Antídoto contra caixa de comentários

Uma pequena história, mas é história real, então quando você estiver lendo ou ouvindo aqueles comentários que dá vontade de cortar os pulsos (os seus, ou o do outro), talvez lembrar dessa história te ajude.

No Mambo da Rua Deputado Lacerda Franco (Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo). A empacotadora e a caixa conversavam enquanto passavam minhas compras. A empacotadora era uma moça bonita de cabelo roxo, olhos com delineador puxado pra gatinho, batom escuro, mascando chiclete, do tipo que te chama de gata (quando perguntei se ia precisar de mais saquinho, ela falou “com certeza, gata”). A caixa era uma moça negra, cabelo curto sem nenhum tipo de alisamento, um pouco de espinhas, voz suave, jeito manso. Elas conversavam sobre o final de namoro da caixa.

“Terminou mesmo?”

“Acho que terminou. Ele me mandou mensagem de texto hoje, mas acho que não dá mais não”

“Ele era difícil, não?”

“Ele implicava muito comigo por causa dessa história de roupa.”

“É, você tem um corpo bonito, chama atenção”

(olhei discretamente de novo pra caixa, não sei dar uma opinião, ela estava com um abrigo de frio, largo. Mas achei bem simpático da parte da empacotadora falar isso).

“Teve uma vez que a gente ia sair, coloquei um vestido, ele me viu e falou ‘vai trocar esse vestido agora’. Eu fui. E troquei por um pior, coloquei um que me deixava quase pelada. Falei pra ele, “Tom, você me conheceu assim, do jeito que eu sou, porque eu tenho que mudar?’ ”

Eu já estava sorrindo, sem disfarçar. Não lembro o comentário da empacotadora, mas eu não me contive e entrei na conversa:

“Fez bem. Não deixe nenhum homem mandar em você”

“É. Que bestagem, não?”

Que bestagem.

 

Então, amigos, todas as vezes que a gente começar a morrer de depressão por lembrar de bolsonaros, machistas, xenófobos e outros cretinos no geral, lembrem que num supermercado qualquer uma caixa ouviu “vai trocar esse vestido”, e foi trocar por um mais decotado ainda. E depois terminou o namoro.

beijos de luz no coração de todos.