Carecas e travecos

Fui pra Natal – RN neste fim de semana, mais uma vez seguindo o circuito do poker brasileiro. Era para eu ter um guia ornitológico, mas houve um imprevisto. O assistente do guia, o simpático Nicolás, me deu algumas dicas de onde eu poderia ir sozinha, e foi graças a ele que decidi ir pra Praia do Forte domingo de manhã. No sábado eu havia ido ao Parque das Dunas, dica do Hector e do Gilberto (a comunidade passarinheira é muito unida para trocar informações).

Conversando com o taxista na ida, minha cara de mané sempre causa essas reações: quando expliquei o que eu ia fazer na praia, pediu pra eu tomar cuidado, para não me afastar dos agrupamentos de pessoas, quando chegamos fez questão de descer do carro e dar uma olhada em volta, pra checar se estava tudo bem, disse pra eu chamar um táxi na hora de ir embora, que no fim de semana aquele era um lugar frequentado pelo povão (palavras dele).

“Esses passarinhos que você quer ver… acho que já vi eles correndo na areia. Parecem um pinto, não?”

Sou uma pessoa com um bom grau de auto-controle, então só concordei “sim, é isso mesmo”, ainda que na hora a ideia de um pinto correndo fosse totalmente South Park. Agradeci e me despedi, mas fiz uma nota mental pra este post.

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Eek, a penis! um dos memoráveis episódios do South Park, da época em que era bom

Lá na praia, muitos homens jogando futebol. Gente com aqueles cones e círculos pra fazer treino. Todo mundo com roupa de praia, eu de calça, tênis, mochilona. As pessoas olhavam, alguns sempre gritam coisas como “tira uma foto minha”, mas nada além disso. Não muito longe dos times, um bando de pintos na areia.

Essa foto é com uma tele 500mm, mas imagine esse bichinho a olho nu. Qualquer um tem direito de pensar que é um pinto correndo na areia.

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Natal é uma das cidades que mais venta no Brasil. Emocionante saber que você está num dos extremos do país, um lugar histórico. Na praia há um forte de 1599. Mas não era esse o meu interesse. Eu queria ver os pintos que voaram milhares de quilômetros, desde o hemisfério norte, e agora descansavam naquela praia.

E logo topei com alguns deles.

esperando a vez de jogar
esperando a vez de jogar

O bando era principalmente de carecas grandes e pequenos. Os grandes são trinta-réis-boreais, os pequenos são  trinta-réis-miúdos. (Eu não sabia isso na hora, depois pedi ajuda pra os colegas birdwatchers pra identificar). Havia também pelo menos uns quatro vira-pedras, essa simpatia colorida:

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Também registrei, mas bem de passagem, um maçarico-branco e um maçariquinho. As duas espécies de trinta-réis e os maçaricos eu nunca tinha visto. Quatro lifers numa beirada de ponte, perto da pelada domingueira.

Ah, os carecas não são assim o tempo todo. No período reprodutivo o topo da cabeça fica com penas pretas, o bico muda de cor. O vira-pedras fora do período reprodutivo fica pálido assim:

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Mas a transformação mais impressionante é do Philomachus pugnax, uma ave que vive na Eurasia, que em épocas normais é assim (foto da Wikipedia):

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E durante o período reprodutivo fica assim. Até agora é a maior travecagem que já vi no reino das aves. As aves do paraíso também são divas, mas me parece que elas não têm mudança do bege pro esplendoroso:

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Num dos momentos em que eu fazia aquelas poses que são ótimas pra figurar na coleção de coisas ridículas que os japoneses são capazes de fazer pra fotografar (era algo como The Missionary, do Camera Sutra, mas eu estava apoiada na minha mochila), de repente sinto que tem alguém do meu lado. Um senhor careca como os trinta-réis, mas com uma barba bem comprida, barrigão, e de sunga. Todo sorridente. “Misericórdia!” (e eu pensei “ele não pode estar falando do meu traseiro”), “mas que lente é essa, o que é isso?”. Expliquei que era uma 500mm, mostrei uma foto no visor. Ele sorria e ficava pegando no meu braço. Não fiquei com medo, tinha muita gente a alguns metros dali. “Mas eu estou atrapalhando”, não falei que não, e logo ele foi embora. Talvez tenha sido por isso que um tempo depois, quando eu me aproximava bem devagar do bando de trinta-réis-boreais ele vinha caminhando na direção contrária e não fez questão de desviar, afugentou o bando todo. Eu vi ele se aproximando, mas não queria ter que pedir alguma coisa pra ele.

Ventava muito. A previsão do tempo dizia que os ventos iam chegar a 32 km/h. Ventava de ser difícil manter a câmera firme. O chuvisco foi aumentando, a luz diminui, e eu pensei que era melhor ir embora. Tinha ficado menos de 1h30, mas graças ao câmera sutra parecia muito mais. A praia tinha um certo movimento, então de vez em quando passava alguém que afugentava o bando dos trinta-réis. Eles nunca voavam pra muito longe, na verdade tinham três áreas favoritas que alternavam de uma debandada para outra. Esses bichos em voo pareciam feitos de papel. Merecem um post só pra essas cenas de voo.