Capricórnio

Quem acredita em astrologia? Pra previsões diárias eu já vi que não funciona. Mas pra delinear pessoas, caramba, como têm tantas coisas que batem.

Hoje na minha aula de treinamento funcional (faço 1h uma vez por semana, e às vezes falto porque viajo. Mesmo assim, tem me transformado) as meninas estavam falando sobre Virgem. “E qual o seu signo?”. Capricórnio. Dois segundos de silêncio pesado. “Uau. Eu nunca iria imaginar. Você parece tão calma. Achava que você era sagitário… Minha mãe é sagitário, sagitário é bonzinho, não é? Meu pai é capricórnio”.

Eu sabia o que falar: difícil, não?

“É, é difícil”.

Não é que a pessoa seja exatamente brava, é que se ela vê algo que acha errado, ela não se aguenta.

´”é! É isso mesmo”.

No fim da aula chegou a outra professora, e a Gabi falou “adivinha que signo ela é”, a Thais ficou me olhando e falou “Libra?”, “Não! Capricórnio. Dá pra imaginar? A gente nunca ia adivinhar”.

Claro que não, eu estou numa aula de ginástica, de vez em quando papeando sobre os assuntos correntes (hoje era só meninas, então uma delas estava falando sobre cólica e coletor menstrual). Quem iria imaginar que eu sou o ser que mata a maioria dos signos e carrega 300% de raiva?

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Mas é a verdade. Claro que a gente não é assim o tempo todo pra tudo, nós escolhemos as nossas brigas. O Cris — outro capricórnio, mas de dezembro, parece tão sossegado, e meus colegas birdwatchers adoram ele, comentam como ele é tranquilo, da paz. Só porque eles nunca tiveram que enfrentar uma situação em que as opiniões deles divergiam.

“Hoje eu briguei com…” — não preciso terminar a frase, o Daniel já está sorrindo e fazendo aquela cara que a gente gosta de fazer, que são os dedos formando um L maiúsculo encostados na boca entreaberta, e um ar de surpresa bem falsa.

Já consegui até brigar com um dos administradores e fundadores do Inaturalist, o que me fez dar um tempo na intensidade de postagens de lá. Eu tive que fazer a mesma pergunta quatro vezes ao longo de quatro semanas, quando ele finalmente se dignou a gastar uns minutos pra analisar meu problema em vez de ficar falando que era erro meu no enquadramento do mapa, ele viu que estava errado. Ele consertou o mapa do Central Park, mas falou que não ia consertar o mecanismo de busca geral e tornar automática a inserção de novas espécies, iria continuar manual. Porque não. Imagina como eu fiquei feliz.

E todas as coisas cortantes e doídas que já falei pra família, amigos. Eu sei que as pessoas não gostam de ouvir. Algumas param de falar comigo. Mas o que é o certo, é o certo, e só porque dói não vai deixar de ser o certo. Somos o que somos, e se não consideramos defeito, não faremos nada pra mudar.