos, quero olhar de novo todas. Estou pegando as fotos com céu branco, na ausência de ambientes com neve é o meu minimalismo de pobre” — o Cris estava bebendo água enquanto eu falava isso e quase engasgou porque queria rir, mas sei que ele gosta do minimalismo e falou que a gente devia fotografar mais as aves da praia, que a areia também servia de fundo claro e limpo. Quem sabe o Cris volta a se animar com fotografia.

Wabi Sabi – impermanência, imperfeição

No Museu Asiático de São Francisco encontrei dois livros muito bons. Wabi Sabi – The Japanese Art of Impermanence, e um livro do reverenciadíssimo Kamisa Sekka (considerado o pai do moderno design japonês), com imagens que eu nunca tinha visto. A Amazon tem os dois, links no final do post.

Eu já gostava muito do Kamisaka Sekka e da escola Rinpa, mas ainda não conhecia o termo Wabi Sabi. Quando comecei a ler e fazer pesquisas de imagens, caramba, nem sei como explicar. Talvez só em termos espirituais. Como se minha alma tivesse encontrado um poço de água fresca e límpida, e eu não entendia que minha irritação com várias representações estéticas, especialmente do que o mundo passarinheiro considera uma foto bonita, era só meu lado Wabi Sabi achando que estava tudo errado.

Conhecer o Wabi Sabi e jogar a palavra no Pinterest, e ver imagens como estas.

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O moderno design escandinavo tem semelhanças, que é algo que eu também já admirava, mas achando que era num ponto além do meu, não era fácil se imaginar morando todos os dias num lugar como aquele.

O conceito do que é Wabi Sabi me absorveu totalmente, faz meu coração vibrar daquele jeito quando você encontra algo que te soa como tão verdadeiro, tão límpido, tão capaz de matar sua sede.

Há bastante material na internet, e o livro do Andrew Juniper tem pra Kindle por US$ 9,90. Além de falar do Wabi Sabi, ele fala sobre história do Japão e dos conceitos estéticos do Wabi Sabi aplicados em diversas artes.

Numa visão rápida:

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https://www.amazon.com/Wabi-Sabi-Japanese-Art-Impermanence-ebook/dp/B007UPDDWU/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1477674052&sr=1-1&keywords=andrew+juniper

https://www.amazon.com/Kamisaka-Sekka-Modern-Japanese-Design/dp/3791347535/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1477674494&sr=1-1&keywords=kamisaka+sekka

Pela liberdade de fotografar e divulgar – fotografia em museus

Vocês já leram muitos textos que falam que fotografar é errado, e que saber observar e apreciar o momento é o certo.

Imagino que a discussão mais famosa é a de fotografia nos museus. O argumento do flash nem é mais citado, quem é contra fotografia no museu usa o argumento moral: o de que existe uma forma certa de apreciar uma obra de arte, e que tirar uma foto da obra ou um selfie com ela é errado. E que se você fotografa, você perde a capacidade de realmente apreciar a beleza daquela obra.

Olha como os argumentos estão errados:

1 – Com a proibição à fotografia, as pessoas absorvem mais a arte

A ausência da câmera não aumenta a capacidade cognitiva ou de concentração de ninguém, aliás, só nos prejudica. Você fica impedido de tirar uma foto da obra, da plaquinha que identifica, e continuar sua apreciação estética no Google, numa livraria. Você não pode divulgar sua foto nas redes sociais e promover o nome daquele artista e do museu, e também lhe é podado o prazer de rever aquela imagem no celular ou no computador.

2 – Ninguém precisa tirar fotos. Basta comprar um postal ou um livro do museu

Isso pode ser verdade se você quer uma imagem famosa, mas se você quer uma lembrança das obras menos conhecidas, ou de coisas como um brinco, um detalhe de um jarro?

Eu por exemplo sempre faço birdwatching em museus. Gosto de ficar procurando aves e outros animais nos detalhes das pinturas e das esculturas, nas artes decorativas. O crítico que condena as fotos pode me dar gratuitamente um livro bom e bonito exatamente com a seleção de imagens que eu sou capaz de fazer quando posso fotografar?

Outra bobagem desse argumento é ignorar a relação emocional com as fotos que você mesmo tirou, que estão no seu celular, ou no seu computador, ou na sua timeline. Essas fotos sempre serão muito mais valiosas do que qualquer imagem que você possa pegar de um livro ou de um download do site do museu.

3 – Fotografar as obras e tirar selfies com as obras é o jeito errado de apreciar um museu

Ah, polícia moral. O diretor do Museu do Prado, um dos poucos onde é proibido fotografar, declarou que não permite a fotografia porque quer que as pessoas apreciem o museu de um jeito tradicional. Nada de gente fazendo joinha do lado de uma estátua pensativa, ou de pessoas fazendo biquinho em frente ao quadro.

Falando dessa forma realmente parece que o Museu do Prado está certo, e que todos os outros estão errados. Mas será que a gente tem o direito de dizer como uma pessoa deve se relacionar com uma obra de arte? Tirando o óbvio como não fazer nada que possa danificá-la, se a pessoa olha para aquele quadro ou escultura e quer tirar uma foto engraçadinha posada ao lado dela, o que a gente tem a ver com isso? É porque visualmente nos ofende, porque gostaríamos de poder passear num museu em que os homens estão de calça comprida, cartola, as mulheres de vestido longo, todos com ares compenetrados, cochichando comentários inteligentes sobre a beleza de cada obra?

Oiê, estamos em 2016, isso é um devaneio. As pessoas vão aos museus de bermuda, chinelo,  têm celulares, câmeras, querem tirar selfies e postar imediatamente.

Se vou ficar meia hora parada em frente ao quadro, lágrimas correndo pelo meu rosto, momento epifânico, se vou tirar um selfie fazendo biquinho e ir pro próximo isso é problema meu. Desde que eu não seja invasiva de atrapalhar a circulação das outras pessoas, ou de me postar de um jeito que ninguém mais pode ver e, de preferência, que eu não fale alto, tenho o direito de fazer o que eu quiser, de me relacionar com aquela obra como eu quiser.

A luta deveria ser para desenvolvermos uma etiqueta de bons modos num espaço público. Em levar em consideração as pessoas ao nosso redor. Uma grande reclamação das pessoas que são contra fotografia em museus é de que você não pode apreciar uma obra sem que logo apareça um braço na sua frente. Isso pode ser verdade em frente a obras disputadíssimas como a Mona Lisa, ou a ala dos impressionistas. Mas olha só: o problema não são as câmeras, e sim a popularidade. Quem reclamou da câmera estaria igualmente incomodado pelo excesso de gente ao redor. Solução? Vá em horários e dias com menos movimento.

Eu já fotografei em um monte de museus e raramente atrapalho alguém, ou alguém me atrapalha. Em geral há espaço de sobra para ficar parado perto da obra, olhando, depois tirar o celular do bolso ou uma pequena câmera, registrar uma foto e pronto. Se a pessoa é espaçosa ou ruidosa ou folgada não foi a câmera que a tornou assim, a câmera é só um acessório.

As mudanças tecnológicas tornam cada vez mais fácil a gente cultivar um lado aéreo, impaciente, raso, procrastinador, ansioso pelas atualizações das nossas redes sociais e incapaz de se concentrar em algo por mais de alguns segundos. Mas gente, não é a proibição à fotografia que resolve isso.

 

Querem que as pessoas entendam melhor as obras de arte? Produzam vídeos pro Youtube, criem jogos e disputas

Se os diretores e críticos querem pessoas capazes de apreciar melhor as obras de arte, invistam em bons vídeos no Youtube com História da Arte, análise e crítica de obras de arte, relação da arte com o pop, com filmes, com livros. Vídeos bem feitos, divertidos, apresentados por alguém carismático. Invistam em formas de mostrar como a arte pode alterar sua visão do mundo, enriquecer seu cotidiano. Inventem algum tipo de caça ao tesouro semanal, coisas pra você procurar nos detalhes das obras. Alimentem o lado fofoqueiro — assim como as pessoas adoram falar de algum detalhe escandaloso da vida de celebridades, há muito para contar sobre a vida dos artistas (de preferência os mortos há muito tempo, em que a fofoca não prejudica nada). Conte sobre os conflitos, rivais, amantes, tragédias, mecenas, manias. Promovam workshops com noite de queijo e vinho sobre como ler, apreciar, degustar uma obra. Criem um jogo, um app que te explica por que aquela obra é incrível, que mostra as linhas de perspectiva da composição, close dos detalhes. Há várias estratégias para difundir o conhecimento.

A arte não precisa ter função ou objetivo, mas pra quem a considera algo restrito às paredes deprimentes de um museu estático em que tudo é proibido, mostrar como a arte reflete e influencia costumes e valores, que a arte pode ser inspiradora e libertadora, que a arte pode lhe ajudar a tirar fotos melhores, a ver mais beleza no mundo, a se vestir melhor, a ter uma casa mais bonita – essas coisas mudam sua visão de por que vale a pena contemplar as obras de arte.

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O Denver Art Museum tem várias áreas interativas. Cantinhos para você mexer com pedras coloridas, montagem de cenários, fazer cartões postais do velho oeste, poder colocar um chapéu de cowboy e se fotografar, poltronas com livros próximos que você pode pegar e folhear. Eles também têm uma sexta-feira por mês com happy hour e programações especiais para incentivar as pessoas a irem ao museu, socializarem. O Metropolitan tem programa para associados, bar na cobertura e promove encontros.

Há várias formas de fazer as pessoas se interessarem mais pela arte, sentirem que a arte faz parte de suas vidas. Colocar a culpa na câmera é só o jeito mais tolo de encontrar um bode expiatório para algo que é uma deficiência educacional e cultural das sociedades.

Atesto como experiência pessoal: dizer que sem câmera você curte mais um museu é besteira

Conheço o Louvre, o MET, o Museo Sorolla, o Denver Art Museum, o Getty Center, o Thyssen, o Museo Nacional de Antropologia, o Templo Mayor. E o Museo do Prado. Minha experiência no Prado não foi mais rica, pelo contrário. Lamento os detalhes ornamentais, as pinturas que já sumiram da minha memória e não tenho fotos pra relembrar. “Compra um livro do museu! Vá visitar o site do museu!” Se o Prado fosse o único museu que eu visitei na vida, faria isso. Mas não foi. Prefiro rever minhas fotos dos outros museus, passear pelo Google, pelo Pinterest. E assim quem perde é a divulgação das obras presentes no Prado.

Talvez você já tenha ouvido falar de uma pesquisa que diz que as pessoas que não fotografam lembram melhor das coisas. Parece interessante, não? Mas você sabe dos detalhes da pesquisa? Foi feita uma vez com 28 estudantes. http://www.cnet.com/news/constantly-taking-photos-may-mess-with-your-memory/

O outro detalhe da tal pesquisa é que a conclusão é muito óbvia: você pode fotografar qualquer coisa como um registro, pra não precisar guardar aquilo dentro da sua cabeça, e poder checar depois. Eu não decoro endereços de restaurantes, eu tiro uma foto da tela do Yelp ou do TripAdvisor. A pesquisa diz que apesar da memória do grupo com câmera ser pior no geral, era melhor para os casos em que foi pedido para eles fotografarem detalhes das obras. Isso não é óbvio? É tudo uma questão do seu foco.

Quando fotografo museus, o objetivo não é provar que estive lá ou postar no Facebook. Quero ter uma lembrança de obras que chamaram minha atenção, com uma seleção que eu nunca veria igual num livro. E com frequência não fotografo a obra inteira, mas um detalhe. Isso faz eu prestar mais atenção ainda na obra, além de poder levar comigo o registro da imagem do que me chamou a atenção. Como alguém pode dizer que isso faz eu absorver menos?

 

Algumas fotos de museus

The Metropolitan Museum of Art – MET – Nova York

 

Museo Nacional de Antropologia – Cidade do México

 

Museo Sorolla – Madrid

 

Getty Center – Los Angeles

 

Denver Art Museum – Denver

American Musem of Natural History – Nova York

 

Denver Museum of Nature and Science

(além de ser ótimo, tem salas de cinema Imax. Assistimos a um filme da BBC, o Tiny Giants, que fez o Cris e o Daniel chorarem. Eles ficaram bravos comigo quando contei que eu não chorei)

 

Thyssen-Bornemisza Museum – Los Angeles

 

Templo Mayor – Cidade do México

 

Louvre – Paris

 

Museo do Prado – Madrid

Nada.

Zero.

Regras idiotas fruto das fantasias de um diretor que tenta impor seu gosto pessoal sobre a realidade cotidiana.


Mais informações

Why Can’t We Take Pictures in Art Museums?

John Singer Sargent

O Sargent. Quanto mais olho, mais penso que atualmente é meu artista favorito. Já fui bem fascinada pelo Klimt, Munch, Schiele, Hopper. E Sorolla é muito bom, mas o Sargent tem um quê hipnotizante, graças a sua fase de retratos destruidores-de-amizades e com olhares tão intensos.

Acho que é isso que me atrai tanto agora. Essa capacidade de retratar as pessoas. Que faz transparecer poses tão humanas. Personalidade. Orgulho. Vaidade. Arrogância. Bondade. Ingenuidade. Malícia. Sensualidade. E todo mundo percebia, é claro.

“Every time I paint a portrait I lose a friend”.

Queria conseguir fotografar gente do jeito que o Sargent pintava retratos (mas sem a parte de perder os amigos). Colo aqui umas notas, que demonstram a consciência dele da técnica, e que explicam em parte as pinturas:

Sargent’s Notes

     1.   Painting is an interpretation of tone. Colour drawn with a brush.

    2.   Keep the planes free and simple, drawing a full brush down the whole contour of a cheek.

     3.   Always paint one thing into another and not side by side until they touch.

     4.   The thicker your paint—the more your color flows.

     5.  Simplify, omit all but the most essential elements—values, especially the values. You must clarify the values.

     6.  The secret of painting is in the half tone of each plane, in economizing the accents and in the handling of the lights.

     7.  You begin with the middle tones and work up from it . . . so that you deal last with your lightest lights and darkest darks, you avoid false accents.

      8.  Paint in all the half tones and the generalized passages quite thick.

     9.  It is impossible for a painter to try to repaint a head where the understructure was wrong.

http://keenewilson.com/page/2947/john-singer-sargents-painting-techniques

Uma seleção dos tais retratos

 

Exemplos de outras obras lindas

 

Um desenho a carvão do Yeats!

william-butler-yeats-1908

 

Um dos quadros mais famosos dele é o Madame X, hoje no Metropolitan. Ficavam dizendo que o quadro, de 1884, causou muito porque tinha uma alcinha de vestido escorregando pelo ombro, e eu não conseguia enxergar a tal alcinha. Depois descobri que criticaram tanto que ele repintou a alça. E encontrei algo que mostrava a imagem original. As coisas que eram motivo de escândalo no passado…

madame-x_antes-depois

 

Auto-retrato

Sargent,_John_SInger_(1856-1925)_-_Self-Portrait_1907

Capricorniano do mesmo dia que eu. A meu ver, um retrato que expressa bastante do orgulho caprino de quem se sabe (ou pelo menos se acha) muito bom. Estranho pensar por que os amigos se ofendiam com os retratos.

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Ainda sob o tema de bons retratos, vou compartilhar aqui um cartaz que adorei. Festival de Primavera de Sevilha, o cartaz de 2013. Vi num boteco na viagem de 2015, fui até pesquisar sobre o assunto, infelizmente os outros cartazes não são tão bons. Bonitos, mas esse se destaca pela intensidade do olhar da moça, o movimento do braço como se fosse o registro de algo fugaz, não a pose para um retrato. Uma imagem que realmente prende o olhar. E foi legal achar essa foto da apresentação do cartaz, com a presença da modelo. Uma moça bem bonita, mas o que traz a distinção à pintura é a habilidade do artista em transferir essa aura pensativa e de efêmero.

cartelferia

Kamisaka Sekka

O Japão com a França da Art Nouveau dá nisso. Conheci os trabalhos dele só em 2012, numa exposição no Metropolitan. Apaixonei. Se elegância matasse, ele teria morrido mil vezes.

Kamisa Sekka, nascido em Kyoto 1866-1942, descendente de samurais, pai do design moderno japonês.