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Não tenha medo de quebrar a cara

Quem acompanha o blog sabe que a neurociência é minha nova queridinha. Mesmo que não acompanha, o resumo é: você tem controle de muita coisa. Pros sentimentos por exemplo, não existe nada inato, é tudo cultural. E tudo que é cultural é aprendível e desaprendível. (A neurociência não fala isso, esta parte é a extrapolação minha, típica de gente que cresceu vendo Hollywood, adoras o EUA e a ideia de que temos controle sobre nossas vidas).

Mas realmente há uma parte da neurociência que diz que nossos sentimentos são coisas que a gente aprende.

Ora.

Eu acredito nisso.

E acredito de verdade que somos capazes de dosar o peso das coisas na nossa vida. Nossos pensamentos, nossos valores, nossas decisões moldam nossa realidade. Temos uma boa dose de controle com o quanto sofremos por alguma coisa.

Por exemplo, eu e o Cris já passamos por vários perrengues em viagens, de comprar passagem pro dia errado, de não poder embarcar porque faltou um documento, de quebrar o barco e ficar 2h sob um sol escaldante, de atolar o carro numa estrada com pouco movimento, estar sozinha no Kruger e furar o pneu numa estrada com pouco movimento, de sermos achacados pela polícia corrupta do México, que queriam levar US$ 800, do Cris perder a carteira com todos os cartões, de sermos azucrinados pelo controle de passaporte em Amsterdã, e depois ter que correr, correr mesmo, pelo aeroporto todo pra não perder nosso voo – várias histórias, e nenhuma delas deu um tom negativo pra viagem. Não ficávamos reverberando isso, entende?

No caso dos relacionamentos amorosos, acredite em mim, as coisas são simples assim:

– Você aprende a gostar de você, você entende que você é uma pessoa incrível, e se você ainda não se considerar uma pessoa incrível, você vai trabalhar pra mudar isso, seja cuidando da sua aparência, seja aprendendo mais sobre quem você é, tendo a porra da sua lista de qualidades, escrevendo sobre você, sabendo contar uma história bonita sobre quem você. Cultive auto-confiança.

– Você também vai cultivar a compreensão de que viver só se aprende vivendo, que a gente tem que viver e experimentar. Se der certo, deu, se não deu, vai aparecer outra oportunidade. Se não dá certo, depende de você o quanto você sofre com aquilo.

– E pros misantropos, então, como sempre apelo pro argumento da inteligência: pense o quanto é algo banal não dar certo. Quer dizer, é claro que pode dar muito certo. Mas pensando no worst case scenario. Se não der certo? Não deu, tudo bem, era uma das coisas possíveis de se acontecer.

– Eu insisto tanto sobre cultivar a certeza de que somos todos pessoas incríveis porque isso é uma força, isso nos ajuda muito a nos arriscar e a não ter medo de dar errado. Quando você tem confiança sobre quem você é, não é que você nunca vai quebrar a cara. E sim você sabe que tudo bem quebrar a cara. Que às vezes dá certo, às vezes não dá. E se alguém não quiser ficar com você, não significa que você é uma pessoa desprezível, feia, ruim ou sei lá o quê. Apenas não deu certo.

Todo mundo (que não tem o tal ticket dourado) tem que viver e experimentar. E fica bem difícil viver e experimentar se você fica alimentando receios de ser julgada, de se dar mal, de se machucar.

Querida nação misantropa: a gente entende muito de dor. Desde criança sabemos o que é a dor de se sentir diferente, à parte, excluído, errado, pária, sempre pensando demais e consciente demais. Algumas pessoas, como eu, passaram um tempo considerando a possibilidade de se matar.

A dor de levar um fora, de quebrar a cara, é apenas outra dor. E a gente não precisa ter medo da dor, ou do conflito, ou de discussões. Porque nós somos incríveis, e sobrevivemos a qualquer uma dessas situações. E somos inteligentes, e vemos o quanto aprendemos a cada situação vivida.

Todo mundo que não tem o ticket dourado precisa se relacionar e experimentar. Se ajude. Livre-se do medo de não dar certo. Se não der certo, se doer, é só outra dor. Você não precisa ter medo da dor. Você é forte. Passa. E sempre será uma pessoa melhor depois disso.

Sobre o ticket dourado: ando me pavoneando por aí, como se estivesse carregando um jarro de terra (coisas de cultura pop, Piratas do Caribe), e me vejo obrigada a comentar. Meu ticket dourado é o fato de eu estar casada há 13 anos, um relacionamento que parece ser pra vida toda, com um homem que eu adoro conversar, com quem adoro passar meu tempo, com quem tenho tantos interesses em comum, e que também me adora e também não imagina a vida dele sem mim. Além do Cris, tenho o Daniel, meu enteado, que conheço desde que era pequeno. Tenho alguns amigos muito queridos e totalmente confiáveis. Vivo em paz com minha família. Não preciso trabalhar, ou melhor, não preciso ganhar dinheiro, só trabalho com as coisas que eu quero. Viajo com frequência, adoro meus dias, e tenho vários dias que nem saio de casa (apesar de conversar com pessoas por email, blog, WhatsApp, Facebook). Não tenho carências. É o ticket dourado da misantropia, e antes de chegar aqui, tive vários relacionamentos, o suficiente pra ser quem eu sou. E quando penso em algumas pessoas queridas que fazem umas coisas bem idiotas, um dos padrões que vejo é o fato dessas pessoas não terem rodado quando tinha 20 e poucos. Tenho certeza de que isso faz muita diferença na vida. Por isso insisto sempre nesse ponto: se você é solteiro, seja misantropo ou não misantropo, tenha experiências, se relacione, se dê bem ou se dê mal. É o melhor jeito de evoluir como pessoa.

Sobre a chatice misantropa, e a necessidade de quebrar a imagem de autossuficiente

—– voltei pra este post umas horas depois e acrescentei um pedação no final. Sexta-feira 17h30, se você leu antes disso, talvez queira ver a nova versão, marquei com fúcsia (minha cor favorita por causa do nome tão legal).

Oi querida …, sempre gosto das suas perguntas. Pra variar vou responder pelo blog porque acho que pode ajudar outras pessoas.

Não imaginei que contar sobre minha irritação em ficar ouvindo “daí a gente viu a onça (…) e a onça” fosse render tanto. Quem primeiro falou do texto, a querida …, acho que a questão da chatice dela é… nem sei o que é, não consigo imaginá-la sendo chata. Ela não é misantropa, é só alguém muito sensível, ligada com a literatura, a música. E fiquei contente de pensar que posso ajudá-la a se expressar mais, a se preocupar menos em ser desagradável ou falar algo que os outros não vão gostar, a não ter medo do conflito.

Mas a chatice misantropa é outra história.

Não é certo deixar alguém querido e próximo, por exemplo, o namorado ou marido ficar falando “você é muito difícil, você é uma pessoa difícil”. Eu cortei essa do Cris porque isso é um caminho perigoso. Acredito de verdade que nossos pensamentos determinam o jeito como a gente vê as coisas e nossa realidade, e alimentar o “você é uma pessoa difícil” enfraqueceria nosso relacionamento, quem sabe levasse a uma separação. Então, pela saúde do nosso relacionamento eu falei “você não alimenta esses pensamentos sobre eu ser difícil, e eu não alimento os meus sobre os perrengues de você ser disperso, distraído, atrapalhado”.

Mas se nós misantropos somos chatos? Somos muito chatos. Essa história de pensar em tudo, de estar consciente de tudo, de perceber as intenções dos outros quando nem eles mesmos percebem o que transparece nas palavras, nas entonações… essa história de querer racionalizar tudo, inclusive presentes ou gentilezas, é uma chatice sim.

Minha mãe tem uma loja de roupas e ela sempre insistia pra eu pegar alguma coisa, mesmo eu falando que não precisava. Teve um fim de ano que limpei o armário e levei as coisas pra lá, ela tem conhecidas que recebem doações de roupas e sapatos pra bazar de igreja. Daí ela viu várias roupas que tinha me dado, com pouco uso, nessas sacolas, e ficou chateada. Mas também nunca mais insistiu pra eu pegar algo, e se o assunto surge, ela fala algo como “não, eu sei como você é chata pra roupa”.

Teve uma época que eu fotografava sempre com a câmera no tripé e, durante os passeios, os guias que eu contrato se ofereciam pra carregar minha câmera com tripé. Nunca deixei. Meu tripé é leve (mas as pessoas não sabem disso, elas só olham aquele trambolho e ficam aflitas), eu dizia “não se preocupe, meu tripé é leve, eu consigo carregar. No dia que não conseguir mais, troco de equipamento, mesmo que seja pra usar compacta). Num dos meus últimos passeios, eu levei o tripé, mas estava com a câmera numa alça no ombro, e o guia que estava comigo falou que levava meu tripé. Eu deixei. Porque era algo leve (diferente se fosse o tripé com a câmera), e porque eu sabia que ele queria fazer essa gentileza.

Você não faz gentilezas pros outros? Eu carrego sacolas pra minha sogra, abro e fecho porta do carro. Teve um passeio de barco que eu fui a primeira a descer, mas fiquei ao lado do barco, estendendo a mão pros outros. Ajudei um amigo meu e depois a noiva dele. Já escrevi sobre isso, adoro essa história, porque ela falou “obrigada. O Marcelo é tão cavalheiro, sempre me deixa pra trás”, e eu falei “sei como é”, e quando contei essa história pro Cris, ele falou “O QUÊ??? Eu não sou cavalheiro???”, e eu falei “não é”. E nas três semanas seguintes ele prestou atenção em mim, pra pegar sacolas da minha mão, chamar o elevador e abrir a porta (algo que sempre eu que faço). E depois esqueceu e voltou a ser como é 🙂

Fazemos gentilezas uns pros outros, e você devia aceitar a gentileza dos outros. Não é machismo, não pense que estão fazendo isso só porque você é mulher. Aceite. E retribua pro mundo, faça também.

Nossa natureza e tendência é de sermos pessoas tão racionais que é fácil ser dura, fria e desumana.

Como falei, hoje não cultivo nenhum relacionamento. Mas sou casada, não trabalho mais em empresa, tenho 40 anos. Eu tenho o ticket dourado misantropo, vocês não. Só por serem novos vocês ainda não têm esse direito de ficarem na torre. Vocês têm que se experimentar muito e se relacionar com as pessoas, faz parte do nosso aprendizado como ser humano, pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

O cara de que você falou, por exemplo. Acho que não é uma questão de cultivar ou de paparicar, mas, você tem interesse nele? Chama ele pra sair e descobre se vocês se interessam um pelo outro. Não precisa ser jantar romântico, aliás, os primeiros encontros é bom que seja de dia, algo despretensioso, fácil de encerrar se vocês sentirem que não rolou. Café, exposição, passeio, sorvete. Convide-o. Pelas coisas que você contou, ele tem bons motivos pra achar que você não tem interesse nele. Houve os azares, e fora isso, sempre leve em conta que os homens morrem de medo de serem rejeitados. É preciso um nível (ou vários níveis) a mais de coragem pra paquerar e tentar algo com um misantropo, então se você tem algum interesse, dá uma força, ajuda a começar.

Nas outras situações que você falou, exceto com a sua colega (já falo dela), acho que você tem que desenvolver alguma forma de se relacionar mais. Deixa eu tentar explicar.

Nossa tendência é de sermos rígidas, duras, sem traquejo e sem charme social. A maldição de ser racional demais. Nós temos direito de sermos o que somos, de sermos misantropos, de sermos exigentes e seletivos sobre o uso do nosso tempo. Mas também somos inteligentes, e eu sempre vou usar o argumento da inteligência pra mandar meus leitores misantropos queridos fazerem alguma coisa :), e uma delas é reconhecer que a interação com as outras pessoas é essencial pro nosso desenvolvimento. Pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

Viver só se aprende vivendo, e o vivendo significa relacionar-se com o outro. Mas o relacionar-se com o outro não significa ter que ir pra festas, baladas, shows e outras situações que em geral trazem muito sofrimento pra quem preza tanto o silêncio e a tranquilidade.

Olhe pra você de fora.

Pensa nas coisas que você me contou.

Não é fácil alguém se aproximar de você, certo? Porque no geral misantropos têm esse jeito de eu me basto e não preciso de ninguém. Isso é verdade a maior parte do tempo… Mas quem ainda não tem o ticket dourado tem uma parcela do tempo em que isso não é verdade. Somos humanos, somos mamíferos e precisamos de contato físico, de carinho, de nos sentirmos queridos.

Eu não vou te falar que existe um jeito certo de se fazer isso, ou mesmo que você é obrigada a fazer isso. Mas posso lhe dizer que sua vida será mais fácil se você desenvolver algo pra combater a dureza e o jeito de gente fria.

Por exemplo, eu cultivo um carinho por seres humanos que demonstrem um quinhão de busca. Me fale uma frase que mostra que você está falando algo que é mesmo importante pra você, algo de pessoal, e você tem minha atenção. Eu acho as pessoas lindas, se pudesse ser invisível, adoraria fotografá-las e mostrar pras elas o quanto elas são incríveis. Você sabe o quanto eu gosto de fotografia de natureza, mas quando entro nessa vibe de pensar no quanto o ser humano é algo espetacular, até penso que trocaria a fotografia de natureza por street – se eu pudesse ser invisível. Mas não gosto da ideia de incomodar ou de chamar a atenção, então fico na natureza mesmo.

No meu trabalho ninguém desconfiava da minha misantropia, eu era muito simpática com todo mundo, e não de forma falsa. Pessoas boas, com quem você encontra, dá um abraço ou beijinho, sorri olhando no olho, pergunta algo sobre a vida da pessoa, retoma alguma conversa.

Reparo nas pessoas que têm bondade e simpatia genuínas, e tento aprender alguma coisa com elas. Num dos livros do Patrick Rothfuss, o protagonista (que é de um circo) conta que existe um tom de voz e determinados gestos que impelem o público a aplaudir. Fiquei pensando no quanto existe de tom de voz e gestual das pessoas que fazem você pensar que aquela pessoa é gente boa, confiável. Reparo nas pessoas e tento aprender.

Por exemplo, eu sei chegar numa festa, entre desconhecidos, e ser uma pessoa legal. E é tão fácil: basta contar alguma história curta de bebedeira, ou algo tosco, vexatório ou atrapalhado que você fez, e logo isso cria um clima ótimo de pessoas contando das suas próprias histórias.

Quando há um pouco mais de clima, mesmo pra gente recém-conhecida, posso falar de momentos que me fizeram chorar ou que me comoveram – em geral com alguma encenação cômica e mudança no tom de voz, uma imitação de mim mesma sendo dramática, e isso também cria boas situações.

A gente tem esse jeito de gente que se basta. É nossa obrigação mostrarmos que somos humanos, que somos gente de carne e osso. Eu sempre tenho algo ridículo pra falar sobre mim, e isso sempre é útil pra deixar as pessoas à vontade.

Numa das visitas pra consultoria onde eu trabalhava encontrei o cara da área comercial, que é reconhecido por todos como alguém com muita lábia. Eu sabia que ele tinha ido pra Califórnia fazia pouco tempo, perguntei da viagem, ele contou, e em algum momento começamos a falar de Estados Unidos nos meses de férias, eu tinha ido pro Colorado e primeiro fiquei preocupada com os relatos de que os parques são lotados e têm filas, mas descobri que eram filas bem pequenas. Ele tinha ido num mês de julho também, e começamos a falar sobre o quanto esses americanos não sabem nada sobre o que é destino lotado “vai pra Ubatuba em qualquer feriadinho pra ver o que é fila e trânsito, peloamordedeus, porque tem uma fila de oito carros pra entrar no parque eles ficam falando que as férias são difíceis”, eu e ele falando as mesmas coisas e fazendo gestos com as mãos, como italianos, aqueles que querem dizer “como pode?” – e rimos e comungamos de um momento de brincadeira e descontração.

 

Não estou te falando como fazer, nem que você é obrigada a fazer. Mas os fatos são:

– pra gente ter uma vida mais rica e com mais significado, precisamos viver, nos relacionar com as pessoas. Gente de 20 e poucos anos tem essa obrigação. Misantropos de 40 anos que ganharam o ticket dourado têm o direito de ficar na torre, mas não vocês. Vocês precisam ir pra rua, quebrar a cara, se dar bem, se dar mal, viver.

– todo mundo de 20 e poucos anos precisa estar vivendo e experimentando muito, misantropos não são exceção. Faça isso agora, ou diminua muito suas chances de ter uma vida boa.

– e meus leitores de 30 e poucos que ainda não têm o ticket dourado, digo o mesmo: vão se relacionar, vão conhecer gente, vão quebrar a cara, se dar bem ou se dar mal, se apaixonar e depois ficarem arrasados, mas vão viver, é preciso. (pedaço novo, das 17h30)

– misantropos têm esse jeito de gente chata, dura, desumana. Porque essa maldita ou bendita super-racionalização do mundo nos leva a isso. Mas somos inteligentes (sempre o mesmo papinho), e podemos ser melhores do que o racionalmente burro. A gente sabe que só racional não é o certo, que o puro racional machuca gente querida e gente inocente.

– ou seja, a gente tem que se cobrir de glacê.

(me ignore, não resisti a ser infame)

– ou seja, a gente tem que desenvolver algo além do duro-racional-autossuficiente. Temos que encontrar o ponto em que podemos praticar, com sinceridade, a ternura, a generosidade, a comunhão, aceitar presentes e gentilezas.

– porque isso vai facilitar muito a tarefa de se relacionar com pessoas.

 

Eu não preciso mais pegar roupas da loja da minha mãe. Mas em geral aceito que ela me faça uma marmita, um pouco do almoço do domingo pra eu trazer pra São Paulo. Se eu não quiser comer no dia, congelo, como outro dia. Ligo pra eles toda semana, num momento que estou sem pressa, focada, conversamos mais de meia hora. Sempre tenho algo pra contar, seja do mundo do birdwatching, ou de viagens, ou alguma história com o Daniel ou o Cris. Tenho um amigo que dizia que não sabia o que conversar com a mãe, e que sentia que ela ficava frustrada. Se ele tentava falar dos assuntos que ele gostava, ela dispersava. Afe, qual  é, somos inteligentes, qualquer um sabe conduzir uma small talk, falei “conte algo do trabalho, alguma situação em que você agiu bem, fale algo pra eles sentirem que criaram um bom filho”.

Você devia aceitar o que sua mãe quiser te dar, mesmo que você não vá usar. E se ela sempre estiver comprando algo pra você, compre algo pra ela também. Pra algumas pessoas, isso é uma das demonstrações de amor. Há situações em que o mais importante é se colocar no lugar do outro, pensar na reação do outro. (Falou a pessoa que ganhou uma bolsa cara da irmã e devolveu pra ela, explicou que não ia usar… mas eu falei com muita delicadeza, e tenho certeza de que ela entendeu, e até gostou de eu ter falado). Mas veja que bolsa cara é diferente de pequenos presentes.

Devemos ser generosos e bondosos no relacionamento com a família, e isso não significa deixar de ser quem somos. Pense que há algumas coisas pequenas que não fazem muita diferença. É melhor ganhar o creme e não usar, dar pra alguém, do que negar, dizer que não vai usar, e chatear sua mãe, entende?

Com os pais não é tão difícil criar um relacionamento. Deixar eles sentirem que fazem parte da sua vida, que eles te ajudam.

Com desconhecidos, ou gente recém-conhecida que você ainda não sabe se vale a pena, você devia se mostrar aberta. Fazer alguma coisa pra incentivá-los. Lembre sempre que a gente tem esse jeito de eu me basto, e que precisamos fazer algo pra combater isso, pra dar coragem pra pessoa se aproximar.

Pro tal colega, ele tem vários motivos pra acreditar que você não está a fim, então se você talvez esteja a fim, convide-o pra sair.

A sua colega é uma outra história, é um karma. Não sei o que eu faria, eu também não suporto gente carente que precisa de elogios. Você conhece um seriado chamado Boston Legal? James Spader é um advogado na melhor tradição da eloquência americana, ele faz discursos incríveis. Sempre penso que foi por causa dessa atuação que o pessoal do Black List teve certeza de que ele seria a escolha certa. Num dos episódios a empresa está em polvorosa por causa da nova estagiária, uma loira peituda, e todos os caras ficam babando e falando dela, ela nem percebe, mas uma das mulheres fica muito ofendida com isso e a convence a processar a empresa. No final do episódio o que evita o processo é uma conversa honesta do Alan Shore (James Spader), em que ele chega pra estagiária e fala “você é uma mulher alta com peitos grandes, você sempre vai chamar atenção em qualquer lugar que você vá. Mas você não é só isso, você também é uma pessoa (e fala de qualidades dela, não lembro quais eram), mas até então eu não enxergava isso, e lhe devo desculpas por isso”.

Talvez algumas conversas francas com sua colega ajudem? Dizer algo gentil pra ela, sobre as qualidades dela, mas explicar que vocês têm diferenças da forma como vocês enxergam o mundo, que você fica chateada todas as vezes que ela tenta mostrar que você teria que mudar seu jeito de ser. Contar que existem milhões de outras pessoas que são como você, que também não gostam de badalação e que precisam de silêncio e sossego, e que isso não é um defeito. Se não me engano você disse que já tentou falar, mas como ela continua enchendo, eu falaria sempre.

—– mudanças a partir daqui

Minhas experiências em que tive que ter conversas sérias com pessoas que convivo… uma vez foi uma conversa com minha ex-empregada, outra uma bronca no Daniel. Resolveu a situação com a minha ex-empregada, e o Daniel, quando ele começa a sair da linha, só de ouvir a possibilidade sobre ter outra conversa séria ele volta a se comportar. Foram conversas longas, em que mantive a calma o tempo todo, fiz várias perguntas, dei exemplos, mas que o outro estava visivelmente desconfortável. Acho que uma bronca minha é algo do tipo sabugo enfiado no cu, e a pessoa que tem que passar por uma dessas faz qualquer coisa pra nunca, nunca mais na vida ter que viver isso. Acho que uma das coisas que fez o Cris aprender a rapidamente enxergar que está errado e pedir desculpas é a perspectiva de ter que encarar uma conversa chata comigo. Tem alguma chance de você ter uma conversa assim com sua colega pra ver se ela para te de encher? Não vai ser exatamente uma bronca, mas uma conversa pra se falar verdades, como o fato de “você me acha chata, mas você precisa entender que as pessoas têm valores diferentes, e que dependendo dos valores que você usar, você é a pessoa chata. Eu tenho defeitos, todo mundo tem defeitos, inclusive você. A gente convive, precisamos encontrar uma forma de fazer isso com harmonia. Tem várias coisas que você faz de que eu discordo ou não gosto, mas eu não fico falando tudo que eu penso, eu respeito seu jeito de ser, e queria que você respeitasse o meu também”. Quem sabe?

Somos pessoas chatas e difíceis. O que não dá o direito das pessoas ficarem falando isso, porque na verdade, quem nos diz “você é chato”, “você é difícil”, também é chato e difícil. As pessoas legais, as easygoing, os santos em que penso que pra mim são os exemplos de bondade, simpatia, esses nunca me falaram, nem me falariam nada, e acho que talvez nem pensem nesses termos. Eles parecem ter uma visão mais ampla e generosa sobre a vida e sobre as pessoas.

Só quem tem o direito de nos falar que estamos extrapolando no lado chato ou difícil é algum amigo querido. Alguém que vier falar isso não pra reclamar, mas porque nos ama e acha que estamos indo pra algum mal caminho. Eu posso me irritar de ouvir “onça”, na hora estava cansada e fragilizada a ponto de sentir refluxo quando pensava na história (meus tais blops, que às vezes tenho quando como algo que caiu mal, ou quando estou brava com pessoas, e sinto o refluxo só de ouvir o nome da pessoa. Quando o Daniel descobriu que eu estava tendo isso só de ouvir “onça”, me perguntou se eu já pensei em procurar um psicólogo). Mas não fui lá tirar satisfação com a carioca. Se eu tivesse ido, alguém próximo de mim teria que me falar que eu estava exagerando, provavelmente realmente precisando de tratamento.

Somos chatos e difíceis, com uma grande tendência a sermos duros e desumanos. Mas também está em nossas mãos combater essa tendência, de cultivar brandura, doçura, bondade, generosidade. Sou capaz de xingar muito alguém que tenha feito coisas ruins, seja atropelar um esquilo, ou me caluniar no Facebook porque (sei lá, acho que era porque não gostou de me ver numa posição de destaque). Mas é algo momentâneo, eu não fico pensando nessas pessoas, elas não me ocupam. No geral, o que tento cultivar são as ideias de que não conheço as dores dos outros, de que todo mundo tem um lado bom. Orson Scott Card me deu essa ideia: a de que se realmente pudéssemos conhecer as pessoas (ou outros seres, era um livro de FC), é impossível não amá-los. Não sei se eu iria tão longe, mas sei que todo mundo tem um lado adorável e que é possível se conectar com ele, se a gente não estiver traumatizada ou de saco cheio demais do lado ruim.

Tenho uma conhecida que uns amigos queridos adoravam falar mal dela, naquela maledicência inconsequente  e tão comum nas rodinhas. Pedi pra eles pararem. “Por que vocês ficam falando da …? Não tem por que a gente falar dela, a gente desperdiça nosso tempo falando dela, ela fica ocupando nossos pensamentos e tempo por quê?”.

Eu estava falando da questão do uso do tempo, mas também por achar injusto. E talvez um dia eu consiga fazer isso pela bondade. Tenho uma amiga que admiro muito, uma dessas que tem bondade genuína, e vejo que uma das coisas que ela não deixa é falarem mal de alguém que ela gosta. Mesmo que todo mundo do grupo tenha algo ruim pra se falar dessa pessoa, eu já vi ela falar “não falem assim dela, ela é minha amiga e eu fico triste de ouvir as pessoas falarem mal dela”. Guardei essa história, e agora presto atenção, quando alguém fala algo negativo sobre uma pessoa de quem eu gosto, e eu sei de algo que em parte explica o comportamento daquela pessoa, eu sempre falo sobre o motivo, e sobre as coisas boas que eu sei daquela pessoa.

E quero cada vez mais cultivar em mim a capacidade de ver as pessoas com doçura. Provavelmente nunca vou deixar de analisar, de perceber, de ver quando elas estão fazendo coisas idiotas, tentando me enganar ou se enganar, e posso até xingá-las muito na hora. Mas queria conseguir manter o tempo inteiro a consciência de que somos todos peregrinos na bolota azul, que todos temos nossas buscas, nossas dores, nossos sonhos.

Falei muito!

Me diga se algo do que te disse faz sentido, e pergunte o que quiser.

Beijos e abraços,

Claudia

Divagações sobre ser chata e difícil

– em geral não tenho problemas pra comer. Não consigo comer comida muito salgada, oleosa, ou muita fritura, mas acho que aí não é uma questão de frescura, e sim de saúde.  Tenho predisposição genética a pressão alta. Ainda não comecei a tomar remédio (como meus pais e irmãos tomam, há anos), mas um dia vou ter que tomar. A maioria das pessoas sabe o que é pressão alta, então se peço pouco sal, ou se falo que não posso comer porque está muito salgado, e digo que tenho pressão alta (é mais fácil do que explicar que tenho predisposição a), todo mundo entende, ninguém acha que é frescura.

– não tenho problema pra dormir. Durmo em qualquer lugar, em qualquer canto, a qualquer hora.

– consigo ouvir toneladas de bobagem e fazer cara de paisagem. Não preciso responder tudo de que eu discordo, sou capaz de ouvir muitas atrocidades e ficar quieta, se decidir que não vale a pena falar.

– além de ser capaz de ouvir atrocidades, sou capaz de ouvir conversas chatas e não dar mostras do quanto aquilo é chato. Ouço e até interajo.

– raramente falo demais. O mais comum é falar de algo de forma breve, e só vou falar bastante sobre o assunto se a pessoa estiver realmente interessada. Mesmo quando no grupo as pessoas focam em mim, perguntam de alguma viagem, eu falo de forma breve e logo emendo com um “mas e você, pra onde vocês foram nessas férias?”

– tenho um timbre de voz baixo.

– não sei contar causos ou piadas. É uma falta de charme social, mas ao mesmo tempo fará com que eu nunca seja a sem noção do grupo que vai contar causos ou piadas repetidas, todas as vezes.

– em geral não fico enchendo o saco das pessoas pra fazerem alguma coisa de tal forma. Ou aceito que não sou eu que estou fazendo, e que as pessoas fazem as coisas de formas diferentes, ou então assumo o comando e eu mesma faço. Mas é muito raro ficar dando ordens sobre como as coisas devem ser feitas.

– não sou totalitária. Qualquer coisa que eu faça com outras pessoas dou espaço pros outros darem opinião ou manifestarem seus gostos.

— x — x

Acho que o principal motivo do Cris dizer que eu sou difícil, muito difícil, como sou difícil é essa minha mania idiota de prestar atenção no que as pessoas falam. Avaliar palavras e motivos. Dizer que a tal “brincadeira” tem uma motivação, uma mágoa, um espinho, uma indireta e que eu quero falar sobre isso. Ou dizer que a tal brincadeira me machuca, e eu já pedi várias vezes pra não falar assim, por que você continua?

Por exemplo, o Cris pode brincar o quanto quiser sobre eu fazer coisas burras, não me importo. Porque não tenho nenhuma dúvida sobre minha inteligência em temas que me importam, e em geral eu também acho engraçado os comentários sobre as áreas em que eu faço coisas idiotas.

Mas eu já expliquei várias vezes que meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, e quando ele faz brincadeiras sobre eu ser feia, daí o céu cai na cabeça dele.

Ou quando ele diz “quem aguenta essa Claudia”, eu nunca aceito que foi só uma brincadeirinha, uma frase sem consequências, e eu que sou chata demais em ligar pra isso. Ainda mais porque já tivemos longas conversas sobre o quanto eu discordo da ideia de que ninguém mais se interessaria por mim além dele, como é algo ruim falar isso de alguém, que eu me considero uma pessoa cheia de qualidades e atributos e não vou permitir que alguém mine essa confiança de mim, e que os casais que dão certo são os que cultivam elogios mútuos, grandes e generosos.

Qualquer pessoa tem inúmeros aspectos pra se criticar. É uma escolha se você vai focar nos pontos que você criticaria, ou nos pontos que você aprova. E infelizmente muitos casais fazem a escolha errada, e o casamento acaba, ou são pais que decidem focar nos pontos pra se criticar do filho e criam uma pessoa cheia de tristeza e insegurança.

— x —- x

– Provavelmente meus colegas do primeiro grau me consideram bem chata e difícil porque eu decidi sair do grupo, porque fiquei mortalmente ofendida que um dos membros falasse que todo mundo que foi torturado pela ditadura brasileira mereceu — e as pessoas aceitavam e riam.

Se eu topasse com frequência com situações em que as pessoas tratam com leviandade a violência contra o outro, se tivesse que lidar com gente machista, xenofóbica, homofóbica, racista, com certeza eu teria fama de gente bem chata — supondo que houvesse espaço pra eu me manifestar. Entendo que há situações, quando você tem um comércio, por exemplo, é a escolha entre fazer cara de paisagem ou perder o cliente.

— x — x

– Lembrei de uma outra situação em que sou chamada de MUITO CHATA assim, com maiúsculas, pela minha mãe. Quando ela tem que marcar médico e enrola pra marcar. E eu ligo pra ela todos os dias, às vezes três vezes por dia, até que ela marque. Sou a chata por ajudá-la a cuidar com rapidez de algo de saúde, que se for protelado corre o risco de se tornar algo grave. Mas esse é um caso extremo, em geral não cobro as pessoas.

 

Pra você que é difícil, chata e complicada

Confie em você e nos seus valores. Tenha clareza sobre o que é importante pra você, sobre o que machuca, e lute. Lute por você. Não deixe ninguém te diminuir com o famoso argumento do “era só uma brincadeira”, “você não tem senso de humor”, “você não deixa passar nada, com você tudo é difícil”.

Não permita.

Simplesmente porque não é verdade.

Existe gente difícil, chata, complicada, implicante, insuportável. Sei que existe. Mas se você está aqui lendo o blog, provavelmente não é o seu caso. Ser difícil-chata-complicada significa querer tudo do seu jeito, exigir que tudo seja exatamente como você quer, e nós não somos assim. Estamos o tempo todo abrindo mão de coisas, aceitando o outro, respeitando as diferenças com o outro.

Mas não jogamos isso na cara dos outros. Somos elegantes, aceitamos as diferenças, sofremos. Sabemos que viver em sociedade é ter que aceitar diferenças, e sofremos calados nossas diferenças culturais, morais, de criação.

E em geral os outros não enxergam isso. Enxergam só o que eles fazem, e acham que da nossa parte não estamos fazendo nada, quando de fato são inúmeros momentos em que a gente quis cortar os pulsos (nossos ou dos outros), muita meditação e elevação espiritual pra aprender a não se importar, pra chegar no ponto de “está tudo bem, isso não importa, vamos tocar a vida e ser felizes”.

Vocês sabem, o Cris é o amor da minha vida. Mas de vez em quando ele vem com o papo de “você é uma pessoa muito difícil”, e já chegou a dizer “não imagino nenhuma outra pessoa que conseguisse ficar com você, os outros não aguentariam o que eu aguento”.

Essa frase horrível é algo do passado, mas a ideia por trás dela não é algo enterrado, tanto que na semana passada tive que ouvir um “quem aguenta essa Claudia” – que é um diminutivo da tal ideia de que eu nunca encontraria nenhuma outra pessoa pra ficar comigo. E isso porque ele estava vendo o celular no café da manhã, eu levantei pra ir fazer as minhas coisas, e ele ficou mortalmente ofendido. Como se a gente estivesse num restaurante e eu levantasse pra ir embora porque ele pegou o celular, não como se a gente estivesse na nossa casa e eu ia andar uns metros, já que ele estava entretido com outra coisa.

E veio o “quem aguenta essa Claudia”. Isso desencadeou longas conversas, no começo ele negando, mas por final aceitou que era bem errado pensar ou falar assim, e que se ele estivesse no meu lugar ele também não teria gostado.

 

Pra falar de forma rasa, eu costumo dizer “sou muito chata”, mas isso é só uma simplificação. Eu não sou chata. Eu sou exigente e rigorosa, mas não de forma burra. Eu não vou pra um restaurante de beira de estrada e reclamo da louça lascada. Eu não me importo que os meus sogros sempre esqueçam que eu não tomo café, de ter que falar, há 13 anos, várias vezes por mês, “obrigada, eu não tomo café”. Eu não me importo que a minha empregada tenha dias que faz as coisas na correria, e o banheiro tem poeira, restos de creme, fios de cabelo e outras pequenas sujeiras no tampo de granito.

No caso do Cris, eu fiz um exercício de elevação espiritual pra aprender a não me importar que ele esqueça e perca coisas (já perdeu a carteira em viagens mais de uma vez, perdeu e recuperou meu tripé, perdeu a lente macro dele), quebra copos com uma certa frequência, inclusive mais de uma vez por fechar a porta do armário antes de tirar a mão com o copo – e geralmente sou eu que tem que limpar a cozinha, porque ele é cegueta e eu não quero que fiquem cacos de vidro. Da última vez que ele quebrou um copo eu estava bem cansada, ele falou que limpava, e acabei encontrando um pedaço de vidro no bolo de carne (descobri como é a sensação de morder vidro, mas felizmente não machucou).

Aliás, esse foi o exemplo que joguei na cara dele quando ele me falou que eu sou difícil. Falei pra ele que ele também é difícil, que está com frequência quebrando coisas, ou esquecendo, ou perdendo, ou incapaz de achar quando está na frente dele – mas que eu não fico ressaltando isso. Aprendi a aceitar e a sofrer cada vez menos.

 

Eu me importo com palavras. Essa é uma das principais discussões com o Cris, quando ele fala algo, eu reclamo, e ele vem com o “você se importa demais com as palavras, não foi isso que eu quis dizer, você não entendeu”. Mas meu senhor, foi exatamente isso que você falou. As palavras são nossa principal forma de comunicação, e você não tem como desculpa a falta de vocabulário ou de intelecto. Quando você fala algo rude, eu não tenho como pensar “ele queria dizer outra coisa e escolheu as palavras erradas”, eu penso no que você falou.

Estou escrevendo sobre isso porque uma das minhas amigas mais queridas contou que gostou bastante do post Bichos pra atropelar e nomes que não importam. Não tenho certeza de qual parte, mas acho que era por saber que eu posso ficar tão brava porque tem alguém que viu um leopardo ou um guepardo e ficava chamando de onça. A pessoa teve o privilégio de ver o bicho, e não se importou em guardar o nome do animal.

Eu não sou chata a ponto de ir falar pra ela “moça, pelo amor de deus, como é que você não se importa em falar errado o nome de um felino magnífico?”. Não iria encher o saco dela. Ela não estava maltratando uma criança, um velhinho, chutando um cachorro, não era nada que exigisse uma ação. Mas posso blogar sobre minha irritação.

Não sei exatamente o que as pessoas falam de você, do que elas reclamam. Se quiser me conta, eu posso te ajudar a pensar em respostas, mesmo que sejam respostas mentais. Você sabe, não é a tudo que eu respondo, muita coisa me incomoda, mas precisa ser algo sério e importante pra eu agir. Tem que ser algo que machuca de verdade, e em geral quem consegue machucar sério são as pessoas mais próximas, as mais queridas. Quem não é próximo, em geral eu só xingo, geralmente não na cara, e me liberto.

Mas digo isso porque sou japonesa, portanto, muito preocupada com a polidez social, com as frágeis tramas que unem a vida em sociedade. Mas no meu íntimo, e pros íntimos, você sabe que não passa nada, não aceito nenhum sapo, nem que seja bem pequeno. Se machucou, é preciso lidar com isso, mesmo que seja um pensamento libertador, algo pra xingar, rir, e parar de me importar.

Admiro quem responde na lata. Aliás, acho que eu seria uma pessoa melhor e mais feliz se conseguisse responder mais na lata, talvez até me curasse do bruxismo. Mas não consigo. Sempre penso muito antes de falar, e muitas vezes meu xadrez mental manda eu ficar quieta. O que não me impede de blogar, de desabafar e, se for algo sério e recorrente, daí a gente tem que falar com a pessoa pra resolver.

Relacionamentos precisam ser cultivados?

Não lembro qual era o filme, mas um cara com problemas de relacionamento está fazendo algum tipo de terapia por obrigação, e uma das etapas é ser capaz de cuidar de dois vasinhos de planta. E se as plantas não morressem em x tempo, ele poderia ter um cachorro. E se conseguisse cuidar do cachorro, poderia pensar em ter um relacionamento com outra pessoa.

Faz sentido, não? Relacionamentos exigem compromisso e obrigações.

Eu tinha duas plantas da família das suculentas. Eram vasos bonitos no quintal do meu pai, trouxe pra São Paulo. Elas morreram.

Comprei três minicactos.  Um deles morreu. O outro talvez seja artificial. O outro eu sou capaz de provar que é de verdade, ele cresceu, está vivo. Mas não por minha causa, só porque não preciso fazer nada por eles.

Não tenho gato, cachorro, aquário. Meu enteado não mora com a gente, ele vem aqui toda semana, e está acostumado a algumas precariedades nas refeições, que a mãe dele não me leia.

E xingo as pessoas que me falam oi pelo networking.

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Como é que o Cris não morreu, quer dizer, como o meu relacionamento com o Cris sobreviveu?

Acho que por três fatores principais:

1 – Vivemos unidos pela paixão por passeios e fotografia de natureza.

2 – Já tínhamos algumas semelhanças nos valores, mas a paixão pela fotografia de natureza moldou nosso estilo de vida, nos ajudou a ter certeza de que nosso barato não era apartamento bem decorado, carro novo e limpo, roupas estilosas, restaurantes, compras. Nosso barato é pegar o carro ou um voo e passear, fotografar. E fazemos com frequência. Seria mais complicado se ele gostasse do mato, e eu de shopping.

3 – A gente sempre tira tudo a limpo, vivemos sem rusgas. E quando falo de rusgas, é algo no nível de tom de voz, uma palavra estranha, uma frase ríspida. Eu sou uma flor de frescura, percebo tudo. Nos primeiros anos a gente brigava muito, depois eu cansei de brigar, mas fecho a cara, meu olhar muda, e a gente está num estágio que o Cris às vezes consegue pedir desculpas na hora, e se não consegue na hora, no dia seguinte vem a conversa apaziguadora de verdade.

O Cris não é um vasinho que eu preciso regar, um cachorro que eu preciso dar comida, um homem mimado pela mãe que casa e acha que tem que chegar em casa e o jantar está pronto. Não cultivo o Cris. Ele é a pessoa com quem eu mais gosto de ficar, que não imagino minha vida sem, compartilhamos tantos interesses, valores e opiniões. As poucas coisas que faço por obrigação são uns compromissos com a família dele, mas com ele, nunca me senti cumprindo uma rotina de obrigações.

Tenho dois amigos queridíssimos com quem troco emails quilométricos. Nunca escrevi pra eles por obrigação, pra cultivar o relacionamento, e acho que eles também não, aliás desde o começo está combinado que se você não está a fim de escrever, não escreve, podem passar semanas ou até meses sem a gente se falar,  mas ninguém acha que a amizade mudou por causa disso.

Outros amigos bem queridos de São Paulo eu encontro quando nossas agendas batem, mas a gente não precisa ficar papeando. Podemos nos falar pra conversar sobre algo importante, pra xingar, desabafar, mas não preciso cultivar um oi. E quando nos encontramos é sempre excelente.

Tem a minha ex-amiga de quem reclamo de vez em quando. A que agora me trata como networking. O problema não é ficar tempo sem se ver, o problema foram as várias vezes em que a gente se encontrou e ela não estava lá. Cabeça em outro lugar, olhando celular, minha vontade de mandar pra putaqueopariu. Não ser mais capaz de conversar sobre coisas importantes. Isso não é mais amizade.

Criei alguns grupos no Facebook. Um deles é bem importante, o Quero Passarinhar, mas não graças a mim. Eu sabia que não ia conseguir alimentar e cuidar de um grupo, então só tive a ideia e procurei alguém que eu sabia que conseguiria, a Sílvia. O (Não) É Proibido Fotografar também fica às traças no que depende de mim, o Fernando que cuida dele. Então de repente acontece algum perrengue ou problema de gente proibida de fotografar, e eu apareço. O Fotografia de Natureza com Amor me ajudou a mudar minha visão sobre a fotografia, a levar minhas fotos mais a sério, me fez taguear minhas fotos. Faz tempo que não posto nada por lá, mas mesmo que acabasse agora, já me ajudou bastante.

Ou seja, eu nunca cultivo nada.

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Relacionamentos precisam ser cultivados?

Acho que relacionamentos deveriam ser cultivados se você quer ter uma vida social mais rica.

Mas, vocês sabem. Eu sou uma misantropa filhadaputa (redundância em termos), não me importo com a vida social rica, só quero saber do que é autêntico, intenso, verdadeiro, importante. Então não cultivo nada. Que sobrevivam os fortes.

 

Meninas boas vão pro céu e as más vão pra qualquer lugar

Esse mundo machista espera que a gente seja bela recatada e do lar. Mas qualquer cara que valha a pena conhecer e ficar não é machista no nível de pensar que você é uma vaca desprezível porque já saiu com outros caras, já transou com outros caras, e fica com outros caras sem precisar estar apaixonada por eles.

Se um cara te desprezar ou desvalorizar porque você não é virgem e recatada, ele não vale a pena, fique longe dele, que bom que você descobriu logo de cara.  Só gente muito idiota pensa que mulheres de 20 e poucos anos não têm todo o direito de fazer o que qualquer pessoa devia estar fazendo nessa idade: experimentando muito.

Essa é a idade pra experimentar, pra ousar, pra pagar mico, pra sair com vários caras. Quem não faz isso com 20 e poucos corre mais risco de se tornar um adulto idiota, ressentido, tapado, moralista. Uma pessoa que não tenha experimentado o suficiente nos 20 e poucos corre o risco de se tornar alguém capaz de cair facilmente na lábia de pessoas imorais porque falta experiência de vida e sobra fantasia do que poderia ter vivido.

Você já viu um filme dos anos 1990, Procura-se Amy? Tem o Ben Affleck no papel do macho babaca. Ele está apaixonado por uma garota, a Joey Lauren Adams, e o mundo desaba quando ele descobre que ela mentiu pra ele, que nem sempre ela foi gay, e que ela era muito promíscua desde o colégio. “Você não se importa de eu já ter dormido com metade das mulheres de Nova York, mas ficou arrasado porque eu fiz algum sexo quando estava no colégio!”. E esse “algum sexo” eram histórias como sexo a três, fazendo boquete num cara enquanto o outro fazia anal com ela (e os dois contam pra todo mundo), ser filmada transando (sem saber) e depois o cara passar o vídeo no circuito interno da escola, e ela fala “e qualquer outra história escabrosa que você tiver ouvido sobre mim provavelmente é verdade”. Ele fica bravo, fala que tem uma diferença entre sexo normal e o que ela fez, que ela foi usada. “Não, eu não fui usada. Eu usei eles! Eu fiz porque eu quis”.

Só gente bem idiota acha que existe essa história de sexo normal. Sexo é desejo e você faz com quem quiser como quiser, se é de consentimento entre ambos ou entre todos, seja mulher com homem, gay, suruba, as pessoas fazem o que quiserem.

Tem uma cena do filme em que o Ben Affleck está num bar, deprimido porque é apaixonado pela Joey, mas não consegue aceitar esse passado, e aparece o diretor (Kevin Smith), que faz o papel de Silent Bob. Ele e o Jason Mewes são uma dupla maconheira que inspirou uns personagens de sucesso do Ben Affleck, que faz papel de quadrinista. Affleck conta a situação, e fala “o que eu vou pensar disso?”, e o Mewes fala algo parecido com o que meu amigo de Limeira falou “você devia se sentir sortudo porque ela já experimentou de tudo e agora decidiu ficar com um babaca como você”.

Sexo é poder. Ter experiências sexuais aumenta o conhecimento e segurança sobre si, sobre os outros, sobre os seres humanos.

Claro, partindo do princípio de que há desejo. Entendo que tem gente que não tem o mínimo de desejo sexual, nesse caso não se deve fazer algo forçado. Mas acredito que é muito importante a gente vencer a barreira moralista do que não podemos fazer por medo de sermos julgadas, especialmente julgadas como putas vacas piranhas.

Pensa como é machista essa ideia de mulher fácil. Como se a mulher fosse um objeto passivo, e não que rolou porque ela também quis. Ou então, a ideia de que se ela quis ela é uma puta. O homem que sai com várias é garanhão campeão mito. A mulher que sai com vários é piranha vagabunda.

Saia com quem você quiser, faça o que você quiser, e coloca como nota de corte a questão da reputação. O cara que tiver alguma aversão a você porque você sai com vários, porque não é recatada, é alguém com quem você não vai querer um relacionamento sério, deixa ele pra lá sem se preocupar que ele poderia ser legal, simplesmente não dá pra fica com homem tão machista a ponto de pensar que uma mulher solteira, ainda mais nos 20 e poucos anos, não tem direito a uma intensa vida sexual.

E se tiver chance, faça um favor pro mundo. Todas as vezes que ouvir alguém falando mal de uma mulher que sai com vários caras, combata isso. Pergunte por que homens podem e ela não. Se a pessoa não é comprometida, está ofendendo quem? O que tem de errado em ficar ou transar? Se ela fez suruba, se foi uma sessão sadomasoquista, ou com frutas e chantilly, se teve anões besuntados ou sei lá o que, o que as pessoas têm a ver com isso? É inveja? Que elas sejam mais ousadas na própria vida sexual, entendam e aceitem que na privacidade e se for de consentimento entre todos os presentes, os adultos fazem o que quiserem.

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Ok, experimente e viva muito, mas vou ter que falar das coisas chatas também.

Nunca custa reforçar: segurança sempre. Camisinha sempre. Engolir porra não é algo pra primeiros encontros, há risco de DSTs.

Há mais de 400 mil estupros por ano no Brasil (45 mil registrados com certeza de subnotificação). A maioria dos casos notificados é de menores de idade, porque uma mulher adulta que sofre um estupro em geral não notifica (no caso das meninas estupradas, um adulto fica sabendo e denuncia). No Brasil não tem muitos estudos, mas na época da USP a gente sabia que tinha estupros dentro do campus. Na faculdade é mais comum ainda o cara confundir liberdade sexual com o direito de abusar e violentar.

Lembra sempre que álcool e sexo é uma combinação perigosa entre gente que mal se conhece. Tenho uma amiga que bebia muito nas festas de faculdade, até que tomou um susto grande. Uma manhã acordou nua na cama de um cara e não lembrava como tinha ido parar lá. Não foi boa noite cinderela, ele era um cara legal, mas ela passou pela humilhação de ter que perguntar pra ele o que tinha acontecido, se eles tinham usado camisinha. Depois disso ela nunca mais bebeu tanto.

Beber bastante e ficar bêbada é maravilhoso, mas tenha certeza de estar num ambiente seguro, com pessoas em quem você confia. Infelizmente a verdade é que estar bêbada aumenta o risco de você ser abusada.

Se mesmo com todos os cuidados tiver algum problema com camisinha, não hesite em tomar pílula do dia seguinte (eu já tomei, duas vezes. Por camisinha mal colocada e pela bobagem de deixar o cara gozar duas vezes sem tirar).

Na minha época não tinha isso, mas sei que hoje em dia também é possível tomar os coquetéis antirretrovirais, mas não sei o quanto isso é fácil de obter num posto de saúde. Mas tem que procurar logo, quanto antes melhor, e estamos falando de horas. O tratamento diminui de eficácia conforme passam as horas, 72 horas é o limite máximo pra começar e o ideal é começar 2 horas depois da exposição.

http://www.drakeillafreitas.com.br/profilaxia-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv-o-que-voce-precisa-saber/

http://ladobi.uol.com.br/2016/11/camisinha-preservativo-estourar/

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

Lembra também que prazer sexual não é só coito com porra. Estou falando dos risco de contaminação com sêmen ou fluidos vaginais, mas lembra que os momentos de prazer com outra ou outras pessoas não é uma receitinha de bolo que começa com beijo, depois boquete, depois sexo vaginal, depois sexo anal. Isso é idiotice de filme pornô barato. Há muito prazer na pele, em várias partes do corpo, na provocação, na espera, na ansiedade por mais. É simplesmente experimentar e lembrar que filme pornô é só filme pornô, que somos muito melhores do que isso.

Outra merda que a gente tem que lembrar nos dias de hoje: cuidado com a ideia de nudes, ou de se deixar ser fotografada ou filmada transando. O cara pode parecer bem legal na hora, mas o mundo dá muitas voltas. Eu simplesmente não deixaria.

Desculpe se falei demais das coisas chatas, mas com as DSTs e estupros, infelizmente não dá pra sair pra farrear e experimentar sem ter isso sempre em mente. Na hora da excitação sexual é fácil esquecer de um monte de coisas, mas se esforce pra ser sempre conservadora na questão dos riscos. Camisinha sempre. Cuidado com álcool + sexo. Cautela ao se envolver. Não é errado beijar ou ficar ou até transar com um cara que você acabou de conhecer, mas se você sabe pouco sobre ele, evite ir pra algum lugar isolado de ajuda. Esse terceiro é o mais chato, e eu já quebrei isso muitas vezes, mas a gente sempre tem que lembrar que os riscos existem.

 

Misantropos são invisíveis?

oi …! Adorei seu email, estou bem animada pra falar disso, me pergunte sempre qualquer coisa que quiser.

Você me perguntou se misantropos são invisíveis.

Eu acho que somos sim, pra maioria das pessoas. É triste, mas é compreensível e óbvio. Mais de 90% das pessoas não valem a pena. Mais de 90% das pessoas não fazem ideia de quem nós somos, não há vibe, não há sintonia, não rola. Se mais de 90% das pessoas vivem confusas, sem saber seus valores, quem são, do que gostam, o que é importante, sendo facilmente enganadas e manipuladas, escravizadas pela publicidade, pelos orcs… pensa bem, não faz todo o sentido que essas pessoas não nos enxerguem?

Pra elas somos apenas gente quieta, tímida, feia, sapatas ou sei lá. Porque é assim que elas enxergam o mundo. Ou você é um estereótipo de gostosa, ou não é ninguém.

Quer deixar de ser invisível? É fácil, entre no jogo. Vista-se, mova-se, e fale pra ser vista. Você vai ficar horrorizada, mas é verdade que saia curta, decote, batom são grandes facilitadores. O dia que eu virei o pescoço do Angeli na Bienal estava brincando de colegial japonesa, com minissaia e meião até o joelho. Mas não teria chamado atenção se estivesse de roupas grandes e largas.

Se você tiver uma aparência mais chamativa, você deixa de ser invisível. Pelo menos à primeira vista, pelo menos pra ser considerada ser humano. Você pode escolher não entrar no jogo, mas isso diminui bastante suas chances de começar algo com alguém. Você viu como é.

Hoje eu me sinto bem confortável em ser invisível, em não chamar a atenção. Mas tenho o Cris, há 13 anos. Posso te contar como era quando eu estava na pescaria.

Como falei, cresci me sentindo feia e sem graça, achando que ser feliz como nos filmes não era pra mim, sem conseguir enxergar interesse dos garotos porque ninguém poderia se interessar por alguém como eu. Mas daí em São Paulo aconteceu a tal revolução, que foi o início da minha vida sexual e a descoberta de que padrão de beleza importa pouco se você está disposta a transar.

Fiquei e transei com vários caras só por ficar, por experiência de vida, por achar que isso era bom pra mim como ser humano. Há 20 anos atrás, no início dos chats, quando ainda havia reportagens que falavam do quanto era perigoso se encontrar com gente que você conheceu pela internet. Começávamos a conversar, às vezes a conversa evoluía a ponto de querer encontrar a pessoa, e às vezes rolava.

Você encontra gente ao vivo, às vezes se interessa por um cara, começa a conversar com ele e ele se assusta com você. Eu sei bem como é. E não vou te falar que é fácil. Os vários caras com quem fiquei, fiquei por ficar, mas não achava que ia dar alguma coisa mais séria. Um dos motivos de me apaixonar pelo Cris foi porque ele não tinha medo de mim, da minha intensidade. Claro, depois fomos descobrindo tantas coisas em comum. Mas só de encontrar alguém que não se assusta com você, que não reage com agressividade ou algo assim, já é muita coisa.

Eu também descobri que era mais fácil me relacionar com caras mais velhos ou mais novos. Os da minha idade em geral eram os mais inseguros e agressivos.

O que estou querendo te dizer é que você está mesmo numa situação difícil. Acho que não vai ser fácil ficar com um cara legal, da sua faixa etária, que você conhece conversando ao vivo. O que você me descreveu é o que provavelmente vai continuar acontecendo.

Estamos na pescaria, e talvez você encontre alguém que não tenha medo de você, alguém à sua altura. Mas é pescaria, entende? Tem a espera, o acaso, a sorte.

Você é uma misantropa. Portanto, inteligente, consciente, esperta. Talvez você tenha um pouco de timidez, e sabe o que penso da timidez. Não serve pra nada, é algo pra gente extirpar da vida.

Acho que você devia experimentar mais. Ficar com uns caras sem precisar pensar muito. Como experiência de vida, vivência, curiosidade antropológica. Quando eu tinha uns 24 passei um tempo saindo com um jornalista de mais de 60. Meus amigos estavam horrorizados. “Ele… ele… ele é um velho!” (15 anos atrás as pessoas de 60 eram bem mais velhas do que hoje em dia). Eu não me importava. Também passei um tempo saindo com um garoto de 18, que a gente chamava de meu Lolito, barely legal :).

Experimenta.

Vença o monstro da timidez, ou do medo de ser julgada, de ser rejeitada, e se exponha. Essas coisas fazem muita diferença na vida, tenho certeza de que sou uma pessoa melhor pelas coisas que eu vivi. Somos misantropos, mas também somos inteligentes, e sabe que a interação com as outras pessoas é uma das formas mais intensas e rápidas de aprender, amadurecer, ganhar mais tranquilidade, mais amplitude, mais visão do mundo.

Sabe que eu sou feminista. Mas não vejo nada de errado em jogar o jogo a nosso favor. Em se vestir pra ser vista, em passar batom, em usar decote, isso não diminui ninguém. É só uma forma de chamar atenção, de deixar bem claro que você está querendo chamar atenção. Seria mais fácil se a gente só pudesse ligar uma luzinha verde “tô a fim”, ou a vermelha, mas infelizmente, como não tem a luzinha, temos que lidar com aparência. E lembrando sempre que não importa sua roupa ou sua maquiagem, nada, absolutamente nada justifica um cara ser agressivo ou achar que pode abusar de você. Podemos nos vestir pra chamar a atenção, mas só um cara uga-buga acha que chamar a atenção é sinônimo de abuso.

Você é linda …, tenho certeza. Como todas as pessoas podem ser lindas quando elas se livram dos entulhos de neuroses com padrão de beleza, insegurança, medo de ser julgada, medo de que vão falar mal de você.

Você deve ter uns 20 e poucos anos. É uma fase terrível, os caras são muito inseguros e idiotas, é difícil mesmo… Um dos meus melhores amigos, alguém que eu conheço desde que ele tinha 12, reencontrei umas semanas atrás em Limeira. Fazia 7 anos que a gente não se falava, mas quando nos encontramos, parecia que ontem ele estava em casa tocando violão no meu quarto, a gente cantando músicas do Legião Urbana. Ele está namorando uma menina 17 anos mais nova, ela tem 23. Ele falou que um dos problemas é que ela é muito ciumenta, a ponto dele quase ter terminado. E ele fala coisas do tipo “… você é linda, você é nova, você tem seu trabalho, quem devia ter ciúme sou eu, você não tem motivo pra ter ciúme”. E que ela já perguntou “você não se incomoda por eu já ter transado com outros caras?”, resposta “imagine, de jeito nenhum, acho ótimo que você tenha tido várias experiências. Você ficou com vários e escolheu ficar comigo, é uma honra isso pra mim”, ela “puxa… como é diferente um cara mais velho”.

Imagino como deve ser difícil encontrar alguém legal da sua faixa etária.

Mas tentando ser mais prática, e me desculpa por um texto comprido e sem muita preocupação com estrutura, mas acho que é pela nossa… amizade, acho que podemos nos considerar amigas, faz meses que a gente conversa pelo blog :), estou escrevendo dessa forma mais frouxa, mas voltando, as sugestões são:

1 – experimenta entrar no jogo. Como experiência de vida, como experiência antropológica. Vista-se pra ser vista, usa batom, muda algo do cabelo. Use decote, use saia curta, use calça justa, ou roupas que mostrem que você se sente à vontade com seu corpo. E se olhe no espelho, e arrume seu rosto (daquele jeito que falei, que é menos maquiagem ou acessórios, mas principalmente magia. Energia, pensamentos), se olhe até saber que você é linda. Linda não pra seguir um padrão de beleza, mas linda por gostar de si, por saber quem você é, por ter orgulho de você, sei que você tem orgulho de ser quem é, deixa isso transparecer, deixa que seu olhar, sua linguagem corporal, o espaço que você ocupa transpareçam isso. Sei que também pode assustar os fracos, mas se você estiver vestida pra ser vista, o mix fica bom 🙂

— essa história de se vestir pra ser vista é triste, mas o fato é que os homens morrem de medo de serem rejeitados. Então você tem que dar sinais bem claros de que eles têm chance. Fora isso, na faixa dos 20 e poucos infelizmente rola muito insegurança também, o cara pode até gostar de você, mas ele não vai ficar com você se achar que os amigos podem rir dele porque ele ficou com uma menina que não está dentro de uns padrões mínimos de beleza, entende?

2 – Vista-se pra ser vista, e quando estiver conversando com o cara que te interessa, você tem que tentar a aproximação física. Sabe como é, certo? Você invade um pouco o espaço da pessoa e vê como ela reage, se ela gosta ou não. Toca a mão, o braço, o ombro, em algum momento da conversa passa a mão pelo ombro da pessoa como se fosse um semi-abraço rápido, e vai percebendo se ela gosta disso ou não. É uma dança com passos pequenos. Você dá um pequeno passo, e vê se ele corresponde. Se ele corresponder, você avança um pouco mais. Se ele não corresponder ou até recuar, você também recua. É bem fácil, basta você cultivar sua auto-confiança. E por isso que é importante se sentir bonita. Se você não se sente bonita, é fácil cair em armadilhas de insegurança, transparecer isso na linguagem corporal, na falta de coragem em tentar algo.

3 – Seu cabelo está bom? Eu tive cabelo curto por vários anos, depois cresceu, e hoje em dia sou ruiva a maior parte do tempo, em tons variados, às vezes mais pro cobre, às vezes mais pro incêndio. Pinto todo mês, uso água oxigenada 40. Descobri que faz muita diferença se eu uso cremes leave in ou não. Gostei bastante de uns da Forever Lizz, mas acabou, e resolvi experimentar um baratinho da Tresemeé Keratin Smooth, é ótimo.

4 – Cabelo e pele boas, batom, um pouco de decote ou saia curta, linguagem corporal de quem se sente à vontade com o próprio corpo, e você vai deixar de ser invisível.

Sobre eles tirarem sarro do jeito como você fala… as pessoas podem ser cruéis mesmo. Acho que a melhor estratégia é você tirar sarro de você quando alguém começar a falar. Não se deixe intimidar. Conte alguma história bem ridícula de algo que aconteceu com você, ou tire sarro, compare com algo. Demonstre que você não se incomoda com isso. Eu não saberia dizer qual exemplo usar, mas posso falar de outras situações.

Lembro de uns colegas de trabalho, um deles tinha acabado de ter um filho, o outro (eles são grandes amigos), falou “E o … acha que o filho é dele… mas tudo bem, pai é quem cria”, e o outro respondeu “Cara, sabe que o menino nasceu a cara de um amigo da … que é modelo, mas eu não consigo entender, não sei o que aconteceu”. E teve alguma vez, numa conversa com uns amigos, eu estava com uma mochila e falei “pode por aqui atrás”, eles falaram algo do tipo “sei, pode por atrás”, e eu respondi com algo como “claro que sim, pode por atrás que eu gosto” – e vi que eles ficaram surpresos, porque acharam que eu ia ficar constrangida, ou vermelha de vergonha, e não fiquei. A graça do bullying, mesmo quando não é um bullying pesado, mais aquela azucrinação entre amigos ou colegas, a diversão é incomodar o outro. Se você mostrar que aquilo não te incomoda, perde a graça. Ou vocês riem juntos, ou então eles mudam de assunto.

E os aplicativos pra conhecer gente, você já experimentou?

Experimente. Também é pescaria, mas ao mesmo tempo é mais fácil pra conversar com as pessoas, pra descobrir rápido se há interesses em comum.

Eu acho que você devia fazer tudo. Escolher os momentos que você quer ser vista, saber e sentir que você é linda, enfrentar os momentos de interação e não deixar mais ninguém te zoar pelo jeito que você fala, porque você vai zoar mais ainda, vai mostrar que aquilo não te atinge, que você tem bom humor e sagacidade. E experimentar os aplicativos também.

Será que falei demais? Será que consegui ajudar de algum jeito? Me fale o que você achou, o que você discorda, o que você tem dúvida. É sempre um prazer conversar com você.