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Misantropia – parte 2

Não é que eu não goste de pessoas. Apesar da etimologia de misantropo estar ligada com a ideia de ódio, não é como eu me sinto, e na maioria dos textos que li, casos de ódio são raros. Verdade verdadeira é que há muitas pessoas de quem gosto, com quem simpatizo, e que gostaria de ver. E que gosto da companhia, mesmo que seja pra falar pouco.

Veja que falar pouco é bem diferente de falar coisas banais… não sei bem como explicar, mas não é tanto uma questão de superficial ou profundo, mas de sentir que a pessoa está com você, ou não. Ela pode estar em silêncio e você sabe que vocês estão juntos, ou ela pode estar falando sem parar só pavonices, ou coisas boring, que ela já falou pra mais 10 pessoas naquele dia, e são esses os momentos em que você oscila entre suicídio e assassinato.

Uma festa ou um evento raramente é o momento para aproveitar o que as pessoas têm de mais doce. Numa aglomeração com mais de 3 pessoas, em geral as pessoas parecem apenas ansiosas pela sua vez de falar, e há pouca comunicação de fato. Minha impressão é de que todos querem falar, contar algo engraçado, ou de algo que fizeram. Quem quer ouvir o outro? Quem quer saber sobre o que você realmente pensa sobre algum assunto?

Eu quero. Eu gosto das pessoas, gosto de ouvir o que elas pensam e sentem. Não me sinto ansiosa pra falar, contar algo de mim, a não ser que meu interlocutor esteja realmente interessado. Não costumo prolongar conversas sociais, se me fazem uma pergunta por educação costumo desviar o assunto pra uma pergunta direta sobre algo que a pessoa falou “o que você pensa sobre tal assunto?”, “por que você se interessou por tal coisa?”, “o que faz tal livro valer a pena?”

E sempre gosto de perguntar sobre filmes, livros, seriados, o que você gostaria de ver. Porque fala sobre a pessoa, sobre os interesses atuais delas. Alguns respondem, outros se escondem.

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De onde se conclui que minha misantropia não é por não gostar do contato com as outras pessoas, mas por não gostar da socialização nos moldes comuns. Se fosse pra se encontrar com as pessoas pra ter uma suruba total – ha, brincadeira, só pra ver se você estava lendo mesmo – se fosse pra encontrar com as pessoas pra conversar de verdade, ou pra compartilhar a companhia de uma pessoa inteira, eu socializaria muito mais. Mas pra encontrar com pessoas que estão fazendo pose, ou falando de coisas que repetem pra qualquer um, prefiro ficar em casa.

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Histórias de cordeirinho

Uma das minhas cenas emblemáticas, que guardo com todo carinho

DR. LECTER You still wake up sometimes, don’t you? Wake up in the dark, with the lambs screaming?                                     

CLARICE  Yes…                                     

DR. LECTER Do you think if you saved Catherine, you could make them stop…? Do you think, if Catherine lives, you won’t wake up in the dark, ever again, to the screaming of the lambs? Do you…?                                     

CLARICE  Yes! I don’t know…! I don’t know.                                     

DR. LECTER  (a pause; then, oddly at peace) Thank you, Clarice.

E por isso sempre digo que me sinto um psicopata canibal. Iria a encontros sociais o tempo todo, se fosse pra conversar sobre coisas importantes e verdadeiras assim.

 

O que é ser misantropo – parte 1

O verbete da Wikipedia é bom: https://pt.wikipedia.org/wiki/Misantropia

E se quiser ler mais posts sobre misantropia, criei uma categoria: http://claudiakomesu.club/category/_misantropia/

Não costumo assumir rótulos, mas aconteceu do Cris me contar um diálogo com um dos melhores amigos dele, um dos caras que deu o tal presente pirografado muitos anos atrás. Eles conversavam sobre trabalho voluntário, e o Cris falou “tem as ONGs ligadas ao meio ambiente, eu poderia me interessar porque é assunto que a Claudia gosta, mas sabe como é complicado, ela é misantropa e…”, e o tal amigo disse que não tem problema, que ele conhece uma ONG em que o fundador também é misantropo, e acha que daria para encontrar uma função legal que respeitasse minha misantropia.

Sempre falo de ermitão, isolamento, torre, anti-social. Mas eu nunca tinha levado a sério a ideia de ter um rótulo clássico descrito pela ciência. Se você também se sente um pouco desenquadrado, ou precisa entender um ermitão, talvez este post ajude 🙂

O Google repete os mesmos trechos, em inglês e português. O texto de que mais gostei é este:

http://tartarugademocratica.wordpress.com/2014/01/17/misantropia-socializacao-e-respeito-vantagem-ou-desvantagem/

“Misantropia NÃO É uma doença, nem um distúrbio, mas apenas um padrão comportamental, como muitos outros, não existe tratamento e, penso eu, que nem deveria existir um; pois, reitero: NÃO É DOENÇA, E O MISANTROPO É QUASE SEMPRE UMA PESSOA FELIZ.

Por ser extremamente caseiro e reservado, o misantropo tem uma enorme tendência em ser uma pessoa reflexiva e observadora; normalmente utiliza-se de ironias para se referir a grupos de pessoas, pessoas ou situações. O misantropo normalmente prefere gastar seu tempo com atividades literárias, seja no sentido de letramento tal como abordado por Magda Soares apud Simões (escrever e ler), como este que vos escreve; ou como o misantropo moderno, muitas vezes confundido com os geeks, que são os nerds de computador, muito envolvidos com informática e TI. (…)

O misantropo por preferir o isolamento, só participa de eventos sociais ou tende a se socializar quando extremamente necessário, sendo muito pragmático quanto às pessoas à sua volta (…)”

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Vou falar das partes com que me identifico e que parecem ser comportamentos típicos. Compartilho aqui porque sempre acho que ler sobre as coisas estranhas que os outros fazem ajuda a se sentir mais normal.

– Gosto de ficar sozinha. Gosto mesmo. Sou aposentada, no apartamento em que moramos não tem nem gato, cachorro ou planta. O Cris passa o dia fora, o Daniel vem uma vez por semana, e nos fins de semana a cada 15 dias. Sou capaz de passar o dia sozinha, sem falar com ninguém. Em geral tenho e-mails ou zapzaps pra responder, mas ainda assim muitos dias fico offline pra poder me concentrar em algum trabalho, e em geral não me sinto solitária. (fora em algumas poucas ocasiões em que me sinto fraca, fracassada, solitária, chata, sem graça, sem amigos, pensando que eu devia ser uma pessoa diferente… mas sempre passa, e cada vez mais rápido).

– Tenho aversão a multidões. Aversão de evitar festas ou aglomerações (o Cris se diverte em falar que eu evito lugares com mais de 3 pessoas), de voltar cansada e às vezes com dor de cabeça depois de ter que andar em um lugar com muita gente (mais de 3), de quase ter surtado uma vez que fomos ao Z Déli da Augusta comer hambúrguer e era um lugar tão pequeno em que as outras mesas ficavam tão coladas que o Cris teve que me falar “aqui, olha pros meus olhos, respira”.

– Fui capaz de pedir pra não ser mais madrinha de casamento de uma pessoa querida, porque a tarefa – só soube depois, requeria costureira, três ou quatro provas de vestido na companhia das outras madrinhas, preferencialmente maquiagem e cabelo na companhia das outras madrinhas – e usar cor de rosa. Não é algo de que me orgulho, e foi difícil ter que explicar isso pro amigo, mas conforme as instruções iam chegando, comecei a me imaginar bem brava no dia da festa – que deveria ser um momento de pura alegria, então, com muita delicadeza, pedindo mil desculpas, dizendo que eu sou estranha e esquisita, que gosto de andar no mato, que não tenho nem secador de cabelo, pedi pra sair.

– Não ter grande interesse por festas. Ser idiota a ponto de às vezes contar isso. “Me desculpe, acho que não vou à sua festa de aniversário… se você estivesse com um problema, precisando de verdade, eu iria, mas pra uma festa, não conte comigo”.

– Não vejo minha família com frequência, apesar dos meus pais não morarem longe. Mas converso bastante com eles toda semana, às vezes falo que vou, e são eles que dizem pra não ir, que é cansativo pra mim. Meu pai – outro misantropo inveterado sempre me diz “amamos você, você nos ama, todas as vezes que precisei você veio. Não se preocupe com o resto”.

Sei que sou esquisita, mas sei disfarçar, e se não fosse uma tendência à sinceridade muita gente nem saberia.

– No trabalho, por exemplo, eu era totalmente funcional e, acreditem ou não, tendendo pra Miss Simpatia. Depois que saí, e o Cris comentava com alguém sobre o “ah, não, a Claudia não vem porque é uma festa e tem mais de 3 pessoas”, meus colegas ficavam surpresos.

– Houve uma ocasião em que trabalhei num estande de uma RPPN que eu ajudava, e as pessoas me conheciam principalmente por e-mail, em que eu falava francamente minhas opiniões. Meu amigo da RPPN ficou abismado de me ver atendendo as pessoas, vendendo produtos. E até confessou “quando você contou que tinha vendido 100 Super RGs no seu trabalho (um projeto muito legal, um Super Trunfo de aves brasileiras) até pensei que você podia estar mentindo, que você tinha comprado mas pra não me chatear disse que tinha vendido… mas agora eu acredito que você vendeu”.

– Sou capaz de ir a um show ou a uma apresentação. Por exemplo, umas semanas atrás vimos duas apresentações de Cirque du Soleil em Las Vegas, e mesmo tendo sido zoados no Mystere (daquelas situações em que tem um palhaço que te pega pra Cristo, passeia com você pelas fileiras, holofotes na gente, todo mundo rindo), isso não foi ruim. Talvez porque estava tudo dentro de um contexto. Mas ir a um restaurante e ter que ficar ouvindo o papinho da mesa ao lado me incomoda muito, ter que ouvir as histórias dos outros invade totalmente minha privacidade. Eu e o Franzen grunhimos de frustração.

Bom, cabe perguntar: por que raios eu sou contra a socialização? Veja o próximo post.

 

Mais explicações sobre seres estranhos

O que é ser estranho? Ser estranho sempre depende do contexto, é claro. Dos valores vigentes naquela comunidade.

Meu texto anterior não era um exemplo de coisas estranhas que eu faço. No máximo uma menção a um dos aspectos de quimera: admirar a sensatez do pensamento científico, mas também ser capaz de acreditar em coisas não científicas, desde que inofensivas.

Exemplos das coisas que me tornam um ser estranho: falar pouco, não saber falar de assuntos cotidianos, ser analfabeta televisiva e de atualidades, gostar de coisas que poucas pessoas gostam e não gostar de coisas que muitas pessoas gostam, não ter nenhuma habilidade física, nenhuma – nem Continue reading Mais explicações sobre seres estranhos

Breve carta aos desenquadrados

Tenho um lado místico, confesso. Um lado que acredita em poder de mentalizações, máfia do invisível, anjos sedutores e um Deus que é só amor e bondade. Ao mesmo tempo, tendo pro ceticismo, gente como o Carl Sagan é meu herói. Digamos assim: meu lado místico me ajuda a levar a vida com mais leveza e diversão, mas eu nunca apostaria nada sério nele. Minha mãe, por exemplo, também acredita em mentalização, não gosta de tomar remédios, acha que se negar a doença logo ela some. Eu fico puta da vida com ela. “Quer ter pensamento positivo? Tudo bem, eu também tenho. Mas pensa coisas boas E vá ao médico, não pode deixar de ir ao médico”.

Entre minhas crenças inofensivas atuais, tenho a ideia de que Deus conversa comigo por meio de filmes ou livros. Às vezes ouço ou leio algo e penso “isso é pra mim, estão falando comigo”. Um tempo atrás Gandalf Continue reading Breve carta aos desenquadrados

Sei que vou morrer / não sei a hora

Sou uma ostra que vive numa torre. Uma ostra, ou outro molusco qualquer, não é por causa da pérola não, é só pela expressão “esse cara é uma ostra”, ninguém fala “esse cara é um vôngole / marisco / mexilhão”. E a torre é pelo isolamento do mundo, um apartamento num lugar alto.

Ermitão é outra palavra, que até o Tarot me diz muito bem.

O Cris, que aprendeu a ser muito esperto nos elogios (alguém capaz de me encontrar e dizer “foi uma Claudia e voltou meia… Você não comeu nada durante a viagem?” – homens, aprendam) me falou que quando leu a Elegância do Ouriço, pensava em mim. A personagem de 12 anos que quer se matar. “Por que pensou em mim?” “O desprezo pelas demonstrações vazias de cultura”, ou talvez tenha falado “pelas demonstrações de cultura vazia”, nesse caso, as duas são sinônimos no efeito. Continue reading Sei que vou morrer / não sei a hora