Breve carta aos desenquadrados

Tenho um lado místico, confesso. Um lado que acredita em poder de mentalizações, máfia do invisível, anjos sedutores e um Deus que é só amor e bondade. Ao mesmo tempo, tendo pro ceticismo, gente como o Carl Sagan é meu herói. Digamos assim: meu lado místico me ajuda a levar a vida com mais leveza e diversão, mas eu nunca apostaria nada sério nele. Minha mãe, por exemplo, também acredita em mentalização, não gosta de tomar remédios, acha que se negar a doença logo ela some. Eu fico puta da vida com ela. “Quer ter pensamento positivo? Tudo bem, eu também tenho. Mas pensa coisas boas E vá ao médico, não pode deixar de ir ao médico”.

Entre minhas crenças inofensivas atuais, tenho a ideia de que Deus conversa comigo por meio de filmes ou livros. Às vezes ouço ou leio algo e penso “isso é pra mim, estão falando comigo”. Um tempo atrás Gandalf me passou um ótimo recado, mas é assunto pra outro post.

Não foi uma decisão fácil criar o claudiakomesu.club. Os pretos me falam há anos que eu devia ter. E na verdade, ao longo dos anos já tive vários blogs secretos pra desaguar, xingar, conjecturar, exorcizar, zoar. Mas todos no imenso conforto do anonimato. Um blog com o meu nome? Prós e contras.

Nas questões de privacidade, discrição, eu tendo pro lado conservador. Mas uma das minhas crenças é uma junção da parábola dos talentos com orientações dos profissionais de sucesso. A ideia de que as pessoas deveriam valorizar aquilo que elas têm de único, ou no mínimo o que elas têm de melhor. Todas as pessoas, todas mesmo, têm algum aspecto que as torna especiais, algo que apenas aquela história de vida, sequência de acontecimentos, intelecto, forma como foi processado, tudo isso se converteu de forma única naquela pessoa em pelo menos uma habilidade. Todo mundo tem obrigação de reconhecer qual é seu talento, expô-lo e valorizá-lo. Os talentos não foram feitos para ficarem enterrados, e sim para brilharem e multiplicarem.

Eu achei que poderia ajudar a divulgar a observação de aves, especialmente para os iniciantes. Acho que tenho conseguido. O www.virtude-ag.com exige pouco hoje em dia, e volta e meia topo com as pessoas que me contam que é útil, ou que gostam dele, ou até que ajudou bastante. O que me fez pensar no que mais eu queria.

Uma das coisas que eu queria é me sentir menos só. Tenho alguns amigos muito bons e queridos, mas tem vários momentos pra me sentir uma quimera. Um ser estranho. Um ET. Outsider. Lembrar de todas as vezes que o Daniel olhou pra minha cara sorrindo e disse “já te falei hoje que você é estranha?”.

Então foi isso que eu pensei. Que nunca vou deixar de ser uma quimera, de olhar em volta e achar que não entendo e não me sintonizo com a maioria das coisas do mundo. Mas tenho a capacidade de dizer pra uma outra quimera, posso dizer a esse outro ser estranho que há outros seres estranhos no mundo, e que a felicidade é possível.

Acho que nós estranhos nunca deixaremos de ser estranhos e esquisitos. Eu sei, eu sei, eu também já desejei transplante de cérebro, second chance, lobotomia, qualquer coisa pra não me sentir mais a idiota que pensa demais e ri de menos. Mas este não é o caminho, e você sabe disso. A gente é o que a gente é, essa é a nossa natureza. Não cabemos na caixa, e tentar viver dentro dela é suicídio espiritual, intelectual, é viver zumbizado.

Devemos assumir quem somos, o que somos. Parar de fingir que a gente é normal. Não somos e ponto. Somos estranhos mesmo, mas tudo bem. O mundo é muito mais bonito com a diversidade, a coragem de assumir que somos estranhos e diferentes faz outras pessoas se exporem também, e de repente o que era uma paisagem monótona começa a ganhar muito mais cores e sabor.

Outra das minhas crenças: que o que fazemos de coração puro e com coragem é reconhecido e recompensado, que fazer coisas boas atrai coisas boas. Acho que o claudiakomesu.club pode ajudar os outros esquisitos. E já comecei a receber as recompensas. Umas semanas atrás falei pro mundo que estava morrendo de banzo, e plin. Neste fim de semana matei um pouco da saudade da África do Sul aqui no Brasil, e ainda conheci pessoas muito especiais. (logo faço o relato da viagem)..

Então, meu querido desenquadrado, a mensagem é esta. Podemos assumir quem somos. Não desenbestadamente. Escolhendo ainda pra quem e como vamos mostrar nossas true colors. Mas certos de que devemos manter as orelhinhas em pé, alertas ao mundo, sempre capazes de detectar a presença de outra quimera. E de ser estranho em ser estranho, em vez de um cenário desolador, o mundo vai ficando mais interessante.