Avôs: uma das sete maravilhas do mundo

Post escrito no ano passado. Só quem teve bons avós sabe.

No shopping Paulista, tentando comprar uma presilha pro cabelo. Um estande da Papoulla. Aparece uma senhora bem velhinha, dessas de cabelo totalmente branco, devia ter mais de 80 anos, mas toda arrumadinha, de brinco, batom, tailleur cor-de-rosa. Pergunta pra atendente “Que dia é hoje?” “Que dia é hoje?? Sábado!”. Perguntou mais alguma coisa que eu não consegui ouvir, e depois foi embora.

A bestinha da atendente vai reclamar com a outra “Só me faltava essa! Aparece uma maluca aqui pra perguntar que dia é hoje!! Veja se tem cabimento!”.

Quem lê o Batman, ou assistiu ao plágio no Sherlock Holmes com o Robert Downey Jr, sabe que há aqueles momentos em que você consegue pensar, num lapso de segundo, em diversas formas de desarmar-abater-matar alguém. Sem verbalizar mentalmente, mas com uma grande sensação de raiva, senti-pensei em diversas respostas pra bestinha que iam de xingar a explicar que qualquer um pode não saber que dia é hoje, ou sobre a indulgência com os idosos, a paciência dos vendedores, se ela teve mãe ou avô ou se nasceu de chocadeira, pelo menos poderia aprender nos filmes e nos livros que os mais velhos merecem respeito.

Sem olhar pra ela. Sem nem saber o rosto, eu nem saberia reconhecer, olho pouco pra bípedes sem plumas. Só ouvi a voz de gente besta e senti a indignação. Mas concluí que não valia a pena, só fui embora pensando que não queria comprar nada daquela loja.

Gente velha faz muita bobagem, o tempo todo. Atrapalham o trânsito, causam filas, tumultuam o supermercado, fazem perguntas idiotas, não entendem as coisas. Tem alguns que se sentem no direito de furar qualquer fila “porque sou velho e não tenho tempo a perder”. Mas fora os metidões, o que eu penso todas as vezes é “podia ser minha vó. Podia ser meu vô”.

Você não conviveu com avós? Ou seus avós não eram legais? Perdeu uma das sete maravilhas do mundo. Assista aos filmes com avós legais, e sonhe. Eles são todas essas imagens boas e muito mais.

Meu avô, por exemplo, tinha uma franqueza de matar. Os dois, aliás. Meu avô era capaz de dizer pra mãe do recém-nascido “disseram que o bebê era feinho, mas não é tão feio assim”. Quando alguém tentava explicar pro meu avô que ele não podia falar tudo que pensava, ele dizia “eu tenho mais de xx anos. Tudo que vem da minha boca é santo”. Tem uma foto ótima dele numa festa de fim de ano usando uma máscara de mergulhador e simulando que estava andando com pés de pato. Deve estar com minha irmã, preciso resgatar.

Minha vó era a criatura mais doce e engraçada que podia existir. Uma paz, uma bondade, misturados com um gosto por coisas caras (mas não as bestas, as de valor), argúcia, sensibilidade. Olha eu tentando ir pra Maresias no Carnaval: acho que tinha uns 20 anos. Eu e uma amiga da mesma idade, mais dois amigos de uns 26, 27 anos, e meus pais tentando falar não, não e não, sem ter coragem de dizer “não quero deixar porque vocês vão lá fazer sexo grupal”. Minha mãe: “Quero saber como é que vocês vão dormir, onde vocês vão dormir” (é impressionante a fixação que as pessoas têm por onde dormir, como se de dia ninguém fizesse nada). Antes de eu responder, minha vó responde “ai, vão dormir todos juntinhos, só você não sabe”. Eu rio até hoje, que saudade dela.

Velhos causam transtornos, velhos atrapalham, velhos demoram pra entender as coisas, e esquecem as coisas, e são desajeitados. Mas lembre sempre que podia ser o seu avô, ou os meus avôs, e que eu daria uma voadora na sua cara se te visse maltratando algum deles.