A perfeição dos movimentos imperfeitos – manifestações 2016

Desde que eu era adolescente e começava a conversar com meus amigos sobre os problemas do Brasil, sobre a grande merda que é viver num país em que a corrupção é tão antiga e enraizada em todo o sistema, na cultura, nunca na minha vida me senti com tanta esperança e expectativa.

Podem falar o que quiser:

– podem dizer que o Moro é psicopata, golpista, messiânico,

– que os grampos são ilegais, que a Polícia Federal andou exagerando, que as atitudes do Moro e equipe indicam um Estado Policial e regime de exceções, podem falar que é uma vergonha tratar uma presidente dessa forma,

– podem falar que é golpe pedir impeachment pra presidenta eleita legalmente, por aquele sistema à prova de qualquer roubadinha, que é o voto eletrônico,

– podem falar que é bagunça, caos, que não tem quem colocar no lugar da Dilma, que todo mundo rouba, que não pegaram nenhum peixe grande, que os verdadeiros corruptos continuam soltos.

Não importa o que as pessoas critiquem, a verdade é que eu nunca me senti tão feliz no quesito “esperança de que o Brasil tem jeito”.

Eu sei que há muitos erros, riscos, passos errados, eu sei que tem uma chance grande de acontecer o que aconteceu na Itália, em que o movimento perdeu a força e a corrupção simplesmente conseguiu se reinfiltrar de formas que é mais difícil detectar e comprovar. Eu sei.

Mas não importa a baderna e os erros, ou não importa que seja apenas a ponta do iceberg, e sem saber se vamos conseguir ir mais a fundo. Tudo isso é mil vezes melhor do que a sensação de derrota de que não há como combater a corrupção, ou melhor, que é algo pra gente ter expectativa de mudança suave daqui a umas duas gerações se a gente conseguir deixar o tema sempre em discussão.

Por mais pataquada que a PF, Moro e oposição façam, que os manifestantes façam, eu vejo como um salto enorme comparado ao “a gente não tem jeito, o Brasil não tem jeito, talvez daqui a 50 anos, 100 anos, e muito talvez”.

Só de sacudir a apatia e assoprar nos corações das pessoas a ideia de que é possível fazer ativismo de sofá, blogar, sair às ruas, bater panela, buzinar, gritar, carregar faixas, e que tudo isso repercutido milhões de vezes cria uma onda capaz de exigir mudanças… quanto vale ter esperança num campo que você achava que morreria sem ver nada grande acontecendo?

E querem saber de outra coisa sobre os erros e imperfeições do Moro, da Polícia Federal, dos opositores, dos manifestantes, das feministas, e de qualquer um que luta por uma mudança cultural?

Eles são apenas humanos, fazendo algo pela primeira vez. Tenta fazer algo pela primeira vez pra ver se você vai fazer tudo certo. Aliás, talvez você até ache que fez tudo certo, lá pela 10ª tentativa, mas sempre vai ter alguém pra criticar e dizer que você fez algo errado.

O panorama da corrupção na política, ou da violência contra a mulher é tão grave, que todas as mudanças são bem-vindas. Podem errar a mão, exagerar, até seguir algum tempo ou um bom tempo no caminho errado. Mas precisam acontecer, alguma coisa precisa acontecer, porque continuar como está é absolutamente sufocante e desesperador.

Viver com esperança de que o Brasil vai pra frente, porque a gente está lutando contra a besta que realmente destruía todas as nossas chances de ser um país de primeiro mundo.

Quem diria.

 

Dostoievski

da linha do tempo da Tatiana Pongilluppi

 

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