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10. Qual a coisa mais maluca que você já fez?

Continuo barbarizando no meu grupo do 1o grau. Hoje respondi mais uma pergunta do caderno, e decidi que não seria algo como filhos ou cor favorita.

“Vocês podem pensar que a coisa mais maluca que eu já fiz é propor um caderno de perguntas pra gente que se conheceu só até os 14 anos, a maioria nem lembra um do outro e faz 25 anos que essas pessoas não se encontram. E, além de propor, ir respondendo as perguntas uma a uma.

Mas é claro que não! Já tive muito tempo pra fazer várias coisas malucas, e o bom de fazer coisas malucas é que fica cada vez mais fácil fazer outras coisas malucas. Sou daquelas pessoas que acredita de verdade que a vida é curta, que a gente não devia ter medo de fazer as coisas por receio de vexame, críticas, ou fracasso. Que é sempre melhor fazer e depois rir e ter uma história, do que não fazer. Sempre aconselho as pessoas a fazerem, com a ressalva “desde que não seja nada que dê cadeia”.

Entre as várias coisas malucas que já fiz, tem uma especialmente mico. Eu trabalhava numa consultoria econômica, naquela época coordenava um pequeno departamento de marketing que, além de cuidar do site, revisão, formatação, impressão dos trabalhos, também cuidava dos eventos internos e externos, incluindo a festa de final de ano. Minha equipe era bem unida, e naquele ano decidimos fazer um show de talentos. Tínhamos os músicos, o pessoal que sabia tocar algum instrumento ou cantar, mas a gente queria que várias pessoas participassem, não só quem era bom em algo. Pela confraternização.

Pra dar o exemplo, eu e o Cris cantaríamos uma música do Chico Buarque (o Cris, meu marido, conheci na empresa. Eu não estou mais lá, ele é sócio-diretor e continua). A gente não tem nenhum dote musical. Nenhum. Mas a música era Biscate, que é um dueto alegre, a gente ia apresentar pela diversão de dublar e fazer caras e bocas.

De última hora um diretor decidiu tocar no violão a música pra gente cantar. Isso acabou com nosso playback, mas a gente não teve coragem de falar pra ele não participar, já que estávamos incentivando todo mundo.

Então eu e o Cris, com microfones, totalmente desafinados, cantamos uma música difícil do Chico Buarque na frente de 60 pessoas. Um dos sócios dele, que é da música, afinado, toca bem violão, estava com tanta vergonha alheia que começou a aplaudir no meio da música, daquele jeito pra finalizar logo e acabar com a tortura.

Ouvi um dos economistas falando “vocês falaram que podia ser qualquer coisa pra apresentar, mas não imaginei que podia ser mesmo qualquer coisa”.

Foi bem ridículo e mico, mas nunca senti vergonha. A empresa era bem legal, informal, descontraída, ninguém puxava o tapete dos outros, e a gente achava que valia a pena cultivar esse clima de fraternidade.

Não espero que você também conte alguma coisa maluca que você já fez, ou que queira participar da brincadeira do caderno de perguntas. Mas eu vou responder todas as perguntas, algumas por semana, e quando nos encontramos daqui a 2 meses, ou no dia 15, não serei uma completa desconhecida: você pode querer conversar comigo e não vai precisar ser naquele nível superficial de “onde você trabalha, quantos filhos você tem”. Ou você pode decidir que é melhor ficar longe e manter as crianças longe :). Mas não precisa ter medo, como disse o César, minha mente é extrovertida, mas ao vivo eu sou uma pessoa quieta e reservada. Não sou tímida, mas em geral ouço mais do que falo, e só falo se a pessoa está mesmo interessada no assunto.

Abraços e beijos!”

movimento-pela-extinção-voluntária-da-espécie-humana

Preces respondidas rápido demais: horrorizando os católicos e a chance de falar de bullying

Hoje de manhã fiz uma prece pública, pra expressar o quanto eu quero outro tipo de relações entre as pessoas. Vocês sabem: sentido é a gente que inventa, então estou associando a prece aos eventos que se sucederam:

  • um amigo ornitólogo, desses bem competentes, me escreve pedindo pra eu dizer o que que é uma ave que eu postei a foto num post, e diz que pode ser uma nova espécie. Ele é muito competente. Mas eu sou de Occam, a ave estava longe e não na melhor posição pra identificar, então não me permiti ter um ataque cardíaco. Mandei mais três fotos, ele concordou que deve ser o que eu achava que era, mas alguma mutação com plumagem diferente. (Acreditem, não é todo dia que um ornitólogo top acha que você pode ter descoberto uma nova espécie. Foi um bom teste pro meu emocional).
  • Por algum motivo o assunto da conversa mudou para um conhecido que andou expressando carência e comportamentos não muito adultos no Facebook. Esse amigo ornitólogo falou disso. Mas eu conheço o cara que foi gafento, gosto dele, e o defendi. Falei dos problemas dele, dos motivos prováveis dele ter feito isso, e como podemos ser compreensivos com as pessoas que têm problemas. Ele concordou comigo e me brilhou a alegria de ter contribuído com a promoção da bondade.
  • As pessoas que estudaram comigo dos 7 aos 14 anos estão se articulando pra fazer um grande encontro. Entrei pro grupo do WhatsApp, principalmente porque quem está agitando o evento é um cara de quem eu gostava bastante, há um tópico no Facebook sobre o encontro, e aconteceram coisas engraçadas:
    – um dos meus colegas me chamou de a mais CDF da turma e hahahahaha. Pensei em várias respostas pra ele (se tivesse clicado no nome dele e visto as fotos de perfil, não precisaria ficar pensando, tudo faria sentido). Antes de eu ter chance de responder, esse amigo que está organizando o encontro falou que o comentário era bullying. Resolvi não discutir nada, só curti os comentários. Vi que agora apareceu outra pessoa pra falar “é verdade [que a Claudia era mais CDF] hahahahaaa”
    – quem é novo não deve saber disso, mas CDF significa cu de ferro, era o nome antigo pra nerd, mas sem glamour, só como motivo de riso e deboche.
    – não estou chateada com essa. Na verdade, fico esperando a figura, ou outra pessoa, provocar um pouco mais e me dar só um motivo pra responder direito.
    – no grupo do WhatsApp… lembram de tudo que eu falo sobre se expor de forma cuidadosa, nunca falar nada ofensivo ou perigoso? Bom, eu nunca faço isso. Ou melhor, eu adoro correr os riscos de assumir a estratégia de risco, que é falar algo polêmico, mostrar um pouco de mim, e já identificar quem vai rir ou quem vai se horrorizar. No grupo eles estão marcando um encontro ao vivo para falar do grande encontro, o meu amigo que está organizando o evento falou “posso qualquer dia depois das 19h”, e eu falei “isso só me faz pensar que você deve ser outro membro do movimento pela extinção voluntária da espécie humana”, “Por quê???”, “Imagino que você não tem filhos. Quem tem filhos tem muitas restrições de dias e horários”.

Vários falaram dos filhos, e alguns citaram o nome de Deus. Deixei claro que adoro crianças, que era uma brincadeira, mas já serviu pra mostrar um pouco de mim, e dos outros.

  • foi depois de eu ter escrito este post, mas ainda foi ontem: na linha de se expor, abri um tópico no meu Facebook contando de alguns filmes e livros que me fizeram chorar bastante, e pedi pros outros contarem histórias deles. Teve um cara que eu conheci num passeio neste ano, gostei muito dele, eu tinha linkado o nome dele e ontem apareceu a resposta:
    “Há vários na lista, alguns que assisti muitas vezes outros que assisti e não tenho coragem de rever, por enquanto.

    Adorava exibir e debater com meus alunos “Mar Adentro”, atuação belíssima de Javier Bardem, excelente direção. Sou fascinado pela temática vida e morte e nesse filme os diálogos e dilemas me faziam mergulhar nessa questão.

    Tanto quanto “Asas do Desejo” (Wim Wenders) com seu diálogos e monólogos: ” O tempo cura tudo, mas e se o tempo for a doença”. Morri uma semana depois dessa.

    Ah, chorei muito também com “Dançando no Escuro”, que é uma sessão de tortura do início ao fim, mas, mesmo sabendo disso, resolvi ir assistir sozinho no cinema, sábado chuvoso, sessão da meia-noite. Resultado, saí do cinema, paguei o estacionamento e peguei o carro chorando aos prantos. Dirigi pela marginal durante quase uma hora e não sabia se a água que via na pista era chuva ou lágrimas.”

Não é lindo? E várias outras histórias lindas que me contaram.

A gente fala muito mal do Facebook, mas o Facebook é só o meio, o conteúdo é a gente que cria. Divirtam-se, arrisquem-se, exponham-se.

Se eu tivesse mais amigos

http://www.quietrev.com/in-defense-of-small-quiet-accomplishments/

“Two days before the New Year, while scrubbing the morning’s oatmeal from its pot, I took stock of 2016 and felt glum. Not because the year was without highlights, achievements, and growth, but because each of those things seemed very small and personal. I made baby steps, not grand leaps ahead—tiny triumphs to tell my wife over dinner but not crow about on Facebook.

Looking closer, I found every shiny success came with a critique hidden within it, like a shadowy worm burrowed inside delicious fruit. Not good enough, that creature whispered. You could have been bigger and better, looking back on the past twelve months free of regret, happy with all you’ve done.

(…)

My anxieties that I’m not living loudly enough are focused through the lens of parenthood and marriage. My anxieties tell me that if I had more—money, success, friends, things—my son and wife would be happier. Which is why, five days before Christmas, I rolled out of bed at dawn and, my eyes watering from the arctic December Brooklyn breeze, headed to Best Buy at a nearby mall.”

Um artigo muito bom no Quietrev. O autor é um escritor, o texto é bom, as conclusões também. Não gosto de todos os textos do Quietrev, de alguns eu discordo, ou acho que terminaram de forma um tanto abrupta. Mas esse é digno de um escritor.

Vivo essa situação peculiar de ser uma mulher sem filhos, que decidiu deixar o trabalho e fazer só o que eu escolho (como o virtude-ag.com e pequenos projetos relacionados com a divulgação da natureza), e tenho um marido que me permite fazer o que eu quiser. Em resposta, esse “o que eu quiser” é bastante sensato. Gasto pouquíssimo em roupas e sapatos, em geral de marcas baratas, e sou capaz de passar meses sem comprar nada. Não vou à manicure (só mantenho minhas unhas curtas, sem esmalte), faz anos que não faço tratamentos estéticos. Corto meu cabelo duas vezes por ano. A maioria das minhas viagens e passeios sem o Cris são pra lugares próximos, não caras, e não viajo sozinha se ele estiver numa fase mais pilhada do trabalho, quando eu sei que minha companhia vai fazer diferença.

Desde a adolescência penso que sucesso profissional não é medida de sucesso de vida. Fora isso sou mulher, e sei que existe uma diferença. Um homem que não trabalha ou que não ganha bem sente um peso muito maior nas costas.

Entre as angústias de Brian Gresko, eu sei o que é pensar “deveria ter mais amigos?”

Já escrevi sobre isso em outros posts. Contando que eu estava aí dois anos atrás. Pensando se eu era chata, com valores errados, desperdiçando minha vida e a prova era o fato de eu ter poucos amigos, não badalar, não ter muita coisa pra anunciar no Facebook.

Em 2014 descobri a palavra misantropia, voltei a blogar, e conheci os Brancos, dois amigos queridíssimos. Essas três coisas acabaram com a minha crise.

Não que eu veja os Brancos com frequência. De lá pra cá eles tiveram filhos (não um com o outro, cada um com seu respectivo cônjuge), o … mudou de emprego e perdeu os dias livres da semana. Às vezes passo meses sem encontrá-los. Mas sempre conversamos pelo WhatsApp. A … é alguém capaz de me mandar mensagem de feliz aniversário de me tirar lágrimas, quase como uma declaração de amor. Não um feliz aniversário, tudo de bom, e sim um desfile de elogios que eu nem sei como responder.

Tenho os MMs. Os tais amigos queridíssimos com quem troco e-mails pra falar das questões mais importantes e íntimas. Um dos MMs nem mora no Brasil, passo bastante tempo sem vê-la, mas isso não diminui o carinho e a confiança.

Tem pessoas bem queridas que eu encontro de vez em quando. Gente com quem eu me sinto conectada, que me falam de coisas pessoais com sinceridade, que perguntam sobre a minha vida com interesse.

Me afastei das pessoas que não me falam com franqueza. Que não são capazes de ser intimistas, que não prestam atenção em mim (no outro, na verdade, você percebe que a pessoa só enxerga a si mesma, não está tendo um diálogo de verdade com você). Ou as que me falam mentiras ou desculpas esfarrapadas e acham que eu vou acreditar.

Tenho poucos amigos. E não tenho uma rotina de ver sempre esses poucos, às vezes passo meses sem encontrá-los, ou eles são capazes de demorar semanas pra responder um email. Mas são pessoas com quem tenho uma ligação tão especial que me preenchem, e depois de tê-los conhecido, não consigo aceitar menos do que isso no conceito do que é ou deveria ser um amigo.

Fora isso sou uma misantropa-introvertida-esnobe-filha-da-puta, casada, e que viaja bastante, então não tenho os tais problemas de se sentir sozinho no fim de semana, não preciso da presença constante dos amigos.

Acho que todo mundo precisa ter amigos. E a medida do Alain de Botton parece boa. A de que você precisa ter pelo menos uma pessoa pra quem você possa pensar em ligar às 4h da manhã, sem medo. Sou muito sortuda, porque consigo pensar em mais de uma pessoa pra quem eu poderia fazer isso.

Todo mundo precisa ter amigos, mas não meça isso em quantidade. Almeje ter bons amigos e cultive essas flores raras.

Segunda tentativa de encerrar 2016

Tentei e não consegui escrever um bom texto de final de ano. Desperdicei o Natal com uma mensagem insípida, caindo pro lado de lá no exagero do egocentrismo, me perdoem. Blogar é algo egocêntrico, mas é claro que sempre que escrevo devia me esforçar pra transformar o pessoal em algo que se conecte com outras pessoas. Apaguei o post anterior porque ele não era um desses e nem sei se este será digno.

As intenções ainda são as mesmas. Eu te agradeço pelas vezes em que você passa por aqui pra ler. É bom pensar que talvez eu te ajude a se sentir mais forte, mais capaz de assumir o controle da sua vida.

Obrigada. Não sei quem vocês são, mas saber que há as visitas fortalece minha confiança no invisível. Misantropos, introvertidos, desenquadrados, inconformados, ou o que quer que sejam. Na maioria das vezes alguém que pesquisou algo como “sou errado? Sou louco por pensar tanto e sentir tanto, por não me divertir ou achar graça em tantas coisas que divertem e entretêm os outros? Preciso de tratamento?”

Espero que meus textos sobre misantropia e o sobre introvertidos tenham ajudado. E que as panfletagens sobre assuntos diversos tenham contribuído pra se sentir mais forte quando alguém está propagando machismo, racismo ou qualquer outra postura de injustiça. Ou que talvez você esteja mais interessado em natureza e passeios de natureza. 🙂

Obrigada.

Boa passagem de ano, que o simbolismo da época lhe traga entendimento, resoluções, coragem, disciplina e energia pra 2017.

Talvez eu volte só no fim de janeiro, talvez blogue durante a viagem, ainda não sei como serão os dias.

Boa virada!

Curas demais pra mim

“A … me olhou com uma cara engraçada quando eu contei que no final de 2011 eu já tinha registro de 670 espécies, mas daí desencanei de ir atrás de lifers. Parecia que eu precisava da cura gay”

“Talvez precise mesmo”

“Cura gay, cura misantropa, cura feminista, cura birdwatcher… melhor deixar pra lá”

“São muitas curas. Mas eu cobro barato pelo pacote completo”

—– x —–

Uns três anos atrás eu estava numa minicrise existencial. Hoje sei que sempre fui misantropa, mas naquela época ainda não conhecia a palavra e fazia as famosas perguntas “sou errada por não querer sair mais vezes? Deveria estar fazendo alguma coisa pra conhecer mais gente? O fato de eu gostar de poucas pessoas, de conhecer poucas pessoas, significa que estou fazendo algo errado na minha vida? Meus amigos, os Pretos, não me convidam mais pra sair com eles porque casei e algumas vezes que me convidaram eu não podia ir porque tinha compromissos com a família, e daí desencanaram, ou porque não gostam mais de mim? Sou chata e sem graça? Estou vivendo minha vida de um jeito errado? Meus valores estão errados? Essa ideia de viver na torre, isolada, é besteira?”

No começo de 2014 aconteceram três coisas. Conheci os Brancos (o nome dado a um grupo de amigos), descobri a palavra misantropia, e acabou minha crise existencial. Parei de pensar que era chata e sem graça (ou melhor, sei que sou chata e sem graça pra muita gente, mas esses não me interessam), voltei a blogar (o claudiakomesu.club é meu primeiro blog em que assumo meu nome, mas antes dele já bloguei muito anonimamente), tenho o prazer de volta e outra receber mensagens de outros misantropos que me escrevem pra dizer obrigado por me ajudar a ver que não sou errado no mundo, renovei a fé nos meus valores.

Mas ainda levou um bom tempo pra deixar de ser besta.

Eu sempre escrevo sobre a importância de você se valorizar, amor próprio. Mas hoje eu vejo que passei anos sendo idiota. Faz muito tempo que eu sei que os Pretos, meu grupo de amigos que conheço há 20 anos, fazem muitas coisas das quais sou excluída. É verdade que eu casei, que eles são solteiros. Mas também é verdade que sou uma casada que tem vários dias livres, e que com as coisas como conversas em grupo, não custaria nada me convidar, mesmo que metade das vezes eu não pudesse porque tenho compromissos com o Cris, o Daniel, a família do Cris.

Passei anos (vários anos) dando mais importância pra eles do que eles pra mim. Hoje consigo olhar pra trás e pensar em quantas vezes chamei-os pra jantar em casa, fiz compras, carreguei coisas pesadas (fardos de água com gás, de cerveja, as comidas), fiz a comida. Eles vieram aqui, comeram, rimos, conversamos. Eles vão embora. Eu arrumo tudo sozinha. Daí passa um tempo que a gente não se vê, sou eu que entro em contato e falo pra gente se encontrar. Sei que eles têm problemas de dinheiro, então em vez de irmos a algum lugar, ofereço de novo jantar em casa. Mesma coisa.

Enquanto isso, nas conversas aparece menções a outros encontros deles, entre eles, em botecos, restaurantes ou qualquer cosa. Também vejo que uma delas sempre tem dificuldade em encontrar data pra gente se ver, mas nas conversas ouço menções a outros grupos, outras atividades recorrentes, e entendo que nossos encontros são segunda, terceira ou quarta opção. Nunca trazem nada ou se oferecem pra ajudar a cozinhar. Nunca me ajudam a arrumar a mesa e a cozinha.

São meus amigos e se tiver alguma coisa que eu possa ajudá-los, vou ajudar. Assim como tem um deles em quem confio pra falar de coisas especiais e angustiantes. Mas passei tempo demais deixando que eles ocupassem um espaço na minha vida que é bem desproporcional ao espaço que eu ocupo na vida deles. E pior do que isso, sendo a trouxa que passa anos sempre falando oi, puxando conversa, que pergunta como a pessoa está, que convida pra vir jantar em casa, que traz lembranças de viagem, chocolate de free shop, prepara lembrancinhas de Natal, dá presente de aniversário e não ganha presente de aniversário. Converso com as pessoas por caixa de mensagem, conto algo sobre o que estou fazendo da vida, como estou me sentindo, e pergunto “e você, como está?”, a pessoa está há meses sem responder. Pra outra mando mensagem de feliz aniversário, nada de oi, nem sei se a pessoa leu. Troco e-mails, uma conversa de três, com assuntos sérios e pessoais da gente. Uma delas passa cinco semanas sem falar nada.

Talvez meus amigos sejam apenas bem ruins em função enfática ou sociabilidade? Talvez.

Ou talvez eu devesse acreditar em frases do tipo:

believe

Entre as várias curas que não terei (não deixarei de ser misantropa, feminista, pró-gay, slowbirdwatcher), tem pelo menos uma em que talvez minha alma esteja salva. Parei de investir tanto tempo, energia, dinheiro, lamentos, com pessoas pra quem não sou importante.

— x —- x

Alguns Pretos leem meu blog. Avisei alguns que ia sair dos grupos mas que continuamos amigos. Pra outros talvez pareça uma afronta, ou quem sabe eles pensem que demorou pra eu me tocar. Só sei que fazer coisas explícitas e simbólicas tem seu valor. Depois que escrevi este post, já entrei em contato com três pessoas queridas que não vejo faz um tempo, mas que quero reencontrar quando voltar das férias (talvez o blog fique uns 20 dias sem atividade, a partir de amanhã). Com uma delas fiquei papeando uns minutos pelo WhatsApp e combinamos de almoçar quando eu voltar, a outra mandei mensagem e na hora me respondeu “Olá Clau, estou de saída agora, respondo depois, bjs”, e sei que vai me responder logo, mesmo não sendo nada urgente. E a outra acho que ainda não abriu. E consigo pensar fácil em 10 pessoas queridas que eu quero rever e encontrar sempre, e algumas delas vou procurar quando voltar.

Sensação boa de coisas resolvidas.

Viva uma vida feliz. Quando as pessoas te tratarem como se não se importassem com você, acredite nelas.

Jantares fáceis com amigos

Mais uma vez, os títulos apelativos. Vocês verão que a maioria dessas fotos foram feitas de dia, mas poderiam ter sido feitas à noite, é só pra ilustrar. Além do engodo do horário, tem o fato de que a maioria delas não foi em festa, nem em ocasião especial. O problema das festas é que acabo desfocando em fotografar. Mas as ideias de cardápio continuam valendo 🙂

Você também tem achado desumano jantar fora? Cansou de pagar R$ 120 por um vinho que você sabe que não vale nem R$ 50? Coma mais em casa. Já fiz alguns posts sobre o assunto, neste vou repetir algumas informações e compartilhar pratos favoritos.

Música e aperitivos pra diretoria

Cozinhar não precisa e não deve ser um sofrimento. Não deixe a diversão só pra quando estiver tudo pronto, divirta-se de cabo a rabo. Antes de começar a preparar as coisas, coloque alguma música animada, divertida, inspiradora. Comece a beber, belisque alguma coisa. Não cuide dos preparativos como se fosse a parte chata, e sim como parte do programa. Eu e o Cris cozinhamos juntos e se vamos beber, já abrimos o vinho ou o espumante ou a cerveja, ou começamos com uma dose de vodca ou pinga, pegamos um pouco de pão e queijo ou presunto. E sempre com música.

Bebida!

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A gente tem assinatura na wine.com.br, e costumamos comprar vinhos de lá. Fim de semana passado fizemos uma noite de queijo e vinhos e todos gostaram do Goulart T, um Torrontés. Não sei se as pessoas teriam gostado menos se soubessem que é barato, não contamos 🙂 Bem aromático e ótima acidez.

Além do Goulart T 2013, separei alguns espumantes, rosé e um Pinot Noir que estavam bem avaliados e com preços bons. Os preços abaixo são os de associados, quem não é sócio paga um pouco a mais.

Rosé Vin Mousseux R$ 34,85 https://www.wine.com.br/vinhos/vin-mousseux-veuve-d-argent-rose-brut/prod8469.html

Goulart T Torrontés 2013 (atenção pra safra) R$ 35,70 https://www.wine.com.br/vinhos/goulart-t-torrontes-2013/prod12606.html

Espumante Toro Loco Cava Brut R$ 45 https://www.wine.com.br/vinhos/toro-loco-cava-brut/prod8722.html

Espumante Louis Bouillot R$ 62,90 https://www.wine.com.br/vinhos/espumante-louis-bouillot-perle-noire-blanc-brut/prod12733.html

Pinot Noir Maycas R$ 63 https://www.wine.com.br/vinhos/maycas-reserva-especial-pinot-noir-2014/prod14382.html

Espumante Chateaau Beausoleil R$ 68 https://www.wine.com.br/vinhos/chateau-beausoleil-aoc-cremant-de-limoux-brut-reserve/prod14145.html

O Cris também costuma comprar vinhos pela Vinci: https://www.vinci.com.br/

Se você gosta de beber, é importante sempre ter bebidas em casa porque assim você gasta menos: fica mais fácil decidir não ir ao restaurante. Você fica pensando “vou pagar R$ 140 por um vinho que não vale R$ 60, quando tenho várias bebidas boas em casa”. Outra dica é sempre ter pães bons congelados, e algum queijo, presunto, alheira congelada. Se der preguiça de cozinhar, basta abrir um vinho, colocar uma música, preparar um pão com algum acompanhamento e você já tem a noite.

Comidas

Queijos, pães, frutas e legumes

Qualquer um com um pouco de vivência de Europa sabe que essa é uma combinação clássica,  alegre, boa pra quando tem várias pessoas. Dá pouco trabalho, as pessoas ficam petiscando e papeando por horas. Tive uma mesa linda na semana passada, não tirei nenhuma foto, mas vou descrever:

– pães bons. Se não puder ter pães das padarias especiais, com fermentação natural, tudo bem ser pão francês. O mais importante é estar quentinho e casca crocante. Depois que o forno aquecer, deixe os pães por 5 a 7 minutos. Se não for festa, e for só um pedaço de pão, use a frigideira com o fogo no mínimo, sem nada de óleo, apenas tampe e vire o pão de vez em quando por uns 8 a 10 minutos.

Julice sempre tem pães bons
Julice sempre tem pães bons

– queijos. Na ausência dos franceses, o meu favorito nacional é o taleggio da Serra das Antas. http://www.serradasantas.com.br/queijos-de-vaca/taleggio-br/taleggio.html. Quando maduro, ele é muito cremoso e saboroso, mas tem um odor bem forte, prepare-se. Se você acha que é fedor demais pra você, pode optar pelos bries, camembert, Saint-Marcellin, Saint-Paulin, gorgonzola.

A Serra das Antas é uma marca muito boa, mas é importante os queijos estarem maduros, ou perdem toda a graça. A gente comprou na terça-feira dois taleggios, e um Saint-Paulin e eles ficaram fora da geladeira até o sábado, dia da festa. Na quinta eu não aguentava mais o cheiro dentro do apartamento e os coloquei na varanda, com a tampa de pratos do microondas. Também compramos gorgonzola cremoso, pecorino, Pont L´Eveque. Tivemos que ir à Casa Santa Luzia. Às vezes algum Pão-de-Açúcar ou Mambo tem taleggio ou Saint-Paulin, mas é inconstante. O Cris comprou uns queijos de ovelha num dos queijeiros da Vila Madalena (acho que tem uns dois, O Mestre Queijeiro e o Queijeiro).

– Manteiga e patê. Se puder, invista numa manteiga boa e algum patê.

– Azeitonas, palitos de cenoura e de pepino.

– Uvas bem doces e de preferência sem sementes. A Thompson costuma ser boa.

– Pera, morango, geleia de frutas vermelhas, nozes.

– Pra quem gosta, presunto cru, salame ou outros embutidos. No nosso caso a festa tinha crianças, que não têm o menor interesse ainda nos queijos, então fizemos linguiças, elas comeram pão com linguiça.

As fotos acima não são de uma festa, mas de diversas refeições pra dois, que idiotice não ter fotografado a mesa arrumada. Arrume tudo em travessas bonitas numa mesa central, onde você também pode colocar pratinhos pequenos, garfos, as taças pros vinhos e copos pra água. As pessoas se servem e sentam nos sofás. Veja se todos têm onde apoiar os pratos e taças. Eu trouxe uns bancos da cozinha pra servir como mesinhas de apoio. Não descuide da trilha sonora, também é importante pra dar o clima de festa. Pra mim a rádio da Nina Simone ou do Louis Armstrong, no Spotify, nunca decepciona.

Bifes grossos e mal-passados

Este é mais difícil pra uma festa com várias pessoas, mas pra um jantar romântico ou um comitê pequeno, vale a pena comprar as carnes do deBetti, ou os Wagyus. Acém Wagyu com osso ou sem osso não é caro e é bem satisfatório. Um pedaço de uns R$ 35 rende um jantar pra mim, o Cris e o Daniel. Cortamos em três pedaços, esfregamos um pouco de alho triturado, molho inglês e pimenta do reino, colocamos um pouco de sal na hora de fritar numa frigideira grossa em fogo bem alto, uns 3 minutos de cada lado. Se você gosta de mal passado, erre pra menos, tire da frigideira, corte um pedaço pra ver se já está bom, se precisar volte pro fogo.

Acompanhamentos:

– polenta mole (você faz na hora em poucos minutos. Deixe a água ferver, depois vá despejando a polenta aos poucos e mexendo. Na caixa tem uma medida que sempre deu errado pra mim, ficava dura demais, então não uso mais medida, só sinto a consistência. As importantes você precisa colocar um pouquinho de sal, a polentinha já vem salgada);

– batatas tostadas, as doces ou as inglesas, com ou sem alecrim. Cozinhe no micro-ondas até ficarem macias quando você enfia o garfo, é mais ou menos uns 3 minutos por batata, depois fatias médias, frigideira com um fio de azeite;

– Cenouras cortadas em fatias finas e tostadas com azeite também ficam muito boas;

– farofa é outro acompanhamento clássico dos bifões;

– também combina bem com Cobb salad;

– se for um almoço, brócolis cozidos no vapor, mas de forma a ficarem ainda bem duros. Você pode servir assim, só com azeite, ou depois fatiar e tostar com um pouco de azeite, alho e sal também fica muito bom. Outro acompanhamento prático pra almoço são essas caixinhas de feijão pronto da Camil. Lavamos, e depois temperamos com pimenta do reino, alho triturado e sal.

 

Comida de boteco

Essa também não é fácil para várias pessoas, a gente costuma fazer quando estamos em dois, mas é possível. Costumamos fritar bolinho de bacalhau, esse Ribeira Alves que tem em qualquer Pão-de-Açúcar. É bem decente, o importante é você raspar bem o bolinho se houver cristais de gelo em volta dele, ter óleo de forma a cobrir todo o bolinho, colocar em óleo quente mas depois baixar pra fogo médio, senão ele queima por fora e fica frio por dentro. E deixar até ficar com uma cor bem bonita. Fica ótimo com uma pimenta porreta, são esses da foto com as taças de espumante.

Além dos bolinhos de bacalhau fazemos alheiras tostadas na frigideira, picamos palitos de cenoura, pepinos em conserva, azeitonas, pão quentinho e crocante.

Brunchs com ovos poche, presunto cru, espumante.

Steak tartare também é um clássico fácil de fazer. As receitas vão mandar você usar carne fresca, mas a gente sempre usa os pedaços de filet mignon que fracionamos e congelamos. O único cuidado é pra descongelar, de preferência sem ser no micro-ondas, e sim numa vasilha com água, em saco duplo ou triplo se for necessário pra água não invadir a carne.

Patatera light. Comemos na Espanha e adoramos, mas não temos coragem de fazer a receita tradicional, que vai bastante banha de porco. Então fazemos uma versão que é a batata cozida no microondas até ficar macia, depois amassa como se fosse um purê com bastate páprica, um pouco de azeite, cubinhos de bacon ou lardo. É um ótimo acompanhamento pra polvo, ou pra comida de botecom com embutidos. A patatera é essa foto em que aparecem duas taças de cerveja.

 

Comida americana

Costelinha de porco. Costumamos deixar marinando por umas 3h em suco de laranja, molho inglês e alho triturado, ou em cerveja, mostarda e alho triturado. Salga na hora de ir pro forno. Para conseguir costelinhas bem macias, o importante é fogo baixo. Pode ficar na prateleira inferior do forno, mas tem que estar a uns 200 graus ou menos por umas 2h.

Cobb salad

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Alface frisée, tomate, avocado, cubinhos de lombo defumado bem fritinhos, ovo cozido com gema mole mas não líquida (7 minutos a partir do momento que começa a ferver), molho de coalhada com um queijo do Mestre Queijeiro que lembra Roquefort ou gorgonzola. Delícia.

É uma salada muito rica e satisfatória. Dá pra jantar só ela e um pouco do pão quentinho e crocante. Se todos seus convidados gostarem dos ingredientes e da ideia de jantar salada, também dá pra fazer pra festa. Aprendemos no 210 Dinner, de Higienópolis, acho que não tem mais mas era muito boa. A gente costumava se encontrar por lá e jantar só a salada.

 

Hamburgueres

Também dá pra fazer pra festinhas. Deixei os hambúrgueres pré-feitos, mal passados, e na hora que forem comer monta no pão e (os acompanhamentos que as pessoas quiserem como cheddar, gorgonzola, ou queijo prato) deixa uns minutos no forno quente e serve. Tomate, alface, pepino ou cebola, pra quem quiser, coloque depois de tirar do forno.

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Os do deBetti a R$ 16 cada são excelentes, mas se quiser fazer os seus, também ficam bons. Tem receita aqui: http://claudiakomesu.club/crie-rituais-bons-coma-gostoso-em-casa-parte-23/ (dá um ctrl F hamburg). Já testamos várias misturas de carne, mas uma das nossas favoritas e fáceis de achar é coxão duro com acém. Só acém a gente achou menos tchans.

 

E nestes posts tem sugestões de várias outras receitas que fazemos sempre, quase todas são bem fáceis, práticas e a maioria é barata.

http://claudiakomesu.club/comidas-nao-tao-light-mas-irresistiveis-parte-33/

http://claudiakomesu.club/crie-rituais-bons-coma-gostoso-em-casa-parte-23/

http://claudiakomesu.club/reeducacao-alimentar-pra-emagrecer-de-verdade-e-viver-mais-parte-13/

http://claudiakomesu.club/pratos-faceis-com-peixes-e-frutos-do-mar/

Intimidade

Essa coisa maravilhosa que te permite falar sobre qualquer coisa, ou quase qualquer coisa, especialmente para xingar o outro ou os outros.

Sentir-se querido, respeitado, ouvido, ver que a pessoa está lá com você, ou mesmo quando vocês estão fazendo cada um uma coisa, a sensação é de conforto silencioso, aconchego. À vontade perto do outro, com o corpo do outro, em tocar o outro. Não estou falando de libido, mas de poder estar próxima, ou tocar o braço, o ombro, a perna, a cabeça do outro e não ser uma invasão de espaço.

Também não significa ausência de conflitos. É amor e confiança profundos, que sabem que aguentam o tranco da honestidade e clareza.

Meu enteado, por exemplo. Uma das 7 maravilhas do mundo moderno. A primeira vez que o vi, um bebezinho no colo do Cris, ainda com aqueles olhos cinza-azulados. Na teoria sou uma madrasta, mas sempre fui tratada como Tatá (tinha uma época que o Cris me chamava de Cla-clá, ele não conseguia falar e falava Tatá). Uma tatá é muitas coisas, mas de uma forma simplificada podemos dizer que sou uma irmã mais velha. Com quem ele pode falar sobre misantropia, o horror às multidões, sobre metralhar pessoas, sobre vômito, cocô, dizer que meu machucado no joelho parecia algo podre, falamos sobre o dia que eu morrer, meu enterro, eu ser assombração. Sobre injustiças – um tema muito sensível pra gente, não sei se é influência minha, mas no fim é um dos meus orgulhos que a gente tenha brigas e discussões e se ele começa a balbuciar eu falo que não pode balbuciar, que tem que falar o que ele discorda, e ele fala. Ou às vezes não fala na hora, mas depois voltamos ao assunto.

Cantamos músicas com melodias reais e letras inventadas na hora, até alguém não aguentar e apelar pro “piuuummm” – coisas de Larte. Concursos de quem é a coisinha mais nada a ver do dia. Numa das vezes, o troféu foi pro desconhecido que me abordou com um “German?”, e até agora tentamos imaginar que tipo de gente acha que eu sou alemã.

Olhar o cardápio e dividir pratos. Jogar uma partida de Two Dots e me devolver o celular com um “Ih, Tatá, eu perdi um dos seus coraçõezinhos”.  Andar abraçado com o meu braço, algo que meus amigos do colegial já sabiam – em dias quentes eu transpiro um pouco e logo já estou gelada, o privilégio de andar com um sistema de refrigeração ambulante.

Meus MMs, com quem fico trocando e-mails compridos sobre assuntos diversos, mas principalmente sobre nós mesmos, cagadas, medos, problemas, angústias, coisas que queríamos que fossem diferentes.

Pardais-gigantes-dourados eternamente em volta de uma mesa qualquer, tomando uma cerveja gelada, pra compartilhar os acontecimentos da vida mas principalmente pra poder falar os putaqueopariu do dia-a-dia. E talvez em breve de volta a alguma trilha, andando em silêncio, atentos às maravilhas emplumadas, mais sincronizados do que soldados quanto aos momentos de andar mais devagar, ou parar, ou ajoelhar pra fotografar.

Intimidade.

Se você não tem gente com quem se perder assim, vá atrás. A vida é muito melhor com intimidade.

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(não esqueci da parte 3/3, as comidas botecosas ou de brunch, ainda leva uns dias pra eu postar)