Amor pra compartilhar

“As pessoas acham que não tem nada de errado em falar que detestam ou odeiam alguém ou alguma coisa. Mas têm vergonha de falar gosto de você, senti saudade, você é importante pra mim”

“É uma loucura, não? A gente fala com orgulho daquilo que deveríamos ter vergonha, e temos vergonha do que a gente devia se orgulhar”

“Mas nós não precisamos ser assim”

“Não, não precisamos!”

“Não seremos assim!”

“Não. A partir de hoje, a gente vai se esforçar pra falar mais que gosta ou sentiu saudade de alguém”

“sim, vamos!”

 

Eu tinha 13 anos. Uns três anos depois eu já era o tipo de gente capaz de chamar na minha casa o menino por quem eu era apaixonada, que eu sabia que não gostava de mim, pra declarar meu amor e me libertar “eu sei que você não gosta de mim, que você gosta da fulana. Mas eu preciso ouvir você falar isso, preciso ouvir da sua boca, pra parar de pegar qualquer coisa que você fala e achar que é um sinal de que pode dar certo entre a gente”.

O outro garoto por quem eu era apaixonada recebeu um envelope no último dia de aula do terceiro colegial, com um desenho do rosto dele e uma carta contando o quanto ele era importante pra mim. Eu recebi um buquê de rosas vermelhas umas semanas depois, no meu aniversário, mas achei que não tinha o que fazer, cada um estava indo pra uma cidade.

A maioria dos garotos de quem eu gostei souberam disso.

Pra alguns amigos faço declarações frequentes de saudade e vamos nos ver, ainda que eu tenha ligado o foda-se pro vamos nos ver porque cansei de ser sempre eu a convidar.

Coincidência ou não, uns outros amigos que não vejo com frequência, pra quem que não costumo fazer declarações, mas de que gosto muito, deram notícias nesses dias. Gente com que eu não falava há meses, ou mais de anos. Um dos telefonemas se encerrou até com um “obrigado, sabe que eu amo você”, o amor de amigos, a o que eu posso responder “eu também te amo”.

Um desses amigos com quem eu não falava há meses, meu semideus das frivolidades internéticas, um ateu querido com quem posso conversar sobre qualquer coisa, perguntar qualquer coisa, deu sinal de vida hoje também, pra perguntar como estão as coisas, dizer que está com saudade (e revolucionar minha vida, por contar do WhatsApp que funciona no computador). Falei um pouco dos pensamentos sobre o amor, e me surpreendi porque nem precisei explicar, ele concordou na hora que o mundo tem precisado de muito amor. E nem quis jogar na minha cara que faz anos que ele tem falado do Estado Islâmico, e eu não dava bola, perguntava por que eles eram diferentes de outras atrocidades diversas, e só hoje sei a resposta. Porque eles são muito organizados, capazes de canalizar a raiva e a frustração de quem se sente excluído e injustiçado, e isso lhes dá um poder que parece infinito.

Hoje numa caixa de conversa de Facebook, falando de assuntos diversos, quis me despedir com “Beijos e amor”, e recebi mensagens de amor, tanto de zoeira, como de gente que entende como o mundo está precisando tanto tanto tanto de amor.

Talvez seja mais ou menos como aconteceu depois do 11 de setembro. Em que se popularizou o “Love you”, que o Franzen relata com horror, como é horrível ouvir essa intimidade, que um “vai se foder seu filho da puta” não é invasivo como ter que ouvir um “amo você”, de uma conversa alheia, e eu concordo.

O amor devia ser algo muito íntimo e pessoal. Entenda, não é contraditório com a ideia de que deveríamos falar mais vezes, mas sim que não deveria ser banalizado, falado no tom de “tchau, beijo”, porque um beijo não é o mesmo que amor.

Mas talvez a gente devesse mesmo passar a falar “amo você”, com a frequência com que mandamos beijos.

Não por banalizar o amor.

Mas só porque o mundo está precisando muito de amor. E momentos como esse, pós os eventos de Paris, ou o 11 de setembro, é mais fácil lembrar o quanto a vida é breve, frágil, preciosa. O quanto a civilização está sempre por um fio. De vez em quando leio o Sakamoto (que já foi colega de classe, que estranho pensar nisso), e concordo com várias coisas. Inclusive a ideia de que os eventos de Paris não são o surpreendente, o surpreendente é que a gente não tenha se explodido e exterminado uns aos outros há mais tempo. Já tentamos várias vezes. Esta é mais uma.

Entre as diversas ações que podemos fazer, para tentar evitar que a gente se acabe numa hecatombe nuclear ou de guerras químicas, tem uma muito simples. Não é fácil pra quem não tem prática, mas é muito simples: falar mais vezes “sabe que eu amo você”, “senti saudades”, “queria muito que você estivesse aqui”, “penso sempre em você” — pra pessoas que não são o amor da nossa vida, o amor romântico, e sim amigos especiais, parentes especiais… talvez sejam nossas pequenas gotas de luz, em formato de coração, nesse mundo em que o futuro parece tão sombrio.