Bichos pra atropelar e nomes que não importam

Tínhamos acabado de sair de uma das estradas de terra e entrado no asfalto. Passei reto pela entrada pro buraco d´água, o Cris e o Daniel pediram pra eu voltar, talvez porque repararam que havia muitos carros virando pra lá. Olhando agora no mapa, como era na região de Lower Sabie, bem perto de uma bifurcação de estrada de terra e asfalto acho que era Mpemane. Perto da entrada pra Mpemane vi um African Ground Squirrel no asfalto, em pezinho, com aquela pose de patas dianteiras unidas como se rezasse. (A foto da abertura é de um African Ground Squirrel, mas não este que descrevi. A foto acima foi feita no Augrabies NP). É comum os bichos ficarem no asfalto, mas a verdade é que em sete visitas ao Kruger, nunca vimos um bicho atropelado.

Chegando perto do buraco d´água de Mpemane topamos com um show de horrores. Mais de 15 carros em volta de três rinocerontes que mexiam a cabeça e batiam a pata da frente, alguns carros estavam a menos de 15 metros deles. Daria uma boa foto de “o que não fazer”, mas eu estava com tanto desgosto que só manobrei o carro pra ir embora, e mais carros continuavam chegando.

O Daniel tinha se cadastrado numa lista de WhatsApp que compartilhava avistamentos no parque, mas proibia informações sobre rinocerontes. Não sei se vocês sabem que rinocerontes são mortos com frequência porque há um mercado de filhos da puta que acreditam que pó de chifre de rinoceronte é milagroso. Mas a quantidade de carros chegando em Mpemane parecia indicar que havia outros canais de comunicação, que alguém tinha divulgado os rinos, lembro bem da Range Rover em alta velocidade, talvez a 70, quando o limite é 50km/h.

Chegando de volta à estrada de asfalto, vejo o African Ground Squirrel deitado de barriga pra cima, morto. Ele é um bicho pequeno, de cor discreta, um pequeno bege sobre o asfalto cinza é fácil não ver. Mas putaqueopariucaralhoporra, você está num Parque Nacional, que tem limite de 50km/h no asfalto e 40km/h na terra, você tem que andar prestando muita atenção. Era fácil não ver o esquilo, mas era impossível não vê-lo se você está prestando atenção pra não atropelar nada, pra reparar que aquela bolota lá na frente é um pequeno cágado e não um cocô de elefante, que a mancha bege é um esquilo e não um torrão de terra.

Penso na Range Rover por puro preconceito, só porque não gosto do design do carro, mas podia ser qualquer um dos idiotas que foi pra Mpamane em alta velocidade, animados com a ideia de três rinocerontes bem de perto.

Fiquei tão brava que o Cris mandou eu parar o carro pra gente poder se abraçar e eu chorar.

É por coisas como essas que escolho as regiões com menos bichos, mas menos gente. Como disse o Cris “A Claudia prefere não ver o leopardo a ter que aguentar 10 carros em volta”. Misantropia na veia.

Mas ainda não tinha acabado.

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Sei que era porque eu estava cansada. A volta de Joanesburgo pra São Paulo é um voo de 10h50, que virou 12h30 por alguma desinteligência da Latam. Perto de pousar em São Paulo o avião chacoalhou e eu enjoei. Não de precisar vomitar, mas de ter que andar me sentindo mal. Enquanto esperávamos nossas malas aparecerem na esteira uma mulher com sotaque carioca estava contando sobre a onça que eles viram. Na quarta vez que ela falou onça eu não aguentei, avisei o Cris e o Daniel, peguei meu carrinho e fui pra um canto em que não dava mais pra ouvir a voz dela.

Não há onças na África do Sul. Há leões, leopardos, guepardos, gatos selvagens, genet, servais, caracais. Mas não tem onça. Não tem onça. Não tem onça! Moça, como é que você pode não se importa em saber o nome do animal magnífico que estava na sua frente?

Pra tentar me acalmar eu ficava pensando que as áreas naturais precisam dos muggles, que eles injetam dinheiro na economia mais do que a gente, que eles compram passeios, compram souvenirs que os parques precisam dessas pessoas, que os parques não sobreviveriam se dependessem só de gente como a gente porque não fazemos volume.

Mas foi revoltante e doeu.

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A semana no Kruger também teve muitos momentos bons e fotos lindas. Mas por enquanto é isso. Um grande putaqueopariuqueraivadequematropelanimais, e o desgosto por pessoas que não se importam com nomes.