A tristeza da vitória

Imagino que não é impressão minha. Pouco rojão ontem. Sem buzinaços. Poucas notícias. Sensação de dia caído. E olha que eu estou em São Paulo, um dos lugares mais anti-Dilma.

Não, meus opositores, não estou nem um pingo arrependida de apoiar o impeachment. E não é por ser orgulhosa, fato que sou, mas não é por isso.

Tem alguém que realmente acha que Cunha e Temer são coisa boa? Ou que existe uma boa alternativa pra presidente? Como achar políticos honestos?

É tudo muito podre, enredado, amarrado, difícil.

Mas pra todo mundo que tem criticado o impeachment, a manipulação da imprensa, a reação da população, é preciso que vocês me respondam: como se luta contra a corrupção?

Três anos atrás eu achava que era assim: lentíssimo trabalho de formiguinha, coisa pra se formar futuras gerações, a esperança de que se a gente estivesse sempre falando do assunto, talvez um dia, daqui a uns 30 anos, uma pessoa numa posição de poder, influenciada por esse burburinho social, conversas com amigos, notícias, vai escolher agir com honestidade em vez de ser corrupta e ganhar milhões. Essa era minha expectativa. E eu achava que ia morrer (espero que lá pelos 80 anos, ou depois), sem ver nada grande acontecendo no Brasil.

Mas então as manifestações começaram.

E putaqueopariu, como eu odeio todo mundo que me fala “ah, mas é tudo muito disperso, bagunçado, sem organização, as pessoas nem sabem pelo o que estão protestando, dizem que o gigante acordou mas é só baderna”.

Como eu odeio. E como tenho sido uma pessoa boa em várias vezes deixar passar, ouvir em silêncio essas declarações de criaturas que parecem caídas de um caminhão de pepino.

Você quer ordem, coerência, organização, persistência, coesão, disciplina, foco, sabedoria de milhões de pessoas, de uma massa amorfa, que nunca na historia do país foi politizada, muito pelo contrário, sempre se investiu no contrário, e de repente pra surpresa de todo mundo essa massa amorfa ganha um formato de monstrão e sai pras ruas, e você acha que esses milhões de pessoas vão sair marchando e discursando organizada e coerentemente?

Eu ouço esse tipo de argumento inclusive de pessoas bem inteligentes, o que me faz pensar que não é só pura burrice, pura falta de empatia de pensar o que é um agrupamento de pessoas. Acho que tem a ver com uma necessidade de ser cool, de falar “não compactuo com isso, e acho que isso não dá em nada, e quando aparecerem várias derrotas, traições, absurdos – como provavelmente vai acontecer mesmo, vou poder rir de vocês idiotas que acharam que havia esperança de alguma mudança”.

Não argumento com essas pessoas que se sentem bem pregando o pessimismo. Não tenho nada pra dizer pra elas, é aquela situação em que a pessoa está com uma ideia formada. Assim como eu. Não tem como um pessimista me convencer que é tudo em vão e não tem nada pra se fazer, eu sei que não largo minha esperança, então não vou tentar fazer o oposto.

Eu escrevo pelos outros. Por quem ainda não tem certezas e está tentando estruturar pensamentos.

Um dos amigos tinha me falado “acho que isso não dá em nada”, e eu falei, porque vi que não era um discurso pessimista todo montadinho, era um “acho que”. Perguntei “mas você não acha que isso pode ser o começo de algo? Pensa em como a gente estava três anos atrás. O interesse do povo por política deu um salto quântico”. E ele respondeu na hora “é verdade. Pode ser o começo de algo”.

 

Meus queridos leitores com quem tenho compartilhado argumentos e formas de ver a situação. Imagino que vocês também não se sentem maravilhados e vitoriosos. Eu não me sinto.

Mas não deixem ninguém tripudiar em cima de vocês. Eu não vou deixar. Se alguém tentar vir zombar de mim, reafirmo minha crença de que estamos sim num caminho difícil, tortuoso, escuro, sem saber em que confiar, em quem votar, como encontrar políticos honestos e como eles conseguirão sobreviver fora do esquema de corrupção enraizado há séculos na política brasileira.

Ainda assim, mesmo sendo tudo tão difícil, pra mim é mil vezes melhor do que a sensação de três anos atrás, quando parecia que não havia nada pra fazer, e que eu morreria sem ver nada grande acontecendo.

Algo grande está acontecendo. É torto, é torpe, é manipulado, é difícil, é doído, foi capaz de causar rachas e brigas entre família e amigos. Mas o que você esperava de uma luta contra a grande besta? Quem achou que lutar contra a corrupção seria fácil e simples? Quem achou que todos os políticos corruptos seriam engolidos pela terra, todos de uma vez, e que apareceriam umas naves espaciais trazendo os novos políticos limpinhos e competentes?

 

Eu não estou contente. O caminho é difícil, mas entre os caminhos difíceis, é aquele que eu aposto. Sem querer demonizar nada, mas pra mim o PT acabou e não tem como ele continuar numa posição de liderança, seria o reconhecimento de que não há justiça no mundo. O que o PT tem de bom, de pessoas boas, de ideais e valores que valem a pena, as pessoas boas precisam se unir em torno de um outro partido.

Ah, e o PMDB, o PSD, e todos os outros partidos? Que haja luta pra que eles também paguem pelos seus crimes. Mas por favor, não me venha com essa de “só o PT foi punido, então não vale”. Se você não puder punir os crimes de todo mundo de uma vez, é melhor não punir ninguém? Pensa um pouco.

— x —-

Eu não ia escrever sobre isso, mas acho que vou. “Não vai ter golpe”, ou “o impeachment vai trazer profundas cicatrizes pra democracia” é das piores linhas de argumento que eu já vi. Eu não estava panfletando por nada até que ler num WhatsApp de família “Sem democracia você não tem voz. Não vai ter golpe”.

Acho que a Dilma não tinha mais salvação, porque como falei, a meu ver a salvação dela estaria diretamente ligada ao desempenho econômico, e além de um monte de erros, com o crescimento da impopularidade a base de aliados ruiu e ela não conseguia aprovar mais nada, inclusive as medidas difíceis e impopulares, mas que dizem serem essenciais pra gente sair do buraco. No mínimo reequilibrar as contas públicas, acabar com essa loucura de ano após ano se gastar muito mais do que se arrecada. (desculpem a simplificação da explicação, mas acho que dá pra entender).

Eu seria teoricamente a favor do impeachment, mas o que me fez blogar, panfletar em Facebook foi a podreira da argumentação da defesa. Essa linha de tentar dizer que o impeachment vai trazer a ditadura de volta foi muito mau caráter, podre, não aguentei ficar quieta. Volta da ditadura? Como isso vai acontecer? Perguntei pra vários, e ninguém conseguiu me explicar. No máximo coisas como “não vai ser de imediato, mas aos poucos…”, aos poucos como? Pela censura na imprensa e nas redes sociais? Não é o impeachment ou não impeachment que decide isso. É preciso ter um grupo forte e disposto a fazer essas coisas, de forma organizada, metódica e violenta. Como acontece na China, na Coréia do Norte, no Irã. Quem vai fazer isso no Brasil?

Profunda cicatriz na democracia?

Ah, putaqueopariu, eu não devia estar escrevendo tanto palavrão mas realmente sinto um grande putaqueopariu quando vem alguém defender a democracia no Brasil. O Brasil, esse exemplo de democracia. Com esses currais eleitorais. Milhões de pessoas mantidas de propósito na pobreza, na sensação de dever favor pra político. Nós brasileiros somos ignorantes, despolitizados, não exercemos nossos direitos, não temos nenhuma tradição histórica, somos enganados o tempo todo, roubados o tempo todo, manipulados o tempo todo, há mais de 500 anos.

E é nesse país dourado e perfeitinho que as pessoas contra-impeachment se preocupam com as cicatrizes na democracia? A gente tem toneladas de falhas no sistema, tanto do sistema quanto de fator humano, dos governantes, da população, uma estrada longa pra evoluir como grupo social.  Como é que esse pessoal pode ficar falando que o fato das pedaladas não serem um motivo pesado (comparado a invasão de outros países, ou vender segredos do seu país pra outro país), é algo que vai trazer profundas cicatrizes na democracia? Até poderia concordar se fôssemos um sistema muito maduro, perfeito, funcional. Mas na tanguinha que a gente vive, com todos os problemas que enfrentamos, com essa putaria de roubalheira e manipulação nacional pra manter a maior parte da população longe da educação e da cultura, controlados por bancada evangélica, agrícola, longe da possibilidade de evoluir como ser humano? Um país em que a mulher não tem nem o direito de decidir sobre o próprio corpo, porque as crenças religiosas de algumas pessoas são capazes de tornar crime e fazer milhares de mulheres pobres morrerem todos os anos nos abortos clandestinos? Um país que é o quinto do mundo que mais mata mulheres, que está no topo dos países de violência contra homossexuais, que está num dos últimos lugares na avaliação de educação, onde mais de 55 mil pessoas morrem por ano, principalmente homens jovens pobres, onde a corrupção é enraizada e sistêmica, onde a carteirada é normal, esse é o país que você está preocupado com a cicatriz na democracia? Ah, putaqueopariu.

Não é o impeachmento por motivo barely legal que vai trazer profunda cicatriz na nossa democracia. Se liga. Nossa democracia é como se fosse a cara do Deadpool, sem a máscara, e o impeachment no máximo será um arranhãozinho.