Cadê a porra da sua lista?

A lista. Aquela lista de que eu falo há décadas. Uma lista extensa, detalhada, pra fazer sorrir, escrita com a generosidade com que você descreveria um amigo querido, só que em vez de ser outra pessoa é você.

Cadê a porra da lista das suas qualidades, você descrito sem nenhum receio de soar pretensioso ou arrogante ou metido ou nada disso. Uma lista grande, redundante se for o caso, mas grande, escrita com a consciência de que nos momentos sombrios o monstro morde forte e reler a lista é uma das coisas mais fáceis e imediatas pra lutar contra a besta (as outras são playlist com as músicas certas, comidas boas, passear em lugares bonitos, ver fotos fofas ou fotos que evoquem só lembranças boas, coleção de frases inspiradoras e, se for possível, abraços e companhia de gente que se importa de verdade com você).

“Nunca fiz a lista porque ficava pensando que teria muito pouco pra escrever”.

Não, não, não. Isso é auto-sabotagem, quartinho fedorento. Qualquer pessoa tem uma lista enorme pra se descrever e se você se sente tão travado, é simples: se dissocie. Olhe pra você de fora, como se você fosse uma pessoa querida. Também pode pensar em coisas que os outros fazem e que te irritam ou desagradam, e que você não faz, e já vira mais um item de qualidade sua.

Se está difícil falar “eu sou isso, eu faço tal coisa, sou boa em…” vale escrever na terceira pessoa. “Claudia nunca terá hálito de cigarro… em ocasiões bem especiais, talvez de charuto, mas só naquelas situações em que os amigos estão compartilhando o charuto. A não ser que esteja acontecendo algo bem sério, quando a Claudia te encontrar ela estará com você, prestando atenção em você, conversando com você, ouvindo você, pensando sobre as coisas que você falou e o significado delas, e o que elas transparecem de você.”

Talvez seja mais fácil começar assim, com frases compridas, e depois você sintetiza:

“- não fumo. Se depender de mim, eu, minhas roupas, minha casa nunca estarão fedendo cigarro.

– sei viver o presente, tenho respeito pelas pessoas e se decido ir encontrar pessoas não fico mexendo no celular, não fico pensando em outras coisas, presto atenção no que as pessoas estão falando e consigo processar as informações, sei ouvir, não sou o tipo de gente que fica só ansiosa pra contar alguma coisa.”

Você tem que falar de tudo, de tudo. Que você sabe fazer um ótimo cappuccino, do seu gosto musical, que você fica linda com maquiagem e sem maquiagem, que você tem olhos brilhantes e sabe sorrir com os olhos, que você ri gostoso mas sem escândalo, que você é elegante, tem bom gosto, que você sabe ler as pessoas e confia na sua intuição. Que você sabe fazer coisas incríveis com a sua língua, inclusive dar nó em cabinho da cereja. Que você não atrasa, ou se vai atrasar, sempre avisa antes. Que você gosta de gatos e os gatos gostam de você.

Há tanto pra se falar de si. Você só precisa acabar com a sabotagem, no mínimo bloquear os demônios por um tempo e escrever. Criar uma auto-imagem de quem você é, ou no mínimo de quem você quer ser, e projetar isso. Confiança, tranquilidade, conhecimento sobre determinados assuntos, humor, sagacidade, humildade, humanidade e veja que nada disso tem relação com timidez e insegurança. Partir do princípio de que você deve desculpas, ou que não pertence a algum lugar, ou que não está a altura de alguém, tudo isso é errado, auto-sabotagem.

Martele isso na cabeça, tatue, pirografe:

– qualquer um pode conversar com qualquer um.

– só caráter importa. Se pro outro aparência de modelo, conta bancária, experiências internacionais pesam mais do que seu caráter, descarte essa pessoa, você não vai suportar alguém assim.

– não gostou de mim não serve pra mim. Somos o que somos, se o outro olha pra você e te mede pelas roupas, pela cintura ou pelo bíceps, pelo carro (ou não carro), e não pelo o que vocês são capazes de conversar, essa pessoa não presta.

– tudo que realmente importa está na sua cabeça, no seu coração, e nada muda isso, nada. Não importam suas roupas, o dinheiro no banco, o formato do seu corpo, a cor da sua pele. Na interação com o outro, o que importa é sobre o que vocês podem conversar, ou talvez seja uma conversa de poucas palavras, mas importa a sintonia, sentir-se bem com o outro.

Claro que aparência conta, que no mínimo não viver endividado conta, que roupas bonitas contam, mas ela não são o essencial, entende? Elas não impedem pessoas de se conhecerem e se relacionarem, não é doença, não é maldição. É totalmente periférico, transitório, facilmente mutável. Mas caráter não, caráter não muda, e é tudo que importa.

Todo mundo precisa da porra da lista. Trabalhada, de cor e salteada, sempre acrescentando itens novos, aprimorando. A consciência sobre o conteúdo dela altera a sua vida, o jeito como você pensa sobre si, portanto como você fala, como você se relaciona com os outros, como você se impõe ou se apaga, seu tom de voz, sua linguagem corporal, o espaço que você ocupa no ambiente, num grupo. Pensar na lista te ajuda a se organizar, a criar hierarquia pros temas da sua vida, o que você quer trabalhar em você, o que você quer alcançar, em que investir.

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Eu tenho a minha lista. Confesso que passei um bom tempo sem cuidar muito dela, eu pensava muito nela dos 20 aos 30, mas depois que minha vida assentou ela ficou de lado. Mas eu a retomei. Em parte por causa do blog, dos posts, das conversas com vocês e da vontade de sempre poder mostrar que o que eu prego não é bullshit: funciona e eu posso provar :).

Fico falando sobre se expor mais, e compartilho novidades sobre gente legal com quem estou tomando contato, das aventuras no grupo do primeiro grau (que aliás, está agitadíssimo, muita gente respondendo as perguntas. Tudo bem que em quantidade a maioria só quer responder as objetivas, mas no mínimo eles estão lendo as outras, e o bate papo nos posts faz as pessoas irem se sentindo mais à vontade umas com as outras. E foi graças à misantropa introvertida aqui 🙂 ).

A lista também me fez dar mais importância pra mim como fotógrafa. Mas isso é assunto pra outro post.

Por ora tudo que eu tenho que repetir é: faça a sua lista. Faça. Ou já sabe: vou te encher o saco como encho o da minha mãe quando ela enrola pra marcar médico.