Breves comentários sobre bullying

Achei uma parça no meu grupo do 1o grau. Uma garota que não era minha amiga na época, mas passamos um tempão conversando agora à tarde, e ela é louca que nem eu, de começar uma conversa inbox e em cinco minutos estar contando coisas importantes da vida dela.  Enquanto isso, no grupo, ela já postou “Pergunta polêmica: qual é sua religião”, e agora um post falando do 13 Reasons Why.  Ninguém comentou até agora, só eu. Escrevi comprido e falei pra ela que sempre vou comentar qualquer assunto polêmico que ela quiser conversar. Vou colar aqui:

“Oi [nome da minha parça]

Estou achando que não vão ter muitos comentários sobre esse tema, as pessoas têm se manifestado no grupo muito mais do que eu esperava, mas tem coisas que não espero que as pessoas abram. Acho que somos as mais louconas, e vou apoiar sempre qualquer coisa que você quiser conversar, mas acho que é bom a gente não esperar demais dos outros.

Em geral as pessoas não querem falar com essa abertura que estamos falando, mas acho que vários estão lendo, acho que podemos contar com isso.

Bullying é sério e grave. Sentir-se sozinho, sem amigos, sem ter com quem conversar, é seríssimo. Imagino que a maioria das pessoas aqui já não tem problemas com isso, mas temos que ficar atentos por causa dos nossos filhos, e também vigiar se algo do nosso discurso pode estar sendo preconceituoso, venenoso.

Você sofreu bullying? Quer contar?

Eu sei que era chamada de CDF, que é algo nada elogioso, mas nunca me senti discriminada nas escolas no tratamento pelos colegas, pelo contrário, sempre me sentia tratada com carinho, respeito, disputada até como companheira de trabalhos em grupo :).

Mas nas ruas era diferente. Eu odiava ser japonesa. As pessoas mexiam comigo, passavam por mim e gritavam arigatô, banzai, japoronga, ou qualquer coisa que elas achassem que soasse como japonês. Uma vez uns garotos me seguiram, ficavam andando do meu lado puxando os cantos dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. E quando virei adolescente e comecei a ter peito, ficava levando secadas, aquele som sibilante nojento, o gostosa. Às vezes eu voltava pra casa em zigue-zague, atravessando a rua toda vez que visse homens ou garotos com jeito de quem poderia mexer comigo.

Eu já passei por uns abusos que a maioria das mulheres já passou, mas o que me dói mesmo é o bullying por ser japonesa. Eu achava que era coisa do passado, em São Paulo ninguém mexe com você, mas um tempo atrás fui fazer rafting em Brotas, cruzamos com outro bote que estava com vários japoneses, meu condutor falou pro outro “ei, a gente pode trocar”, “podemos mesmo, e pior é que se cair na água você não sabe qual é qual” – afinal, japonês e caminhão de melancia é tudo igual. Até então eu estava papeando com ele, depois me calei, mas não quis reclamar do que ele falou pra não estragar o passeio pros outros. Mas doeu, e dói até hoje. Depois desse dia, todas as vezes que penso nisso me caem umas lágrimas.

O Cris estava indignado, ele nunca tinha visto, falou “você me falou de como era em Limeira, mas eu não imaginava que era assim, até hoje”.

Uma vez meu enteado estava contando algo da escola e falou “o gordinho”, eu falei “não fale assim. Em geral quem é gordo não gosta de ser chamado de gordo, a gente não deve falar nada que possa chatear as pessoas”, ele nunca mais falou.

Quando ele era bem criança, uma vez a gente viu ele brincando com uma girafa, falando que ela era um palitinho, e desconfiamos de que alguém na escola dele estava chamando ele de palitinho. Passou logo, mas é o tipo de coisa pra se ficar atento também. Ele era muito magrinho, mas já faz uns anos que ele faz Kung-fu três vezes por semana, isso também ajudou bastante em confiança. Ele não é do grupo dos populares da classe, é mais dos nerds, gamers, mas tem o círculo de amigos nerds e gamers também, é um garoto feliz, cantarolante, bem humorado, engraçado.

Meu cunhado, marido da minha irmã, é muçulmano nascido na Marrocos, naturalizado brasileiro. É um amor de pessoa, a família dele também é um amor. Não deixo ninguém falar mal de muçulmanos perto de mim, sou capaz de responder comprido quando recebo aqueles textos que generalizam a loucura do que algumas pessoas fazem, como se fosse coisa que qualquer muçulmano ou árabe faz. “Sabia que o Brasil é um país de corruptos, que todo brasileiro é corrupto? Deviam proibir os brasileiros de saírem do país, pra pararem de espalhar a corrupção pelo mundo”, às vezes respondo assim.

Escrevi muito. Mas quem chegou até aqui, obrigada pela atenção ao tema, e espero que você também faça parte do time de pessoas que estão sempre agindo por um mundo mais gentil, mais humano, menos injusto e menos cruel.”