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100% feliz

Hola, meu amigo

Não sei por que você diz que eu faço um mau julgamento seu. É porque eu te sugeri tentar ser feliz em 2018? E você fez questão de me dizer que é feliz, que já sofreu mas que agora está tudo bem, que você age de forma normal, que curte a vida e aproveita ao máximo tudo etc?

Peço desculpas se te chateei com as minhas palavras, e saiba que não vou te encher o saco, não vou escrever pro seu email, e este é o último post pra você (caso você não queira mais conversar).

O que é ser feliz?

Pra mim ser feliz significa viver sentindo satisfação, tranquilidade, orgulho, alegria, sentido, conviver com pessoas que você ama e que te amam, passar bastante tempo fazendo o que você gosta e pouco tempo o que você não gosta.

Eu me aposentei em 2011. Desde meados de 2011 tenho essa vida de conto de fadas de fazer só o que eu quero, ter só as obrigações que eu escolhi. Faz muitos anos que vivo em lua de mel com o Cris e o Daniel. Não tenho problemas sérios de saúde, não tenho ninguém próximo com algum problema grave de saúde, viajo bastante, não sou nem dona de casa porque tenho empregada duas vezes na semana. As obrigações com meu enteado são poucas. Não tenho gato, cachorro, plantas pra cuidar, meu tempo é muito meu faz anos.

Ainda assim no final de 2013 eu estava vivendo uma crise existencial. Sou feliz faz anos. Mas ninguém é estático, mudamos o tempo todo, e a felicidade não é um bloco de concreto e sim algo fluido. No final de 2013 eu estava me perguntando se vivia minha vida de forma errada. Se o fato de ter poucos amigos, não badalar, me exasperar com o tipo de conversas rasas em redes sociais ou eventos significam que eu devia procurar tratamento ou, no mínimo, mudar meus valores, parar de valorizar solidão, isolamento. Também tinha finalmente percebido que meu principal grupo de amigos, que eu conhecia há anos, não me convidavam mais pra sair, era só eu que os convidava (dando jantares na minha casa – sou besta, eu sei), e eu ficava pensando seu eu sou chata e sem graça.

No início de 2014 conheci dois novos amigos. De repente. Em poucas horas de convívio passamos a gostar muito uns dos outros e depois disso nos vimos várias vezes. Era uma amizade com um certo prazo de validade. Eles estavam pra engravidar (cada um com o seu respectivo cônjuge), crianças pequenas trazem muitas mudanças. Eu sabia que em menos de um ano a gente não teria mais os diversos passeios de manhã, as happy hours, jantares.  Às vezes eu pensava nisso e dava uma ponta de dor no coração, mas aproveitei.

No início de 2014 também descobri a misantropia. Já tinha ouvido o termo sempre de forma negativa, foi a primeira vez que alguém me chamou de misantropo “não sei se esse trabalho daria certo com a Claudia, ela tem umas restrições de grupos, contato com gente”, “ah, não se preocupe, o fundador da ONG também é misantropo, tenho certeza de que há funções que respeitam isso”.

Fiz a tal pesquisa que muita gente faz. Misantropia. Encontrei o baudasvariedades e outros blogs. E plin, adeus crise. Parei de ficar pensando que eu estava seguindo o caminho errado, que meus valores são errados, que é errado gostar de solidão.

 

Eu sou feliz a maior parte do tempo. Quando encontro com gente que não vejo há meses ou até anos, mas que sabem da minha condição de aposentada, e me perguntam “como você está?”, às vezes eu olho e falo “bom, você sabe… aquela mamata de sempre”. Eu viajo muito, no ano passado foi o ano em que mais viajei. Fui pra Áustria, Espanha, Nova York, Pantanal, África do Sul, Amazônia, Austrália. Na verdade, em geral nem falo disso. Não posto em Facebook, não conto no grupo de WhatsApp dos primos todas as vezes em que estou viajando. Quando alguém me pergunta como estou, em geral conto só um pedaço bem pequeno e nunca falo de todas as viagens que tenho feito, porque me sentiria esnobando.

Mas você acha que eu sou feliz o tempo inteiro?

Alguém poderia dizer que com a vida que eu tenho, eu deveria ter obrigação de ser muito feliz o tempo todo, e que se eu não sou, é porque sou uma babaca, idiota, não sei aproveitar.

Talvez seja verdade.

Mas tudo que posso lhe dizer é que não sou feliz o tempo todo. Tenho vários dias de me sentir sobrepujada por notícias de portal, especialmente as relacionadas com vitórias ruralistas e evangélicas. Tem dias que sinto tanta raiva das caixas de comentários sobre os temas feministas que tenho que escrever um post sobre o assunto. Tenho tantas dias que senti raiva, indignação, exaspero, desgosto, indiferença pela comunidade birdwatcher. Tem dias que brigo com o Cris, e algumas brigas não foi uma questão de uma discussão, mas de dias vociferando, e numa delas eu falei de separação. Tem dias que acontece algum problema em Limeira. Tem os finais de semana com obrigações com a família do Cris, e alguns deles eu já tive que gritar baixo no carro assim que ficamos só nós. Tem dias que estou só entediada. Tem dias que por algum motivo que nem sei o que é, em vez de me concentrar nas minhas ilustrações, ou leitura, ou escrita, fico dando refresh no gmail, em portais de notícias, vendo o que aparece no WhatsApp – e sei que isso é errado, é sinal de alguma inquietação. Tem dias que pego meu baralho de Tarot e fico fazendo perguntas diversas, só pra passar o tempo.

No ano passado meu melhor amigo se mudou de São Paulo. Eu não posso mais mandar uma mensagem e ir almoçar com ele. Uma das minhas amigas mais queridas mora em outro país. Meus dois amigos queridos, os que conheci em 2014, vejo de vez em quando, mas não pudemos mais fazer os passeios uma manhã toda, um dia inteiro.

Eu tenho um ticket dourado, mas se minha inquietação crescer, vou ter que sair da torre e me dispor a conhecer novos amigos.

 

Ninguém que aparece no meu blog está se sentindo 100%. Se estivesse, não estaria no meu blog, e sim lendo sobre restaurantes, receitas de drinks, viagens.

Eu raramente estou 100%, provavelmente nunca estarei. Mesmo tendo essa vida de contos de fadas, meu bruxismo continua. Eu tenho que dormir todas as noites com duas placas na boca. Já tenho um implante porque consegui rachar um molar e, mesmo dormindo com a placa, no ano passado quebrei uma cúspide. Tenho problemas digestivos, talvez uma pedra na vesícula, fiz cinco ultrassons e foi inconclusivo, ela apareceu em dois deles, não nos outros três. Passo mal com comida gordurosa, mas às vezes também passo mal de ouvir, ver ou ler coisas que me desgostam. Já tive gastrite e hipoglicemia, doenças associadas com estresse. Meu dentista acha que eu tenho bruxismo desde o 6 anos. Acho que faz tempo que eu sei que viver dói.

Se eu me sentisse sempre 100%, não blogaria.

 

Você me falou que te julguei mal, e me parece que não gostou de eu ter te sugerido ser feliz em 2018, porque você já é feliz.

Tudo bem.

Mais uma vez, peço desculpas pelo o que escrevi.

Mas se algum dia você achar que devia dar mais atenção pro ódio e os momentos de solidão, e ainda não quiser procurar ajuda de um profissional como um terapeuta, saiba que faz muita diferença na vida ter alguém com quem se abrir. Você falou que tem amigos e tem amores, e te julguei mal. Acredito em você. Mas talvez você precise dar um passo a mais com seus amigos e amores, ou encontrar outros amigos com quem possa se abrir. Não ter com quem se abrir, com quem você pode falar qualquer coisa inclusive os pensamentos que você mal consegue formular em palavras, cria uma tremenda panela de pressão dentro da gente.

Você já viu o The Mask you Live in? Documentário sobre o machismo nos Estados Unidos, as condições culturais que criam meninos, adolescentes, homens violentos. Tem no Netflix. Por que estou falando disso? Não porque ache que você é machista ou violento. Mas porque eu tenho certeza de que faz mal ter que sempre se apresentar como um rochedo e não poder falar sobre o que você sente.

Espero que um dia você entenda que ser fechado e não se abrir pra ninguém não é detalhe pequeno.

O sentido pra vida é decisão nossa

Cavaleiro,

O mundo precisa muito de gente que se importa, é uma das coisas que mais faz diferença no mundo. Vivemos nessa piramba não tanto pela ação dos maus, mas graças ao silêncio dos bons.

Não tem nada de errado em se importar, lutar, não se conformar, não aceitar, não se render.

Mas o ódio consome, não consome? Não traz insônia, inquietação, insatisfação eterna? Eu não desejaria isso pra ninguém, menos ainda pra alguém da nação misantropa.

Acredito que há um ponto de equilíbrio entre a omissão e o ódio, e que nenhuma dessas pontas é boa. Discordo dos meus colegas que me falam que me importo demais, que sou extremista por romper totalmente com gente que defende tortura. “Só ignore o que ela fala”. Não consegui. Assim como não ignoraria alguém falando de forma jocosa das atrocidades que as minorias sofrem. Entretanto, o que penso e faço está bem longe do ódio.

É bom se importar. Mas você é jovem demais pra uma vida de sacrifício. Você é jovem e está na idade de experimentar. Posso imaginar que você já viveu muita coisa, e se quiser me contar sobre sua vida de filme ou roteiro, vou gostar de saber :). Mas acredite em mim, tem muito mais pela frente. Muito. E pode ser lindo e maravilhoso, seguindo os valores que você quiser, seja no campo do conhecimento, intelecto, magia, trabalho voluntário, lutar por uma causa. Amor. Paixão.

Você tem uma vida toda pela frente, o melhor está por vir.

 

Se eu me conformo?

Talvez várias pessoas acreditem que eu tenho obrigação de fazer muito mais pelo mundo. Sou inteligente. Não tenho filhos biológicos, meu enteado logo será adulto e independente, só trabalho com o que eu quero, tenho tempo e algum dinheiro. Mas não me sinto em dívida com o mundo. Escolho minhas lutas e sei quais são meus valores. Eu decido o que está ao meu alcance, e como fica o balanço com as outras partes da minha vida.

Tive uma batalha ruim uns anos atrás, uma que me arrancou um pedaço da alma, escrevi sobre isso. Lidar com corrupção e mesquinharias no birdwatching, que até então era imaculado. Na época um cara que admiro bastante, um senhor de mais de 60 anos, que já fez vários trabalhos pro governo, me falou que eu tinha que ir mais devagar. Pra escolher minhas lutas, mas pra lutá-las de um jeito que eu pudesse durar por muito tempo. É um bom conselho, sensato, infelizmente na época já era tarde demais. Ou talvez só o fato de ver a corrupção já tenha mudado pra sempre minha visão do birdwatching.

Mesmo tendo minha família como prioridade, e passando muito tempo viajando, passeando, fotografando e, mesmo sendo misantropa, contribuí pra mudanças importantes no birdwatching e, tenho esperança, pra conservação da natureza brasileira. Inclui publicação de uma portaria estadual pra descriminalizar o porte de câmeras grandes :). Tenho um blog que é primeira página no Google sobre misantropia, um assunto que me interessa muito. Sou ostra nas redes sociais, mas quando escrevo sobre as questões do birdwatching, muitos colegas meus param pra ler, mesmo sendo meus textos enormes. Queria muito ter essa influência no feminismo, mas esse é um tema bem mais difícil, a campanha contra é pesada demais. Mas a passos lentos o feminismo avança.

Não classifico como ódio, mas esse é um dos temas que sempre me traz revolta. Ontem em especial eu estava chorando ao ler o Tab do Uol que fala dos garotos que tentam deixar a vida de crimes. A mesma história de sempre. Gente que cresceu na pobreza, mãe com um monte de filhos, pai sumiu. Esse é um dos temas feministas que poderia fazer uma tremenda diferença no Brasil. Educação sexual, planejamento familiar, direito ao aborto. Já reparou que países desenvolvidos x subdesenvolvidos em geral coincidem com o pode abortar x não pode abortar? Faz sentido, não? O que acontece com a vida de pessoas que têm um monte de filhos e nenhuma estrutura pra isso, e o que acontece com crianças que crescem num ambiente assim.

Meu sangue ferve de raiva pelo discurso a favor do direito à vida dos inocentes (inocente é quem ainda não nasceu, nascer é o pecado original), e tanta gente compra esse discurso, tanta gente boa sendo soldados dos grupos que lucram com pobreza, desespero e violência. Mas o que eu vou fazer quanto a isso? Por enquanto só tenho coragem de blogar, o tema é tão cabeludo que não tenho nem coragem de por no Facebook porque ia magoar muito meu pai, que talvez até já saiba o que eu penso, mas ter publicado no Facebook é outra história.

 

Quando estamos imbuídos, movidos por alguma força poderosa, que inclui o ódio, somos capazes de feitos extraordinários. Mas quanto tempo dá pra viver assim?

Eu queria que você tivesse uma vida boa. Ou que pelo menos passasse um tempo disposto a viver uma vida boa, que você pudesse andar um pouco mais no lado ensolarado e menos sintonizado com o abismo. O abismo é terrível, e quando você olha pro abismo, o abismo olha pra você.

Fazer o bem e ajudar os outros é algo muito nobre, e que ajuda a trazer muito sentido pra vida. Mas mesmo assim, o vazio e o ódio continuam. Dando uma de psicanalista de meia tigela, eu te diria que está faltando cuidar mais de você. Acho que todo mundo devia se colocar em primeiro lugar, e veja que se colocar em primeiro lugar nunca precisa ser sinônimo de ações desonrosas.

Estou com uma impressão de que você tem se anulado muito e não tem trabalhado pra descobrir do que você gosta, o que te dá prazer. Como se essas coisas fossem erradas.

Mas não são. Todo mundo precisa cultivar sua individualidade.

 

Você acha que consegue tentar ser feliz, pelo menos por um tempo?

Tem vários posts sobre o tema. Gostar de você, cuidar de você, a porra da lista de qualidades (não estou exaltada, é que os posts sobre ter de cor suas qualidades sempre é citado como a porra da lista de qualidades – questão histórica, a primeira vez que falei disso pra uma amiga, eu passei anos falando pra ela fazer, então virou a porra da lista), descobrir do que você gosta, se relacionar mais, convidar alguém pra sair, deixar de ser tímido, não ter medo de quebrar a cara, sentir-se no controle da sua vida, ter amigos bem queridos e especiais, se dar a chance de conhecer uma grande paixão, estar em paz com a família, não sofrer com o emprego.

Parece meio banal demais? Se pareceu, tente dar um crédito, como algo vindo de um misantropo que tem mais que o dobro da sua idade e um ticket dourado.

 

Obrigada pelo convite pro hermetismo, mas ainda não é o momento pra mim. E num outro post posso falar algo sobre vida de roteiro de filme ou seriado, mas imagino que a sua é assim, e você é bem-vindo pra me contar se quiser.

Parece um bom projeto pra 2018, não? Tentar ser mais feliz. Acreditar que você merece.

Jesusaladomesalve, me apaixonei por um misantropo!

O mais comum é a ignorância, a santa ignorância. Por um motivo qualquer vocês começaram a conversar, engrenaram nos assuntos certos, e você descobriu que o rapaz ou a rapariga, é sagaz, inteligente, culto, com um senso de humor bem peculiar, que ele presta atenção em você, ouve o que você fala, capta sutilezas do seu discurso ou da sua linguagem corporal, não emana ansiedade, não disputa atenção do grupo e de repente, capuft, você se vê o tempo todo pensando na pessoa, querendo voltar a vê-la, falar com ela, ouvir ela falar de você ou de qualquer coisa porque ela tem opinião sobre qualquer assunto que você pedir pra ela falar, e tudo sempre é sensato ou no mínimo faz sentido e é divertido.

Talvez ela tenha gostado de você também, e vocês começam a namorar.

Mas quando é que você poderia imaginar que aquela pessoinha tão encantadora quando estão a sós, ou num grupo pequeno de pessoas queridas, pode se tornar um animal tão arisco pra festas, eventos e badalações? Como é que uma pessoa tão legal pode ser tão irascível, não gostar de se divertir? Meudeusdocéu, o que é isso, é um caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde??

Só que se você reparar bem, a transformação não é aleatória. Ela está diretamente ligada com as situações de muita gente, ruído, conversas de salão, papinho, música alta.

Congratulations, Sir, você se apaixonou por um misantropo. E agora?

 

Me apaixonei por um misantropo, e agora?

Você se apaixonou por um misantropo, e já devem ter atravessado algumas escaramuças, com mortos e feridos pra ambos os lados. Sei que sou altamente suspeita em falar, afinal, sou misantropa panfletária,. Mas você já deve ter reparado que em geral somos pessoas justas. Lembra de alguma vez que seu amor foi injusto? Talvez vocês até tenham brigado na hora, mas quando fizeram as pazes e ele ou ela explicou seus motivos, você viu que havia razão, que não era algo mesquinho, mas sempre orientado por uma racionalidade. Então se puder dar mais um pouco de crédito, veja se as ideias abaixo fazem sentido:

Você realmente gosta da pessoa? Uma boa forma de avaliar quanto ela vale é imaginar sua vida sem ela. Como seria se vocês terminassem? Imagine seus dias. É algo bom ou ruim?

Supondo que você não quer terminar, que você quer continuar o relacionamento, fazer dar certo, superar as diferenças, você precisa entender que misantropia-introvertimento existem e não são escolhas. Uns anos atrás eu achava que era apenas ideologia, mas outros textos que li, especialmente sobre os introvertidos, me levam a crer que é algo mais forte do que ideologia. Nós nascemos desse jeito. Assim como algumas pessoas nasceram gays, ou sem orientação de gênero. É assim e pronto. Não há cura, não há tratamento. Não há doença. É só o jeito como as pessoas são.

Pesquise por aí e leia sobre misantropia, introverts. Aqui no blog tem muitos textos na tag _Misantropia e o site https://www.quietrev.com/ também tem muitos textos que ajudam a entender.

 

Que droga, me apaixonei por um misantropo (ou uma misantropa), não posso mais me divertir!

Misantropos têm muitas diversões e alegrias. Mas também temos limitações, talvez sejam físicas, relacionadas com percepção, neurônios e configuração cerebral.

– Lugares com muita gente nos desgastam, não é só uma gastura emocional, é um cansaço físico mesmo, de se sentir acabado.

– Música alta e grupos grandes também acabam com a gente.

– Não gostamos de conversas inócuas. Papo social “como está o trabalho?”, “como estão seus pais?”, “e as crianças?”, nossa, que tristezadaporra.

– Entenda: essa história de que misantropos odeiam a humanidade é um equívoco burro de se levar uma palavra ao pé da letra. Misantropia significa ódio à humanidade, e não é o nosso caso, muito pelo contrário. A gente ama a humanidade, mas aquilo que seja humano, real, autêntico. Não o fake, o sem graça, o superficial.

– Estava numa festa de casamento e encontrei um cara que não via há uns anos, mas gostava dele. Fui falar oi, estávamos só nós dois, e ele me falou “E aí, Claudia, como a vida tem te tratado?”, e eu vi que era uma oportunidade pra uma conversa de verdade, e me esforcei pra falar de algo mais pessoal e importante, e ele fez o mesmo.

– Mas veja bem: numa roda social comum, não é isso que acontece. As pessoas não estão conversando, elas estão disputando espaço, às vezes tentando falar mais alto do que as outras, pra tentar contar algo de si, alguma história pra posarem de cool, ou pra contarem alguma notícia de portal ou meme ou mostrar um vídeo no celular.

Misantropos adoram conversar, mas tem que ser conversa de verdade. Papo-furado não é com a gente. Notícia de portal mencionadas com superficialidade, vídeo do youtube, bravatas, generalizações toscas, escatologia, perrengues do trabalho, histórias que você sabe que fulano já contou pra outras 20 pessoas antes de você. Essas coisas me mortificam.

O que me atrai? Quando tem alguém contando sobre algo importante e pessoal, quando tem alguém fazendo uma pergunta sincera, quando tem alguém que quer realmente saber o que o outro pensa.

Meu melhor amigo uma vez disse que sou melhor do que o soro da verdade. Em várias ocasiões, colegas ou recém-conhecidos decidem me contar coisas pessoais. Não porque eu perguntei, mas acho que é só porque não emano ansiedade, não me demonstro alguém ansiosa pra contar algo sobre mim, e presto atenção e olho nos olhos das pessoas enquanto elas falam. Tenho um monte de exemplos. Agora no fim de ano, tem uma conhecida da minha sogra (elas se conhecem há décadas) que me contou que o nome dela não é …. e sim ….. Minha sogra ficou boquiaberta. “Como assim?? E por que ela te contou isso?”. “Não sei. Não perguntei nada, eu só estava sentada do lado dela”.

Guias ornitológicos que contratei em 2017, gente de quem gostei muito, e que me contaram coisas pessoais, como diálogos com a filha sobre educação sexual, ou sobre um dos piores dias da vida, que foi a morte do melhor amigo.

Nós adoramos conversar, e gostamos muito das pessoas. Mas entenda e reconheça: um evento com música alta e um montão de gente não é um local pra conversar de verdade.

 

Misantropos gostam de beber e de dançar?

Não sei falar pelos outros, posso falar por mim. Eu até gosto de dançar, mas em geral acho os programas noturnos muito cansativos. Pode ter relação com eu ter virado birdwatcher e gostar de acordar cedo. Em compensação à noite, não conte comigo pra sair, nem pra procurar coruja.

Adoro beber. Se dependesse de mim beberia vinho ou cerveja todos os dias, só não faço isso porque uns anos atrás recebi o cartão amarelo do triglicérides, e porque engorda. E agora tenho que considerar os riscos de câncer :). Adoro beber, adoro ficar bêbada, mas só gosto de fazer isso quando estou num ambiente seguro e tranquilo. Não gosto de ficar bêbada num bar. Quero poder ficar bêbada na minha casa, na casa de um amigo, numa casa de Airbnb. Em ocasiões especiais aceito beber mais do que devia, mesmo estando longe de casa.

Mas beber rotineiramente todo fim de semana, até passar mal ou até fazer coisas vexatórias? Pra mim isso não é diversão.

 

Misantropos conseguem ir a shows?

Faz muitos anos que não vou a um show de música, mas tenho um leitor-amigo misantropo que sempre vai a shows de rock. Ele adora rock, vai a shows, vai a bares. São coisas que ele gosta de fazer, então ele vai.

Já fui a apresentações de Cirque du Soleil, Broadway, Lincoln Center. Lugares cheios de gente, teve uma apresentação de Cirque du Soleil que fomos pegos pra Cristo, sabe o casal escolhido pro palhaço ficar fazendo gracinhas antes do show começar? Fomos nós. E não foi nada ruim.

O que me leva a concluir que a questão com as multidões não é só sensorial, ela tem algo de moral. Meu amigo consegue ir a shows. Eu estava no Cirque du Soleil pagando mico e tudo bem. Mas estar num restaurante, com alguém da mesa ao lado falando alto demais, isso me incomoda e me desgasta. Ir a um evento social com um monte de gente falando papo de salão me desgasta. Mas eu me imagino fácil indo a um evento social com muita gente disposta a conversar de verdade, pessoas com uma visão cândida e generosa sobre o outro.

 

Benzadeus, vocês são estranhos. Com o que vocês se divertem, se é que se divertem

Eu adoro fotografia de natureza e sempre encontro diversão onde muita gente não vê nada. Fotografo aves, insetos, flores, besouros, aranhas. Fico horas, dias seguidos, entretida em observar e fotografar.

Adoro snorkeling. Adoro snorkeling de rivalizar com o birdwatching. Me imagino morando numa cidade de praia e indo todos os dias aproveitar a maré baixa. Eu já tinha gostado do snorkeling, mas o quem e fissurou foi fotografar e ter descoberto o site inaturalist.org.

Já mergulhei de cilindro (e fui reprovada no check out – o tal alagamento da máscara), mas talvez em algum momento do futuro a gente passe um tempo indo pra esses lugares do Caribe onde é lindo, fácil e barato mergulhar de cilindro – e depois de inventarem a vacina pra Zika. Eu sou encanada com essas coisas, e li as notícias sobre gente que perdeu a visão, ou que tem dores que não saram, tiveram que parar de fazer exercícios físicos.

Fiz rafting  e caiaque algumas vezes, até achei legal, mas hoje em dia quando penso em água só dá vontade de snorkeling.

Já tentei snowboard, e desisti no início da primeira aula. Nem tentei esqui. Mas se morasse num país em que neva por meses, me dedicaria a aprender.

Além de fotografar, também gosto de editar e divulgar a natureza.

Também gosto de desenhar, sempre gostei, desde a infância. Tenho uns poucos rascunhos, faz uns anos que estou ameaçando voltar a desenhar mais a sério, mas a fotografia e as questões políticas do birdwatching ocupam tanto tempo.

Gosto de ler e gosto de escrever. Gosto de blogar. É um prazer escrever e pensar que as coisas que escrevo ajudam e divertem os outros.

Gosto de cozinhar com o Cris, inclusive quando a gente viaja. Fazemos pratos simples no capricho, com muito sabor, sempre regados a algum álcool e em geral com alguma vista bonita.

Posso falar que adoro viajar, apesar de parecer meio redundante com a história da fotografia. É tão sobreposto e intercalado.

Adoro ir a museus. Sempre que a gente vai a uma cidade grande vamos pros principais museus, e sempre pensamos que devíamos ir mais de uma vez na mesma viagem.

Adoro encontrar alguns amigos bem especiais, e conversar e beber como se o tempo não existisse.

Às vezes eu jogo. É bem esporádico, considerando que o Cris e o Daniel adoram jogos. Mas sou capaz de passar horas jogando Ark – Evolved com eles, já chorei quando meu primeiro pteranodon morreu, tenho centenas de horas de Minecraft e Terraria com o Daniel.

E os outros devem ter outras diversões… repare que não sou só misantropa, também sou capricorniana, que talvez signifique misantropia exacerbada nos aspectos frios, considerando posts como este: http://claudiakomesu.club/capricornio-e-cafe-preto-e-amargo/, ou seja, eu sou um dos piores cenários possíveis.

 

Como conciliar meu amor misantropo com minha vida social?

Repare: sua vida pessoal. Sua. Ser um casal não significa fazer tudo junto, apenas aceite isso. Seu amor misantropo irá com você em alguns eventos mais importantes, e graciosamente escapará dos outros.

O que eu falo pros outros?

Pra família, em geral recomendo não se falar a verdade. Quando não vou a uns eventos da família do Cris é sempre porque fui jantar com uma amiga, ninguém precisa ouvir um “ela é uma misantropa e não queria vir”.

Você pode fazer a mesma coisa. Diz que seu cacho tinha outro compromisso, ou que precisava trabalhar, ou que foi ver a família, socorrer um amigo que levou um fora, jantar com um que não via faz tempo. Ou se for encontro com alguns amigos bem queridos, desses que você pode falar qualquer coisa, você pode dizer “fulano não veio porque ele é uma porra de um misantropo, vocês sabem o que é isso? Descobri há pouco tempo. Que há milhões de pessoas assim no mundo, que simplesmente não se divertem como a gente se diverte, que não gostam de badalação e agito, e que ficam desgastados e meio malucos se não tiverem um tempo de sossego. Não foi fácil engolir essa, primeiro eu achava que era frescura, mas depois de ler vários textos, vi que esse negócio realmente existe, é da pessoa, nada pode mudar isso. E se a gente ama alguém… tem que aceitar a pessoa como ela é, certo? Não é falha de caráter, não é como se a pessoa fosse ladrão ou mentirosa. Ela simplesmente precisa de sossego”.

 

E é isso, meu amigo que teve a (in)felicidade de se apaixonar por um misantropo.

Você tem que aceitar que somos o que somos, e não tem nada que vai mudar essa nossa necessidade de sossego e tranquilidade.

Se você não se imagina indo a algum lugar sem seu cacho, considere a possibilidade do problema ser você, e não o cacho misantropo. Somos pessoas, somos indivíduos. Você já era uma pessoa antes de conhecer o outro, você não precisa depender dele pra ir pra algum lugar. Se você acha que estará deslocado, sem ter com quem falar, você realmente precisa ir? Se for algo como uma obrigação que não tem como escapar, você pode pedir pro seu cacho misantropo ir pra te fazer companhia, como um caso especial. Mas na rotina, nos encontros frequentes com seus amigos, ainda mais se não há muita comunhão, por favor, não espere e não peça pra ele ir. Fazer isso é uma violência, é desrespeitar quem o outro é.

—- x —

Você sabe o que é passarinhar no Brasil? Significa acordar às 5h30, às vezes antes. Vestir calça comprida, camisa de manga longa, bota, chapéu, mesmo que esteja um calor dos infernos. Se besuntar de repelente e protetor solar. Em geral carregar um trambolho de uns 3kg, que é a DSLR com a tele, às vezes com um tripé também. Andar por trilhas às vezes enlameadas e íngremes. Passar fome, calor, vontade de ir ao banheiro (pras mulheres mais reticentes em fazer xixi no mato). Às vezes fazer isso do amanhecer ao por do sol (e tem gente que emenda com a corujada), vários dias seguidos.

E acredite, há milhares de pessoas no Brasil e milhões no mundo que adoram isso, que são capazes de pagar caro pra passar vários dias nessa rotina. Atrás dos tais emplumadinhos. Pintei um quadro meio ruim, mas não é o pior, tenho colegas que são capazes de navegar mais de 5h em barquinhos desconfortáveis, pra chegar numa pousada com precariedades de estrutura e higiene, só pra ver alguma ave rara.

E o snorkeling de que eu tanto gosto? Na Austrália no verão em Sydney a temperatura média da água é de 22 graus. Vi homens barbados gritarem quando a onda bateu nas partes íntimas. Mas eu entrei mesmo assim, só com lycra (ainda não tinha comprado meu macacão de neoprene). Fiquei lá alegremente, só porque tinha peixinhos pra fotografar.

 

Por que estou contando essas coisas? Pra ver se fica mais claro o seguinte: como você se sentiria se você fosse meu namorado que não tem toda essa atração por natureza, e eu te obrigasse a ir comigo passarinhar ou fazer snorkeling?

Obrigar um misantropo a ir a eventos sociais que não o interessam é um perrengue do tipo ser uma pessoa urbana obrigada a acordar às 5h30, passar o dia no mato, entre insetos, calor, fome, lama. Ou obrigado a entrar no mar gelado. Ou seja, apenas não faça. Respeite quem o outro é, entenda que as pessoas são diferentes umas das outras. Seu amor misantropo também tem uma lista de coisas que ele gostaria que você agisse diferente, mas ele não fica te pedindo ou jogando na cara, ele aceita. Aceite quem o outro é. Misantropia não é doença é não é frescura, é só o o jeito como nós somos. A gente não te pede pra parar de gostar de festas ou de encontrar seus amigos. Por favor, não nos peça pra parar de precisar de sossego e tranquilidade.

Você está no comando da sua vida

Nação misantropa,

espero que este tenha sido mais um ano bom. Não importa o que tenha acontecido com vocês, pesa menos o que aconteceu e mais o significado que você deu pros acontecimentos.

Não temos como dizer que o ano foi prazeroso se não foi, dizer que foi alegre, gostoso, tranquilo, cheio de momentos deliciosos se não foi isso que aconteceu. Mas sempre está em nossas mãos processar o ocorrido e transformar os maiores perrengues, chatices ou mesmo dores e tragédias em acontecimentos com um significado.

A passagem do tempo, todos os dias, a cada minuto, nos oferece a oportunidade de nos cultivarmos como pessoas melhores. De curar feridas, diminuir as fraquezas, de nos transformar, tanto a aparência como o conceito e portanto a essência de quem nós somos.
A realidade é uma ficção. Não existe a realidade, e sim inúmeras realidades, inúmeras visões de mundo, cada uma depende da mente, da percepção e da história de cada um. O que é relevante e nos faz sentido passa a fazer parte do que prestamos atenção, todo o resto é ruído.

Assim como não-birdwatchers só enxergam folhas e galhos onde nós vemos aves pequenas, está dentro do poder da escolha de cada pessoa se sintonizar em bondade, generosidade, superação, fraternidade. Ou em fofoca, maldade, picuinhas. Nós temos essa escolha.

A Seicho-no-ie e várias outras correntes orientais falam sobre o poder dos nossos pensamentos e palavras moldando a realidade. Um exemplo que sempre falavam é de como seu filho será diferente se você criá-lo com amor, apoio e incentivo, ou com críticas ou descaso.

Falando assim parece óbvio, não? É claro que uma criança criada de forma amorosa (mas não condescendente) terá mais chances de se tornar um bom adulto do que aquele criado em meio a críticas e desprezo. Mas o que muita gente não consegue enxergar é que o mesmo vale pra nós mesmos: muita gente vive uma vida infeliz porque nos alimentamos de críticas e desprezo, em vez de nos conectar com compreensão e amor, especialmente na hora de nos julgarmos. Nos tratamos com uma dureza e crueldade que nunca destinaríamos a um amigo.

Este post mistura vários conceitos, mas queria destacar que continuo adorando o livro da Lisa Barret. Estou lendo aos poucos, e provavelmente vou reler quando terminar, mas há vários trechos que fico marcando, não tanto por serem algo totalmente inesperado, mas por saber que a neurociência confirmar em experimentos coisas que a gente desconfia faz tempo.

https://www.amazon.com/How-Emotions-Are-Made-Secret/dp/0544133315

As descobertas da neurociência dos últimos 30 anos têm inúmeras repercussões, mas destaco esse pedacinho que me é tão caro, e que nem sei o quanto estou extrapolando em interpretar assim, o quanto apanharia dos psicólogos, mas acredito de verdade que nossos valores, nossa cultura, moldam a forma como vemos o mundo. E ainda que não seja fácil se livrar de traços culturais ou traumas de infância, há um espaço para buscarmos a escolha, para enxergarmos que não há questões inatas ou inexoráveis. E, com um pouco mais de fantasia, até acreditar que nosso destino está em nossas mãos, que temos controle sobre nossas vidas e que não somos um barco à deriva.

Uma das expressões que Lisa Barret usa é dizer que está errado o “ver para crer”, que o correto seria “crer para ver”. Nossos pensamentos e valores determinam a forma como vemos o mundo e como interagimos com o mundo e com as pessoas.

Leitores queridos, tenham certeza de que somos a história que contamos pra nós mesmos. Tenha certeza de que se a felicidade é sua meta, você pode sim ser feliz. Basta expandir sua auto-consciência, enxergar onde você se boicota, onde você se despreza, onde estão suas fraquezas, e trabalhar pra mudar isso, e pra mudar a imagem que você tem de você.

Escreva sobre você. Saiba contar uma história bonita sobre quem você é e o que você quer fazer. Trace planos pro futuro, e também a médio e curto prazos. Multiplique suas chances de se realizar.

Eu acredito em você.

Mesmo que chegue janeiro, não tem problema, você tem todas as oportunidades pra refazer o balanço do ano, enxergar um ano bom, e traçar suas estratégias pra ter um 2018 melhor ainda. Acredite em você, no poder do que você pensa sobre você e sobre as pessoas, veja o mundo ficar maior e mais bonito.

Feliz 2018.

PS: porque fui colocar o link do livro na Amazon, achei indicações pra outros dois livros que parecem interessantes, e estão baratinho no Kindle, deem uma olhada talvez interessem a vocês. E já falei disso em outros posts, mas falo de novo: não acho que um grande amor é o único jeito de se realizar. Mas acredito que todas as pessoas precisam de interação, que o relacionamento com o outro torna a vida mais rica e com mais significado. E se você não é o misantropo com o ticket dourado com direito a viver na torre, você precisa sair e conhecer gente. Não li, mas talvez esse livro The Tao seja interessante, o que li nas descrições combina com o que estamos falando, sobre sintonizar com coisas positivas. O autor diz que já teve centenas de encontros, e que sabe lhe contar o que os homens esperam. O outro livro também é bem falado, muita gente dizendo que o livro é cheio de descrições simples e práticas de como mudar padrão mental de pensamentos, portanto comportamento, portanto a sua vida.

 

Todo mundo gosta do inesperado

Claro, estou falando do inesperado do bem, não do inesperado do mal.

Um amigo da faculdade se dizia encantado como nos filmes você está na sua casa, de repente tocam a campainha e é um amigo te convidando pra ir passear, ou a garota que você secretamente admira, mas não tem coragem de falar com ela, vindo te pedir ajuda. E que esse tipo de coisa nunca acontecia com ele.

Obviamente.

Moramos em São Paulo, acho que é impossível mesmo. Mas quando eu morava em Limeira às vezes meus amigos apareciam na minha casa, desse jeito mágico. Sem ligar, sem ter avisado que iam. A pessoa simplesmente toca a campainha da sua casa e passa a tarde com você ou te convida pra fazer alguma coisa.

Sei que hoje em dia deve ser impossível alguém não mandar um WhatsApp pra confirmar se a pessoa está em casa, se quer. Mas, acredite, a era pré-celular tinha suas vantagens. O inesperado do bem é algo mágico.

No feriado de 2 de novembro eu estava em Manaus, eu e o Cris, indo passarinhar com um cara que eu nem sabia qual era o rosto. Eu só tinha uma noção de reputação de gente competente, trocamos alguns emails e eu gostei dele a ponto de falar “você pode ser meu guia no feriado de 2 de novembro?”, e ele podia, apesar de estar nos dias finais da entrega da tese do doutorado. Devo escrever sobre a viagem, mas posso dizer que também foi mágico. Curou meu trauma da Amazônia brasileira (viagem traumática em 2011), o cara é uma pessoa incrível com uma tatuagem linda no braço à altura das coisas que ele viveu. E teve momentos pros meus diálogos silenciosos com a Mãe Terra e pra pensar nas visões da ayahuasca.

Umas semanas antes eu tinha ido pra …. passarinhar e conheci outro cara super-legal, desses que você consegue passar dias conversando. Um dos momentos lindos foi saber que ele era um pai esclarecido. Ele tem uma filha adolescente, linda, conheci a menina. Ele é separado, a filha mora com ele, a mãe nunca foi presente, mesmo quando ainda moravam juntos. Quando a filha fez 14 anos ele a levou numa ginecologista, e pediu pra ginecologista falar pra ela sobre sexo e DSTs, ele estava junto. E depois falou pra ela “você entendeu tudo? Eu não vou ser hipócrita de achar que você não vai fazer sexo, todo mundo faz. Mas você tem que se cuidar. Se você pegar uma DST, vai ser doído, e é você que vai sofrer. Se você engravidar, você é quem vai ter que cuidar do filho. Não vou te proibir de fazer sexo, só quero que você seja responsável”.  Eu tinha contado pra ele que sou feminista, e adorei saber dessa história, falei que o mais comum é pai ter ciúme, fazer de conta que a filha não cresceu, e que ele merecia os parabéns pela visão feminista.

— x — x

sou uma misantropa na torre e com ticket dourado. Mas sei que as pessoas são lindas e há beleza em todos os lugares, e que não é difícil se conectar com isso.

É fácil sair da torre, ir pro mundo, e não é pra ir pra festas ou outros tipos de tortura, mas pra passar umas horas ou alguns dias na companhia de pessoas de verdade, com histórias de vida incríveis.

E qualquer um pode fazer isso. Ir pro mundo e conhecer gente que vale a pena. Não precisa ser o amor da sua vida, nem o crush, nem mesmo um amigo — essas coisas dependem de muitas variáveis posteriores. Mas tenha certeza de que é fácil conhecer alguém e ter algumas horas (ou no meu caso, nos passeios pra ver natureza) alguns dias de conversas bem legais.

Entra na vibe.

Faça propostas inesperadas pras pessoas, e esteja aberto pra receber propostas inesperadas. Deixa a magia entrar na sua vida.

Convide alguém pra sair

Pra qualquer um que esteja procurando companhia, e pra qualquer misantropo que ainda não tem ticket dourado: convide alguém pra sair. É simples assim: quer companhia? É bem mais fácil se você agir pra isso. Conhece alguém que pode ser interessante, quer saber mais sobre a pessoa? Manda uma mensagem e convida pra fazer alguma coisa. Seja uma exposição, um passeio, conhecer um boteco ou um food truck, street photography. Primeiro encontro não precisa ser jantar romântico, cinema com pegação, balada.

Convide. Talvez a pessoa não possa, por ene motivos, mas seu convite deixa claro que você gostaria de passar mais tempo com ela, e se ela tiver algum interesse por você, ou ela vai, ou então ela dirá “desculpe, neste sábado não posso porque x, mas podemos marcar pro dia tal?”.

É simples assim. Juro.

“ah, e se ela/ele não gostar de mim e ficar ofendido com o meu convite, e depois vai falar pros amigos e vão ficar rindo de mim”, gente do Céu, se o objeto do seu interesse for babaca assim, sorte sua descobrir isso mesmo antes de um primeiro encontro. Que tipo de adulto faz um carnaval ou uma tempestade só porque uma outra pessoa convidou pra fazer alguma coisa?

Sobre o que eu falo?

Quase todo mundo tem algo em Facebook, ou Twitter ou blogs ou Instagram, e se você está interessado na pessoa, deve ter feito alguma pesquisa, então tem ideia dos temas. Converse, papeie, sem decoreba demais pra não parecer serial killer. Fale olhando nos olhos da pessoa, faça perguntas diretas do tipo “por que você escolheu tal coisa?”, “o que você acha de tal assunto?” – e repare se o outro também é capaz de fazer perguntas sobre você, se o outro só fala de si e não te faz nenhuma pergunta, descarta.

Hoje é sexta, antes das 13h. Ainda dá tempo de fazer algo no fim de semana. Convide alguém pra sair.

Saber sobre o que você é boa, tirar selfies, ser capaz de dançar sozinha

Passei como lição de casa pra uma amiga com quem almocei nesta semana. Estava contando pra ela sobre uma conversa com uma outra amiga que tem um defeito comum a muitas pessoas, principalmente mulheres: incapacidade de reconhecer suas qualidades, especialmente as grandes.

Essa amiga com o tal defeito é uma super-especialista numa determinada área. Quando falei “você tem um grande conhecimento e experiência”, ela nem deixou eu terminar a frase, me cortou pra falar “tenho nada”. Eu “repara no que você acabou de fazer. Você nem deixou eu terminar de falar, tem algo dentro de você que te impele a negar que você tenha, mas o fato é que você tem, ou o tal fulano não teria te convidado pra participar do grupo de trabalho”.

Você é assim também? Nega que seja muito boa em alguma coisa? Se você faz isso, tem que mudar.

Sei que a gente tem horror a soar arrogantes, e provavelmente também temos uma insegurança de nos imaginar questionadas, ou verbalmente atacadas. Mas combata isso. É mais uma fraqueza pra gente se livrar.

Sabe como você aprende a lidar com situações desconfortáveis? Lidando. É uma mistura de alimentar o conhecimento sobre si, sua autoconfiança, e também ir pra arena brigar.

Já contei pra vocês que sou boa de briga (dentro dos limites da civilidade. Não sei lidar com a violência gratuita, ou o foda-se o que eu prometi, não vou fazer e pronto… mas acho que se tivesse que lidar com essas coisas com frequência, aprenderia técnicas brutas). Mas pra argumentar não tenho problemas, mesmo quando pego pessoas tensas, no agressivo-defensivo, irônicas. Quem me deu clareza sobre isso foi o Cris. Estávamos discutindo porque ele me disse que eu fico ansiosa demais com idas pra aeroportos, e eu tentando explicar que não sou ansiosa, eu sou é traumatizada (de tantas vezes que quase perdemos, ou que perdemos mesmo um voo, e mesmo assim o Cris insiste em não querer chegar adiantado), e ele tentando me convencer de que eu sou ansiosa sim, e daí, todo mundo é ansioso por algum motivo, que por exemplo ele ficava ansioso quando tinha uma reunião com pessoas possivelmente hostis, mas que isso não era um problema pra mim.

E eu pensei que era verdade. Não sobre eu ser ansiosa, isso eu vou continuar defendendo que é trauma, mas sobre em geral não ter medo ou preocupação de lidar com qualquer grupo (dentro dos tais limites). Leio artigos que contam as dicas do FBI sobre negociações sob tensão, e acho tudo óbvio.

Como fiquei assim? Desde a adolescência lembro de diversos embates verbais, às vezes com plateia, às vezes com crueldade das frases de efeito, só pra fazer a plateia rir. Depois que fui pra faculdade, e comecei a frequentar chats (o início da internet, 20 anos atrás), eu também participava de diversas discussões, inclusive com gente hostil. E depois quando comecei a namorar o Cris e a gente brigava tanto no começo, tanto, mas tanto… Sei lá. Me sinto temperada a ferro e fogo. Sem medo.

É uma habilidade que recomendo a qualquer um cultivar. Saber conversar e não fugir de situações difíceis é uma grande vantagem.

Poderia dar uma lista de coisas que eu sou muito boa, mas não é o caso do post de hoje. Vou só continuar explicando sobre a lição de casa pra minha amiga.

Os selfies fazem parte da nossa confiança sobre quem nós somos. A gente precisa ter uma imagem sobre quem a gente é, e se não tirarmos selfies, como disse o guruzinho (que também estava no almoço), ficamos sujeitos às imagens que os outros tiram da gente. E a maioria das pessoas não é fotogênica o tempo todo, mesmo gente linda pode ser pega num ângulo ruim, ou mastigando, ou numa pose estranha.

Precisamos dos selfies. E nem precisa compartilhar em Facebook ou Instagram, fotografe pra você, pra fortalecer o seu amor por você.

Peguei meu celular e mostrei vários selfies, e fotos com o Cris e o Daniel, e essa minha amiga soltava exclamações “oh, que lindos”, e estávamos lindos mesmo. E eu não sou linda. Mas numa foto com luz boa, e na companhia de pessoas queridas, posso ficar linda, e essa é a imagem pra eu guardar e cultivar como uma auto-imagem.

Essa amiga me contou que ainda não consegue dançar sozinha. Acho que foi uma outra lição de casa que eu tinha passado. Está tudo relacionado. Contou que tem vergonha de tirar selfie. Que não consegue dançar sozinha. E que não consegue xingar, gritar, ou falar palavrão. Que ela só grita um pouco de susto, mas que nunca gritou de raiva. Perguntei se ela já tentou o “porracaralhoputaqueopariu” quando está brava, ela falou que não consegue, porque é muito feio falar palavrão. Falei pra ela que eu também não costumava falar no dia a dia, mas que às vezes só um palavrão expressa nossa raiva ou frustração, e que se negar isso é um mau sinal, como se ela precisasse manter uma imagem de alguém muito perfeitinha. Ela entendeu, e disse que vai tentar. Não garantiu sobre os palavrões, mas que vai tentar falar pra si sobre o que ela é boa, tirar selfies, e conseguir dançar sozinha.