Blogando na vida real – o que fazer numa situação de luto?

Neste fim de semana fui ver minha amiga cujo irmão morreu de infarto, com menos de 40 anos. Ela, a mãe e o irmão moravam juntos desde sempre. Ela foi minha professora de matemática no colégio. Queridíssima, engraçadíssima, tão generosa. Nós éramos a primeira turma de Processamento de Dados num colégio técnico da Unicamp. Você entrava por um Vestibulinho. Nosso curso foi o mais concorrido. Além de Processamento de Dados, vulgo PD, o colégio também tinha Agrimensura, Enfermagem, Mecânica. Os professores dos outros cursos zoavam a gente, especialmente mecânica. Tinha professor que falava pra classe “não se preocupem com essas meninas do PD. Vocês vão se formar, e elas vão ser as secretárias de vocês”. Juro.

A Rosa era uma das professoras que defendia nosso curso e a gente. Pensando bem, havia um potencial pra um ambiente bem hostil. Curso novo, concorrido, gente nerd com nota alta no Vestibulinho, muitas pessoas que eram as melhores das suas classes no ensino médio. Poderíamos ter sido beeem trolados. Acho que a gente não foi discriminado mais ostensivamente por causa de professores como a Rosa.

O irmão da Rosa morreu 15 dias atrás. De repente. Assim. De um dia estar tudo bem, e no outro encontrar a pessoa morta no quarto.

Soube porque uma das pessoas da minha classe de PD avisou no grupo do WhatsApp. Estava em Tavares. Não consegui ir pra missa. Queria ter ido vê-la assim que voltei de viagem, mas ela não respondia mensagem, depois apareceu o rolo com o meu aluguel, deixei para o fim de semana. Fiquei nove horas com elas, rendeu uns diálogos engraçados, porque a mãe da Rosa é uma senhora de 78 anos sem papas na língua, imagina o que ela falou quando eu contei que não quero ter filhos, ou que não ganho salário. Depois conto.

 

A blogagem na vida real foi fazer relato da visita pro grupo do WhatsApp das pessoas que estudaram comigo no colegial, para incentivá-las a visitar a Rosa. Acho que fui a primeira da turma a ir visitá-la.

Um dos meus amigos (por sinal um que era bem querido, que muita gente achava que a gente podia namorar, que tinha uma letra tão parecida com a minha que na hora de devolver as provas, as pessoas só olhavam a letra e erravam, trocavam as provas minhas com as dele) agradeceu o relato, falou que se sentiu desafiado e motivado a visitar a Rosa. Outros amigos queridos me explicaram que acham que não vão, porque é preciso respeitar o tempo de luto, que não sabem o que falar, que a Rosa não demonstrou abertura.

Falei que não vou ficar enchendo o saco deles, mas que eu tenho certeza de que num momento como esse é bom você sentir que tem amigos queridos que se preocupam com você. Que a impressão de não-abertura é só porque ela ligou o foda-se pra internet, mas que se você ligar ela responde com gentileza e o carinho de sempre. Que cada visita faz bem pra elas, especialmente no fim do dia, quando o vazio pesa mais.

Está rolando alguma réplica, apitou no celular mas não vou ver por enquanto, talvez nem responda, meu objetivo não é aporrinhar a vida dos meus amigos do colégio.

 

Queria principalmente explicar isso: o que fazer numa situação de luto?

Se faça presente. Mostre que você se importa. O que você vai falar? Talvez nada, talvez só ouvir, só dar um abraço. O clima não é muito pesado? Talvez seja.

Mas e se fosse com você? Seria melhor enfrentar tudo isso sozinho, ou tendo alguém do seu lado?

Clau, que eu sei que lê de vez em quando, quando a Bianca morreu fiquei pensando se devia ir… lamento não ter ido. Devia ter ido. Fiquei pensando se seria muita intromissão na dor da família, e a gente ainda nem se conhece ao vivo. Mas eu devia ter ido de qualquer forma, mesmo que fosse só pra dar um abraço. Só agora tenho clareza disso.

Meus amigos estão falando que não sabem o que falar, o que fazer, que não sabem como lidar com o clima fúnebre, que preferiam estar numa situação em que pudessem beber e falar coisas alegres.

Bom, quem não quer?

Mas putaqueopariu, ser amigo só serve pros momentos bons? Quando você está na merda a gente alega respeito e se mantém afastado? É respeito ou é medo de se sentir incapaz, de não saber lidar com uma situação inusitada?

Claro que não vou falar isso pra eles. Falei que não vou ficar enchendo, que só queria contar que ela ficaria muito feliz com a visita de cada um.

Mas aqui no meu cantinho misantropo, posso falar com orgulho misantropo. Que eu sou misantropa mas tento ser honrada. E quantitativamente posso conviver pouco com outros, mas me considero num nível de perspicácia e inteligência emocional acima de tanta gente que olha pras pessoas mas não consegue enxergar ninguém.