A tristeza pela morte de Domingos Montagner e minha reverência à genialidade da assessoria de imprensa

Sou daquelas pessoas que alterna trabalho com espiadas por portais de notícias. Causa dispersão, eu sei, e quando quero mesmo concentrar não abro nenhuma janela. Mas se não preciso de foco, costumo olhar notícias e caixas de comentários, pensar nos argumentos, lógica, sentido.

Quando apareceu a notícia de que Domingos Montagner tinha sumido no rio, pensei “vixi, morreu”. E foi triste. O que eu sabia dele? Fotos na internet, uns pedacinhos de Cordel Encantando que assisti com a minha mãe quando ia pra Limeira, nada sobre a vida pessoal, mas a tristeza era e é como se fosse alguém conhecido. Provavelmente por uma mistura de fatores: ator global, bonitão, jeito de gente boa. Acho que em Cordel Encantando ele fazia papel de um cara com muito caráter, e imagino que nas outras novelas também, não sei se chegou a fazer papel de vilão. No nosso imaginário essa é a imagem que fica dele, e fora isso aparecem as notícias de que IRL ele também era excelente pessoa.

Há fatores pessoais. Ele me lembra um amigo da consultoria. Não, desculpe, não conheço alguém que é parecido fisicamente com ele, é só algo do jeito. Porque esse amigo é do Nordeste, capaz de desfilar pelos corredores com chapéu de cangaceiro, e é uma força moral, reconhecido por todos como uma pessoa íntegra, rigorosa, exigente, forte, capaz de dar broncas e falar de assuntos difíceis com qualquer um. E, ao mesmo tempo, doce, tão doce, de ser capaz de fazer discurso lindo no casamento de um outro economista, amigo há anos.

Também há esse novo love, a Caatinga. Penso em Domingos Montagner naquele cenário da Caatinga como um jagunço sangue-bom, penso nesse meu amigo da consultoria, e dá vontade de chorar.

Hoje apareceu uma notícia com uma declaração do pai da Camila Pitanga, falando da nobreza de Domingos, que ele salvou a filha dele. Pensei “ué, mas a notícia de ontem é que ela tinha tentando puxá-lo, segurando-o pela mão duas vezes, e não conseguiu”. E está lá a declaração que faz sentido, que em geral as duas pessoas morrem afogadas porque a pessoa apavora e puxa a outra pro fundo, mas que Domingos Montagner foi nobre, que mesmo diante da morte ele conseguiu raciocinar e não se agarrar a Camila Pitanga, ou então os dois teriam morrido.

É bonito, não? Combina perfeitamente com a imagem dele, e é o último grande ato de um homem que pra mim e provavelmente pros outros tem essa imagem de herói. E não salvou qualquer um, salvou uma mulher linda e que também tem essa imagem de gente boa, que é a Camila Pitanga.

Será que é verdade? “De acordo com Dória, Domingos entrou em desespero ao ser puxado pela correnteza. A atriz Camila Pitanga, que estava com ele, ainda tentou segurar o ator, mas não conseguiu. “Ela relatou que ele começou a entrar em estado de pânico. Ele não falava, começou a ficar dispneico (sem ar), e ela tentou ajudar, mas a correnteza muito forte o tomou da mão que ela estava segurando”, disse Dória em entrevista ao Uol.”

Não há como saber se ele escolheu não se agarrar a Camila, ou se ele não tinha mais forças pra se segurar nela. Não é muito melhor acreditar que ele escolheu não se agarrar? Li a declaração do pai da Camila Pitanga e fiquei emocionada, depois fiquei pensando “caramba, que gênio”. Se foi ele que pensou nisso, se alguém mandou ele falar isso pra aliviar a leve saia justa do bombeiro ter contado que Camila declarou que Domingos estava entrando em pânico,  não sei de quem foi a ideia, mas foi genial.

Nunca vamos saber quais foram os últimos pensamentos de Domingos Montagner. Não tem nada de errado em supor que, contrariando o instinto de sobrevivência e o pânico de morrer afogado, ele escolheu salvar Camila Pitanga.

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É uma informação fora do clima, mas tem sua utilidade: se você for pego por uma correnteza, não lute contra ela. Não tente nadar contra, nem na perpendicular que costuma ser o caminho mais curto pra margem. Nade a favor da corrente na diagonal em direção à margem ou à praia, mesmo que você vá sair num ponto bem mais pra baixo.

Se você estiver num rio com muitas pedras, em que é difícil nadar sem bater nelas, vá boiando, com seus pés apontados a favor da corrente (ou seja, de forma que diminua a chance da sua cabeça bater em pedras), seus braços cruzados sobre o peito pra diminuir a chance de fraturar contra as pedras, e provavelmente logo você sairá num trecho mais manso em que será possível nadar.

Se você pegar uma corrente de água que te puxa pra baixo, ou um turbilhão (algo comum em cachoeiras maiores), nunca tente nadar contra o sentido da água. Deixe a água te levar pra baixo e tente atravessar a corrente ou o turbilhão, eles são fortes mas costumam ser estreitos, logo você sai do fluxo e consegue voltar pra superfície.

O mais importante é tentar não entrar em exaustão porque daí vem as câimbras, o pânico. Se você estiver fazendo muita força, está nadando errado. Se você estiver nadando e começar a cansar ou apavorar, tente boiar e recuperar as energias, mesmo que isso te afaste da terra firme. Se você cansa demais ou apavora fica mais difícil controlar a respiração, o que dificulta você flutuar. O pulmão cheio de ar te mantém na superfície,  o pulmão com pouco ar te leva pra baixo. Quando você inspira parece uma quantidade pequena, mas faz muita diferença. É um dos exercícios do curso de mergulho (inspirar e expirar de forma a se manter no lugar, sem subir ou descer), você pode testar em qualquer piscina.

Também já vi um programa que mostrava o que fazer se seu carro cai na água. Enquanto tem ar dentro do carro, se você tenta abrir a porta não consegue porque a água empurra contra. Você tem que esperar o carro encher de água, daí você consegue abrir a porta (com muita facilidade, o programa mostra) e sair.

Claro que devem ser situações horrorosas, que é muito fácil esquecer tudo e entrar em pânico Eu sei bem. No meu primeiro curso de mergulho, numa piscina de 4m de profundidade, meu instrutor tirava nossa máscara de repente – porque você tem que treinar conseguir recolocar, tirar a água de dentro da máscara usando as bolhas do regulador (respirador), é uma situação possível e frequente a máscara inundar porque tem um fio de cabelo deixando entrar gota a gota, ou você esbarrar em algo que a desloca. Mas eu não conseguia recolocar e tirar a água, e várias vezes subi apavorada (só por estar sem a máscara, mas ainda com o regulador), que é tudo que você não pode fazer, porque subir rápido se você estiver fundo é o que dá embolia e te mata.

A água pode ser apavorante, mas se sobrar alguma coisa na cabeça, tentar lembrar de questões físicas, e a luta inglória de brigar contra grandes volumes de água.