Basta ter vida sexual ativa e criativa, e você vira uma vagabunda

Oh, céus.

É sempre o problema de se partir do princípio de que sexo é algo sujo, mais a ideia de que a mulher – mulher de verdade, mulher de respeito, deve ser algo materno, puro, virginal.

Qualquer adulto tem todo o direito de ter prazeres sexuais. O que se faz com o consentimento dos adultos envolvidos não é da conta de ninguém. Se envolveu mais do que duas pessoas, se foi homem com homem, mulher com mulher, duas mulheres e um homem, dois homens e uma mulher, se foi uma suruba geral, se teve anões besuntados, masturbação, felação, sexo anal, fist fucking, golden shower, se envolveu acessórios, comida, algemas, chicotes, roupas específicas (até mesmo a cueca de elefantinho), nada disso é da conta de ninguém.

As práticas sexuais das pessoas, feitas em lugares privados, é só da conta delas.

A gente vive esse mundo de miséria sexual de um lado, lampejos de pornografia do outro, muita fantasia e besteira no meio.

Por exemplo: Kingsman tem uma princesa de algum pequeno país europeu entre os líderes que são presos pelo vilão. Samuel Jackson faz a proposta imoral, sobre o extermínio da maior parte da humanidade, enquanto uma parcela rica de escolhidos seria salva. Essa princesa é totalmente contra, diz que nunca concordaria com algo assim. Ela fica presa numa cela. No final do filme o mocinho do filme topa com ela “você é a princesa que estava desaparecida… posso te dar um beijinho? Nunca beijei uma princesa”, ela diz “você está aqui pra salvar o mundo?”, “sim”, “se você salvar o mundo, eu te dou a porta dos fundos”. E claro, ele salva o mundo, e a cena final é ele correndo de volta pra cela, com uma garrafa de champagne e duas taças, a porta se abre, ela aparece de baby-doll como se fosse um quarto de motel, e na cena final ela nua de costas.

Tanta reclamação por causa dessa cena. Gente. É sexista sim. Mas o filme é uma comédia e, o mais importante pra mim: apesar dela fazer parte da famosa estatística de personagens femininos que são apenas acessórios pro protagonista, ela se mostra uma mulher de caráter. Ela é contra os planos do Samuel Jackson e vai presa por isso. O ministro dela foi a favor, e estava lá no saguão, solto com os outros imorais, esperando o fim do mundo. Ser a favor do extermínio de milhões de pessoas é a grande imoralidade. Querer dar o cu pro mocinho bonitinho não tem nada de imoral.

Olha o comentário do diretor do filme, com o qual concordo:

I was surprised when people are saying to me, “I loved the movie. I think it’s great, but I was offended by that.” I said, “Really? That’s more offensive than exploding heads, massacres in church, swearing, people being cut in half?” I was like, come on. It’s just a joke. It’s not even graphic.

http://moviepilot.com/posts/2015/02/20/kingsman-sexist-at-the-end-director-matthew-vaughn-defends-the-princess-joke

Hoje estava pensando em bons personagens femininos no cinema. Estava difícil achar… mas uma das que se destaca com certeza é Alyssa Jones, do Procura-se Amy. O foco pra variar é na vida dos caras, mas há várias ideias boas pra ela. Ela é lésbica, mas depois revela-se que no colégio ela não era, e passam a surgir historias diversas do que ela já teria feito. No livro de fotos da escola aparece o nome dela com a alcunha “algemas chinesas”, e depois é explicado que ela ganhou o apelido porque uma vez foi estudar na casa de um colega, junto com outro colega, e ela acabou pagando um boquete pra um deles enquanto o outro comia o cu dela. Teve uma outra vez que um cara com quem ela estava saindo filmou os dois transando e depois passou o vídeo no circuito interno da escola. E ela diz “e qualquer outra historia que você tenha ouvido sobre mim, provavelmente é verdade”. “Por que você fez isso?”. “Às vezes por estupidez, outras por achar que era amor, outras só porque eu queria mesmo”.

Holden não tinha problema em pensar que Alyssa era lésbica promíscua, que já tinha saído com metade das mulheres de Nova York. Mas não suporta a ideia de que ela tenha tido experiências sexuais diversas 10 anos antes. Alyssa pergunta “Qual o problema? Só porque eu transei um pouco?”, “Transou um pouco?”, “sim, Holden, é apenas isso: só sexo. A maior parte foi sexo idiota de colégio, pelo amor de Deus. Como se você nunca tivesse transado no colégio”, “Há um mundo de diferença entre típico sexo de colégio, e ter dois caras ao mesmo tempo!”.

E coisas assim, colei o diálogo inteiro mais abaixo.

Alyssa Jones é uma representação de alguém que o Kevin Smith gostou, mas que um dia contou pra ele que já tinha feito ménages, e ele ficou possesso e terminou com ela. Ele se arrependia muito por ter sido tão inseguro e moralista.

Mas o lado bom do filme é que não sei de outro personagem pop (provavelmente tem nos filmes independentes), que seja uma mulher que gosta de sexo, transou muito, e não acha que precisa se desculpar pelo o que fez.

Engraçado que eu estava procurando uma foto de cena do filme, e topei com um blog que diz isso “Ben Affleck vive um autor de HQs baseadas em dois colegas seus, ao tempo em que conhece uma das garotas mais vagabundas que já vi ser retratada no cinema e por ela se apaixona.”

Uma das maiores vagabundas do cinema. Ela não aborda homens casados, não faz sexo em público ou na frente de crianças, não anda com roupas provocantes se esfregando em desconhecidos, não é traíra, não brinca com os sentimentos dos outros, não fica fazendo joguinhos. Mas é a maior vagabunda porque trepou um pouco quando estava no colegial. Só porque não seguiu o formatinho do que é esperado pra “sexo normal”, “sexo típico”.

O que o autor desse blog escreveu representa o pensamento de muitas pessoas, tanto homens como mulheres. Saiu da caixinha do papai-mamãe, é vagaba. Fez boquete é vagaba, deu o cu é vagaba, fez suruba é vagaba. Situações que são da vida íntima da pessoa. Se ela é honesta, se luta pelo bem do mundo, contra desigualdade social, contra corrupção, se faz trabalhos voluntários, se ajuda família e amigos, se dá voz a quem não pode se defender, se é uma mãe dedicada a criar filhos que sejam pessoas inteligentes, responsáveis, se age pela natureza, pela justiça, contra o consumismo, contra o machismo e homofobia, nada disso importa. Porque vivemos nesse mundo de enorme miséria sexual, que nos faz inverter os valores: o que é de cunho público e político, que faz parte das nossas interações com as outras pessoas na qualidade de seres sociais, vira um “cada um faz o que quer da vida, o importante é ser feliz”. E aquilo que é de cunho privado, foro íntimo, o que se faz entre quatro paredes ou em algum lugar com relativa privacidade, isso é o que se torna alvo das análises e críticas das pessoas.

 

 

 

HOLDEN: So it’s true?!

ALYSSA: Yes Holden! In fact, everything you heard or dug up on me was probably true! Yeah, I took on two guys at once! You want to hear some gems you might not have unearthed – I took a twenty six year old guy to my senior prom, and then left halfway through to have sex with him and Gwen Turner in the back of a limo! And the girl who got caught in the shower with Miss Moffit, the gym teacher? That was me! Or how about in college, when I let Shannon Hamilton videotape us having sex – only to find out the next day that he broadcast it on the campus cable station?! They’re all true – those and so many more! Didn’t you know? I’m the queen of urban legend!

HOLDEN: How the hell could you do those things?!

ALYSSA:  Easily! Some of it I did out of stupidity, some of it I did out of what I thought was love, but – good or            bad – they were my choices, and I’m not making apologies for them now – not to you or anyone! And how dare you try to lay a guilt trip on me about it – in public, no less! Who the fuck do you think you are, you judgemental prick?!

HOLDEN How am I supposed to feel about all of this?

ALYSSA  How are you supposed to feel about it? Feel what ever the fuck you want about it! The only thing that really matters is how you feel about me.

HOLDEN I don’t know how I feel about you now.

ALYSSA Why? Because I had some sex?

HOLDEN Some sex?

ALYSSA  Yes, Holden – that’s all it was: some sex! Most of it stupid high school sex, for Christ’s sake! Like you never had sex in high school!

HOLDEN There’s a world of fucking difference between typical high school sex and two guys at once! They fucking used you?

ALYSSA I used them! You don’t think I would’ve let it happen if I hadn’t wanted it to, do you?! I was an experimental girl, for Christ’s sake! Maybe you knew early on that your track was from point ‘a’ to ‘b’ – but unlike you I wasn’t given a fucking map at birth, so I tried it all! That is until we – that’s you and I – got together, and suddenly, I was sated. Can’t you take some fucking comfort in that? You turned out to be all I was ever looking for – the missing piece in the big fucking puzzle!

(tries to calm down)

Look I’m sorry I let you believe that you were the only guy I’d ever been with. I should’ve been more honest.       But it seemed to make you feel special in a way that me telling you over and over again how incredible you are would never get across.

She touches his face. He pulls back. She stares at him, hurt and pissed.

ALYSSA Do you mean to tell me that – while you have zero problem with me sleeping with half the women in New York City – you have some sort of half-assed, mealy-mouthed objection to pubescent antics, that took place almost ten years ago? What the fuck is your problem?!?

Holden’s eyes are downcast. Alyssa waits for a response.

HOLDEN I want us to be something that we can’t.

ALYSSA And what’s that?

HOLDEN (beat) A normal couple.