Assédio moral, agressividade, gente que não deixa barato, quando vale a pena fazer o circo, nunca deixe alguém te falar que você é melindrosa ou que sua reclamação é mi-mi-mi, e quando você descobre que você estava errada

Ontem passei por uma situação que envolve tantos temas que nem sei por onde começar.

 

Os fatos

Num grupo de WhatsApp de gente que eram meus amigos e colegas em Limeira, 20 anos atrás, um dos caras passou a mandar muitos quadrinhos, vídeos, piadinhas, panfletagem contra PT, Lula, Dilma. Pessoas com quem eu andei falando, todos diziam como aquilo estava chato. Pensávamos até em criar outro grupo. Daí eu decidi que era errado criar outro grupo e pedi, da forma mais delicada que consegui escrever, pro cara parar.

Ontem nesse grupo escrevi um texto tirando sarro com o fato de que eu faço treinamento funcional quase 1x por semana (porque falto muito, viajo, saio do pique), puxando assunto sobre atividade física com outras pessoas. Esse cara pra quem eu havia pedido pra parar com os repasses participou da conversa, mandou um áudio dizendo que realmente era ridículo essa história de quase 1x por semana (mas não era um ridículo de amigo, eu senti que tinha um outro tom, mas não era nada grave), e no meio do áudio me chamou de “tia”. Eu comecei a reclamar do “tia” – que é tão horrível quanto “senhora”, pergunte pra qualquer mulher, só aceito ser chamada de tia quando estou na companhia dos filhos dos meus amigos, de parentes 🙂

E nessa hora aconteceram duas coincidências infelizes. Meu celular tocou, era uma amiga pra quem eu tinha ligado antes e com quem não falo há meses. E um amigo tirou o tal cara do grupo, pra zoar. Falou que o fulano foi mal educado comigo e por isso ficaria 2h fora do grupo.

O fulano achou que eu tinha tirado ele do grupo e mandou um áudio quase me xingando, e reclamando de eu ter pedido pra ele parar com os repasses, dizendo que pras outras eu não falava nada. Ele estava mandando um monte, depois que ele parou, uma menina mandou um quadrinho tirando sarro de São Paulino num dia, na semana seguinte mandou a montagem do Papa com o Trump. Ele falou que pra ela eu não falei nada, e que eu usava dois pesos e duas medidas.

 

O circo

Eu podia ter só deixado passar, mas resolvi subir nas tamancas e reclamar dele falar que eu era desonesta e injusta – que é o significado de dois pesos e duas medidas.

Resumindo várias idas e vindas, falei que éramos um grupo de amigos, que a gente devia ser sempre franco uns com os outros, que se ele tinha ficado chateado com o que eu falei e achou que eu estava sendo injusta devia ter me falado, que era uma questão da alta frequência com que ele estava mandando os repasses, que eu poderia fazer um gráfico pra mostrar pra ele. Que a gente tinha que falar e se resolver, que qualquer coisa que nos chateia tem que ser falada na hora senão envenena, que ele devia ter me falado e que eu estava falando agora pra ele que tinha ficado chateada por ele duvidar da minha honra e caráter, por dizer que eu usava dois pesos e duas medidas. Que ele podia me mandar tomar no cu, eu mandaria ele se foder, e pronto, estava resolvido.

Ele me falou que eu era melindrosa, que era um saco ter que ficar pensando em tudo que você vai falar, que estava de saco cheio de mi-mi-mi, que nem com o filho de 17 anos ele tinha que ter conversas desse tipo, e escreveu coisas do tipo “ô loco, até conversa sobre gráfico saiu” – que é uma das técnicas retóricas sujas. Você está discutindo com alguém, na presença de um grupo, e em vez de conversar com a pessoa você faz comentários pro grupo, debochando de algo que a pessoa falou. O que eu também reclamei, falei “não, fulano, fale direto comigo, não escreva com deboche sobre algo que eu falei, fale direto comigo, aqui”.

 

O discurso cala-a-boca e o abandono

“Estou de saco cheio desse papo, você é cheia de melindres, isso é tudo mi-mi-mi, que droga ter que ficar falando disso” – vocês sabem o que é isso, não sabem? É o típico discurso contra minorias. É frequentemente usado contra manifestações feministas, e qualquer outra minoria.

Veja, não era uma situação de luta feminista. Era só uma situação de “o que te ofendeu não tem a menor importância e você é uma fresca por estar reclamando disso”.

Senti uma fraçãozinha do que sentem as pessoas que passam por assédio moral ou sexual, ou situações de racismo, homofobia, e muitas vezes não têm pra quem recorrer, ninguém acredita, ninguém se importa.

Os meus colegas que tinham me falando o quanto o fulano estava chato, sabe o que eles fizeram? Nada. Tinha pelo menos quatro pessoas que eu sabia que também estavam descontentes com os repasses do fulano, mas ninguém quis falar isso pra ele, nem em público, nem em particular (conversei no privativo com um deles).

Por coincidência, ou não, mais tarde, depois de já ter acabado a discussão, a Ju me mandou um áudio com um pequeno comentário sobre uma situação que ela viu, contei pra ela por cima do que tinha acontecido comigo, e chorei. Ela falou que a gente vive mesmo num mundo de merda e que eu tinha todo o direito de chorar.

À noite quando o Cris chegou contei pra ele durante o jantar, ele ouviu tudo, me falou coisas boas do tipo “você é assim mesmo… deixar barato não é com você. Outras pessoas poderiam só ter deixado pra lá, mas você não é assim, você é espinhuda mesmo, muita gente nem desconfia”.

 

Promoção de valores, sobre quando não brigar, e consequências do circo

Eu acredito que pra um grupo de amigos a gente devia falar de qualquer coisa que nos chateia, e que só vale a pena se relacionar voluntariamente com um grupo de pessoas se for pra ser com franqueza e honestidade. Expressei isso.

Sou contra o discurso de “vamos deixar isso de lado, deixa pra lá” – enquanto não tiver havido uma discussão intensa. Claro que sou contra ficar prolongando por dias, mas acho errado evitar qualquer confronto.

A maioria das pessoas teme o confronto, acham que é sempre errado só porque é tenso ou desagradável na hora. Mas não é verdade. Se você quer se relacionar de verdade com as pessoas, a coisa mais errada que tem é engolir sapo e ir envenenando a alma. O confronto serve pra não criar o veneno. Ou você resolve, ou você rompe, mas nada de relacionamentos que são só uma fachada.

 

Quando eu não discuto? Com a minha sogra e meu cunhado, por exemplo. Porque não tenho nenhuma esperança de que vá mudar as opiniões deles, e porque acho que isso traria um grau desnecessário de tensões nos nossos encontros. É muito melhor eles acharem que sou burra, que não tenho o que falar, que não tenho assunto, do que eu expressar o que penso de verdade e queimar o filme pra sempre.

Ou seja, com parentes, colegas de trabalho, qualquer um que você tem que conviver, não que você está escolhendo conviver, acho que o certo é assumir a postura garantida do não-confronto, da máscara social.

 

Uma das consequências do circo: uma das pessoas do grupo, que estava bem calada até então, e que não vai poder participar do encontro em junho, quer me rever e almoçar comigo.

O circo geralmente tem um grande desgaste com seu oponente, mas também é o momento pra você expressar seus valores, seus pensamentos, e atrair gente que sintoniza com você.

É cansativo e estressante, mas todos os circos de que participei até agora renderam.

 

Descobrir que você estava errada e ter que pedir desculpas

Ontem o cerne das minhas reclamações foi o fulano ter me falado que eu usava dois pesos e duas medidas. Fiquei ofendida e reclamei claramente disso. Ele não me falou “eu só envio 1, 2, no máximo 3 repasses por dia, tem dias que não envio”, ele falou “que saco ter que discutir isso, que saco ter que pensar no que vou falar, você é cheia de melindres, isso é mi-mi-mi”.

Hoje acordei cedo como sempre e descobri que o fulano estava certo em se sentir injustiçado, e que eu estava errada em dizer que ele tinha um alta frequência de envios de repasses.

Juro.

Que cacete, não?

Fiz uma tabela com os dias e as quantidades de repasses dele, e descobri que ele estava enviando cada vez menos, e que eu não tinha direito de ter pedido pra ele parar de mandar, porque o fato é que ele já estava mandando numa quantidade razoável. Fiquei uns minutos olhando pra tabela, pensando no que eu ia fazer, e decidi pedir perdão público no grupo. Minha dúvida sobre o que fazer não era receio de assumir o erro, era considerações de que muita gente acha que esse assunto já deu, nem devia ter começado, e que vão achar errado eu voltar a falar dele. Mas eu errei. Briguei com alguém partindo de uma premissa errada. Achei que tinha que pedir desculpas públicas.

Colei abaixo o texto que mandei pro grupo.

 

E se você chegou até aqui no texto, obrigada. Quis compartilhar algo tão comprido porque achei que era um dos momentos pra falar de teoria na prática.

 

Continuando a conversa sobre agressividade

Sobre agressividade, A., acho que nunca vou deixar de ser agressiva, espinhuda. Reconheço que há formas de falar as coisas, que há momentos em que é melhor calar e parecer burra do que criar polêmica, e há outros em que eu podia deixar a molecagem de lado.

Acho que serei sempre agressiva, porque o fato é que franqueza e verdade são coisas agressivas. Mesmo o tal episódio de Girls, com a garota borderline, ela era agressiva com todos do grupo, com sarcasmo e deboches, mas o que a fez ser duramente repreendida pelo moderador do grupo foi porque ela falou que a outra garota do grupo era lésbica e ainda não tinha se descoberto. Isso fez a garota lésbica jogar café na borderline e sair pisando duro. Mas era verdade, e depois a borderline prova isso transando com a outra e sendo pega pela administração.

Outra verdade doída? “Seu filho está com problemas de desenvolvimento, você devia procurar ajuda, dar uma atenção especial pra ele, mudar sua rotina, ser capaz de fazer coisas que você não gosta de fazer pra fazer coisas que uma criança precisa fazer, como aprender a nadar, aprender a andar de bicicleta”.

É o tipo de verdade que faz as pessoas mandarem você calar a boca, nunca mais fale do meu filho.

A molecagem é a provocação, não é a pura verdade, é quando falo coisas que eu sei que vão ofender. 3×4-Sensação. O Cris, e o Universo, estão certos em dizer que o Sensação era desnecessário. Há formas muito mais neutras de descrever esse tipo de foto, mas eu escolhi a molecagem só pela diversão, e acho que esse é o tipo de coisa que eu devia evitar.

Essa foi uma jornada bem interessante pra refletir sobre um tema. Começou com um seriado visto em avião, que rendeu um postzinho, que rendeu umas boas conversas com leitora do blog, e culmina aqui. Com essa porra de orgulho de ser espinhuda, não ter medo de confronto, expressar meus valores, ser cabeça dura mas não a ponto de não reconhecer que errei e pedir desculpas públicas, não a ponto de reconhecer que posso evitar a molecagem.

 

Obrigada pela conversa, A.. Escreva sempre.

 

=== texto pro grupo de Limeira

Queria pedir desculpas pro …. …, eu agi errado em te pedir pra parar com os repasses. Não sei como foi com você, mas eu fiquei muito chateada e incomodada com nossa discussão de ontem, não tanto com você, e mais por eu ter protagonizado um tumulto num grupo de amigos.

Hoje eu fiz uma contagem, que é a base de um gráfico. Meu marido é economista, eu trabalhei numa consultoria econômica. Fazer um gráfico não é uma expressão como “deixa eu desenhar pra você”, é um jeito de mostrar dados, e não há retórica, são apenas dados.

Sabe o que eu descobri?

Que você tem razão em se sentir injustiçado. Você passou um período de uma semana com uma frequência mais alta de repasses, e nas duas semanas seguintes passou a enviar bem menos, em alguns dias não enviou, em outros foram 1, 2, no máximo 3. Num período de 22 dias você enviou uns 50 e poucos, o que dá uma média de menos de 3 por dia. Mas se alguém me perguntasse, eu diria que você mandava pelo menos 5 por dia, que é a média da primeira semana.

Eu parei de prestar atenção no grupo da …, que parecia ter virado um grupo que só tinha os seus repasses, e com temas que eu não gosto. Principalmente política. Eu panfletei pelo impeachment, mas não gosto de ver as polarizações de coxinha x mortadela e a demonização do PT e do Lula. Pra mim a nossa luta é contra corrupção, não contra um partido ou algumas figuras.

Sei de outras pessoas que estavam incomodadas com as postagens. A gente tinha até falado de criar ou outro grupo, um subgrupo de gente que estava disposta a se reunir. Mas depois achei que seria errado essa história de subgrupo, que era preciso ter inclusão de todo mundo.

Nessa tentativa de não excluir ninguém, eu errei. Deixei meu emocional, o fato de eu não gostar dos seus repasses, falar mais alto do que os fatos, que deveria ser fazer uma contagem desde o começo, que mostraria que você estava enviando cada vez menos.

Você tem razão em se sentir injustiçado. Quando eu te pedi pra não mandar mais repasses, você não era mais uma pessoa que mandava um monte de repasses por dia, e eu falei como se fosse, só porque eu não gosto do conteúdo. Isso foi muito errado da minha parte.

Por favor, sinta-se livre pra enviar o que quiser, na questão de quantidade não vejo nenhum problema em mandar até uns 3 por dia, que foi o máximo que você estava fazendo. Na questão do conteúdo, como não é nada obsceno ou discurso de ódio não tem motivo pra eu dizer que não pode, as pessoas são livres pra expressar sua opinião.

Peço desculpas de coração.

Pode enviar os quadrinhos que quiser, e juro que nunca mais vou reclamar deles.

Um abraço,

Claudia