A vitória de Trump

Decidi ir ler notícias 0h30.. Vi a rodinha do NY Times dar a vitória pro Trump como 55%, depois 58, 59, 61, 66… e daí parei de ficar dando refresh na página.

Não pesquisei muito, mas pra mim o artigo que Michael Moore publicou em (outubro, acho) explica bem a situação.

Original: http://michaelmoore.com/trumpwillwin/

Traduzido: http://www.brasilpost.com.br/michael-moore/donald-trump_b_11217240.html

Ele lista cinco motivos, e ele se apoiam e completam o quadro que deu no que deu, mas a meu ver o primeiro é o mais forte, que é mais ou menos isso:

“Trump vai bater em Clinton neste tema, e também no tema da Parceria Trans-Pacífica (TPP) e outras políticas comerciais que ferraram as populações desses quatro Estados. Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan. Quando ele ameaçou a Apple da mesma maneira, dizendo que vai forçar a empresa a parar de produzir seus iPhones na China e trazer as fábricas para solo americano, os corações se derreteram, e Trump saiu de cena com uma vitória que deveria ser de John Kasich, governador do vizinho Estado de Ohio.”

Muita gente votou em Trump apostando nessas promessas. De que ele será capaz de acabar com tudo que a globalização tem de ruim. Prometeu dar empregos pros americanos, proibir as empresas de montarem linhas de produção na China, no México… e o engraçado é que as pessoas que acreditam nele não pensam que teriam que ganhar salários de mexicanos e chineses, não salário de americanos.

Trump promete tornar a América grande de novo. Uma prosperidade que aconteceu em condições que hoje não existem mais. Nos países desenvolvidos há cada vez menos espaço pra mão-de-obra não qualificada. Ou é automatizado, ou é muito mais barato na China, na Índia, no México.

Quem vai comprar um produto só porque é 100% feito em solo americano, quando tem um similar ou melhor pela metade do preço? O que ele vai fazer? Vai subsidiar essas empresas? Vai dar isenção de impostos? Vai reconhecer que é impossível?

Você olha o mapa da votação e fica com aquela sensação de ser tudo igual. O meio-oeste americano é como se fosse o Nordeste brasileiro. E com volume suficiente pra definir uma eleição.

Como nas eleições no Brasil, quando você vê resultados tão consistentes com renda, educação, tanto no nível de Estados como em análise de zonas dentro de uma cidade (vide eleição no Rio de Janeiro, por exemplo), você fica pensando nos vários países que existem dentro de um país, nas várias tribos e realidades dentro de uma cidade.

Quem é o melhor político? Aquele que promete melhorar a sua vida.

Foi isso que Trump conseguiu. Reunir eleitores que acreditam que ele fará mudanças capazes de melhorar a vida delas. E se isso ferrar a vida de uns mexicanos, muçulmanos, gays, vadias que não souberam manter as pernas fechadas e engravidaram, algumas questões idiotas sobre meio ambiente que só vão ter repercussão mais grave daqui a uns anos ou umas décadas, mas que por enquanto não me afetam tanto, se tomar decisões que vão desestabilizar ou até quebrar alguns países, se é o começo de negócios escusos com a Rússia e um ótimo incentivo pro crescimento militar da China e do Estado Islâmico. Bom, e daí?

— x ——-atualização 16h10 —— x ——-

Quanto a o que significa a vitória de Trump, achei bom este editorial do The Guardian

https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/09/the-guardian-view-on-president-elect-donald-trump-a-dark-day-for-the-world

Ele compara a vitória de Trump a Brexit (as mesmas raízes de insatisfação da tal classe trabalhadora de mão-de-obra não qualificada, e muitas vezes desempregada, e também das pessoas totalmente insatisfeitas com a política atual e que querem qualquer coisa diferente, mesmo que esse qualquer coisa seja realmente qualquer coisa), e fala de alguns dos medos imediatos:

  • mudanças na Suprema Corte para um perfil mais conservador, com retrocesso nas questões de raça, gênero, direitos sexuais;
  • o fato de nas campanhas ele ter insultado latinos, negros, muçulmanos, judeus, mulheres, e teve sua vitória comemorada por todos os racistas, xenofóbicos, misóginos, machistas, etc do planeta (mas não os misantropos. Esta aqui por exemplo está desnorteada, não consigo fazer nada, nem postar no Inaturalist, nem desenhar, nem ver fotos, nem escrever o livro de dicas para viajantes iniciantes, nada. Só essa  sensação de que na batalha pela Terra Média, esse é realmente um dia de derrota terrível). Trump demonstrou toda essa postura de desprezo pelas minorias. E quem gostou disso agora vai cobrar ações.
  • Trump prometeu coisas que parecem impossíveis, economicamente, e o tal grupo de desempregados ou mal remunerados foi ao delírio.  Mas como ele vai fazer isso? E como as pessoas vão reagir quando descobrirem que não é possível?
  • o quarto medo é num aspecto global. Com todos os erros que cometeu, os Estados Unidos ainda mantinham uma certa postura estável e previsível de ações. Mas com Trump, “sua capacidade militar, diplomática, de segurança, em questões ambientais e de políticas de comércio, tudo parece ter a capacidade de mudar o mundo pra pior. Os americanos fizeram algo muito perigoso nesta semana. Por causa dessa ação, todas as pessoas enfrentam uma perspectiva de futuro mais sombrio, com grandes incertezas e receios pelo o que virá”.

—- eu tinha colado o quadrinho que viralizou do “Dear Americans … What could possibly go wrong, Good luck”. Mas depois de passar um bom tempo lendo editoriais e comentários na internet, vi que não é assim que me sinto. Não desejo Good luck. Vou explicar no próximo post.