Ameaçada de tortura: “vou te levar pra um happy hour com o cidadão médio”

Tenho uma amiga de quem gosto tanto a ponto de conversar sobre política com ela, mesmo a gente tendo opiniões diferentes. Não converso com ninguém que chama o impeachment de golpe — porque não vejo pessoas dispostas a conversar, e sim a provar que estou errada, mas com ela é diferente. Com ela tem diálogo.

Estávamos numa das nossas conversas sobre política, eu explicando como pra mim é melhor a situação de agora do que a de cinco anos atrás, minha esperança de que a cultura do “tudo bem ser corrupto” sofreu uma aceleração de mudança com as discussões dos últimos anos.

Contei que não converso com muita gente, mas que me torturo semanalmente passeando pelas caixas de comentários em portais, pra ter uma ideia do pensamento médio geral.

Quando se fala de caixa de comentários de portal, a primeira reação das pessoas é dizer que ela não vale, que é sacanagem usar como parâmetro, que é o tipo de coisa que diminui sua alegria de viver.  Primeiro ela começou a falar que não valia, depois teve a ideia de dizer que eu não tenho ideia do que é ouvir esses comentários ao vivo, e que faria um happy hour pra me ouvir as pessoas falando essas atrocidades ao vivo.

“Por que eu iria pra um evento assim?’

“Pelo meu prazer. Só pra contemplar um desejo sadomasoquista”.

É claro que eu não vou, mas estávamos rindo da minha bolha privilegiada. De poder ficar sozinha a maior parte do tempo, ou então com o Cris e o Daniel, ou com amigos bem queridos, e quando é pra conversar com estranhos, ainda topo com gente como o casal no bar em São Francisco que quis dar dicas de bares, pagar bebida, e foi compreensivo com a minha história sobre ter chorado na saída do Death Valley, por comparar Brasil x EUA.

Ser raidado no Ark não conta, já que é algo que eu faço porque quero.

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Hoje tive mais um pequeno passeio pela caixa de comentários, e como sempre dá vontade de vomitar. Um texto de uma colunista do uol falando do termo femininja em oposição ao feminazi (e esses dias eu andava pensando em assumir o feminazi, sem me importar com a ofensa, mas pra assumir o ativismo).

Os comentários são desse tipo:

“kkk, falou ae, “feminona”… essas alienadas viu, vai fazer alarde onde as mulheres são realmente oprimidas, em países democráticos não vale… há dezenas de países árabes opressores pra vocês babarem de raiva, já comprou a passagem?”

“Isso é jornalismo ????? Tá fácil mesmo … Rapaiz … Não é questão de discordar de opinião é sim de conteúdo , texto , fraco , sem argumentação , nexo , ou objetivação argumentativa. Um vocabulário que varia do formal ao coloquial raso por simples falta de domínio da língua. Triste muito triste ver um portal de conteúdo tão grande postar alho tão s m conteúdo assim.”

“Quando vão mandar essa Lia Bock passar no RH??? Tá na hora de dispensar essa feminista…”

“Pobre menina incompreendida… Você está precisando de um abraço… Quer que eu te abrace? Não né? Sou homem… e pelo visto você detesta homens… pobre menina…”

O cidadão médio. Quando eu iria pra um happy hour ouvir esse tipo de coisa? Só se perdesse feio uma aposta bem alta.

https://liabock.blogosfera.uol.com.br/2017/06/23/feminazi-nao-pode-chamar-de-femininja/