A misantropia liberta

Olá, amiga misantropa,

Eu sou o tipo de gente fresca que usa as palavras com cuidado, e me incomoda ver tantos amigos instantâneos por aí, a facilidade como falam “meu amigo fulano, minha amiga tal”, e pelo o que as pessoas falam eu tenho um grau razoável de certeza que são apenas colegas.

Entretanto… Quando recebo e-mails de leitores misantropos, que me escrevem pra agradecer, desabafar, contar algo pessoal, mesmo quando é só uma mensagem, eu penso “amigos”. Porque a felicidade deles me importa, ajudarei no que puder, e agradeço pela confiança.

Obrigada pela confiança, por me contar um pouco sobre a sua história. Sabe que ao blogar ou responder mensagens não me sinto fazendo favor pra ninguém. Faço porque gosto e porque preciso. Preciso saber que as pessoas são de verdade, a superficialidade me deprime.

Pode ter certeza de que não há absolutamente nada de errado em precisar de sossego, tranquilidade, isolamento. Te acusaram de não saber trabalhar em grupo? Uia. Conheço um monte de gente, que não são misantropos, e que também não sabem trabalhar em grupo. Gente irresponsável com prazos, com feedback, dispersos, sem foco, ou simplesmente incompetentes. Porque você é quieta você não sabe trabalhar em grupo?

Trabalhar em grupo é terrível mesmo. Seja trabalho pago, seja trabalho voluntário, e quero ver alguém dizer que não é. Diferenças demais de visões de mundo, formas de agir. Eu poderia até falar um pouco da minha experiência, técnicas de sobrevivência, mas esse não é o assunto principal da mensagem que você me mandou. Se quiser numa outra posso comentar, mas de verdade, espero que você consiga um trabalho mais legal. O que você descreveu parece realmente muito difícil.

Eu sei, outros misantropos já me falaram sobre isso, e também já li vários textos: é perfeitamente possível ter uma rotina em que você lida com gente. Desde que haja um bom balanço com o seu tempo, aquele que é só seu, ou no máximo com os muito queridos e mesmo assim eu preciso ficar sozinha. O Cris e o Daniel são os maiores amores da minha vida, ficamos 20 dias juntos de férias na Austrália, e nem era o tempo todo juntos, teve dias pra eu ir fotografar sozinha, fazer snorkeling sozinha. Férias maravilhosas. Mas vi que sentia falta dos meus dias sozinha no meu canto.

A gente precisa de tempo sozinhas e no sossego e não é frescura. Quer dizer, não sei exatamente qual o mecanismo que rege isso, dizem que pode ter a ver com um overloading, estamos o tempo todo percebendo, vendo e pensando muito, e talvez a interação com os outros nos obrigue a ver, processar e pensar coisas que a gente nem queria. Dá uma sobrecarga. Alguns posts do quietrev.com falam disso, de pessoas que descrevem como se fosse preciso carregar as baterias no silêncio e tranquilidade.

Então pode ter certeza do fundo do coração e com alma plena: não tem nada de errado em gostar de sossego e sonhar com uma vida muito mais tranquila.

Sobre as questões com a família… Primeiro, lamento muito pelas coisas terríveis que aconteceram, as perdas. Só posso imaginar. A pessoa mais querida que perdi foi minha avó, ela era uma senhora doente há anos indo e voltando dos hospital, e mesmo assim, quando ela morreu foi o pior dia da minha vida. No seu caso então, é muito mais brutal. Lamento. Não tem sentido, não é justo. Só nos resta ou algum tipo de fé, acreditar que há uma razão, ou quando não há a religião, é saber que a cada dia que passa é um pouquinho menos dilacerante.

Não sei o quanto você leu dos posts. Eu acho que a gente tem uma dívida de sangue com os pais, que é um karma. Mas o que significa essa dívida, aí tem muitas variações, vai depender dos seus valores. Não sei se você viu um post em que contei que eu quase saí da casa dos meus pais brigada, antes do almoço, num dia dos pais. Porque meu pai tinha entrado numa vibe de amargura e rancor. A gente estava conversando de um assunto difícil, ele estava bem contrariado, e falou “não tenho nada pra comemorar hoje”, “não tem? O que estou fazendo aqui então? Eu vou embora”.

Claro que eu não sei os detalhes, mas pelo o que você contou, acho que você aguenta desaforos demais. Se precisarem de ajuda, a gente tem que ajudar. A gente tem que falar periodicamente, saber como estão. Mas encontrar pra ser destratada? Nossa, isso eu não faria. Se meus pais me destratassem, eu pararia de ir encontrá-los, não faz sentido se encontrar pra passar raiva. Ligaria. Como estão? Como estão de saúde? Precisam de alguma coisa? Certo, certo, e tudo dentro dos limites do razoável. Mas eu nunca iria ver gente que me destrata. Mas não sei o quanto isso é misantropia ou pura personalidade, porque eu sou muito orgulhosa no sentido de “não gosta de mim, foda-se, eu não mendigo atenção ou carinho de ninguém”.

 

Acredito de verdade que nossos pensamentos e valores moldam nossa realidade. Você tem tudo pra ser cada vez mais feliz e realizada. Estruture desejos e trace planos. Tenho essa vida de contos de fada (contos de fada misantropo, talvez os outros considerassem minha rotina um tédio e desperdício de tempo e dinheiro), mas sempre faço questão de dizer que tenho certeza de que eu mereço e construí isso. Alimentei meus pensamentos e ações de que eu posso e que não tem nada de errado. Sou neta de japoneses, o tipo de gente que a mãe queria que fosse médica, que só tirava notas altas, que ganhava troféus de melhor aluna do colégio, da cidade. E quando decidi parar de trabalhar, lembro que o meu BFF me contou que a mãe dele disse “nossa, não achei que a Claudia era esse tipo de gente”.

Pois é, eu sou. Eu sou o que eu quiser, e não devo satisfação pra ninguém. Combino as coisas com a pessoa que decidi dividir minha vida, que é o Cris, temos nossos compromissos com o Daniel, e todo o resto são escolhas.

Se aposentar jovem, sei que essa é uma situação bem incomum. Mas acredito de verdade que dá pra viver uma vida não dedicada ao trabalho, com bastante tempo livre, gastando pouco e saboreando muito.

Fortaleça em você os pensamentos de que você pode, você merece, você consegue, e isso vai atrair muita coisa boa.

 

Apesar da história de vida difícil e dos acontecimentos recentes terríveis, sabe o que eu senti de você? Que isso não te derrotou. Não importa que você tenha pesquisado “odeio pessoas”, o que eu senti é que você não odeia, que você não está tomada por sentimentos sombrios, ou pena de você. Que você não se sente vítima, ou impotente. Você é uma vencedora.

Você passou por uma fase muito difícil, e está aí com esse trabalho no nível sabugo enfiado no cu, tem as questões difíceis com a família, não é fácil manter o astral nessas condições. Mas é tudo temporário, tudo vai passar.

Você deve ter lido: eu vivo toda essa mamata, mas já passei pelos momentos de me questionar, de me perguntar se a errada sou eu, se sou chata e sem graça. Então descobri a palavra misantropia, e os textos que descrevem os misantropos, e nunca mais achei que sou errada. Tenho certeza de que sou chata e sem graça pra muita gente, mas depois de descobrir a misantropia, vi que era um erro pensar que quantidade significa alguma coisa.

Tudo vai melhorar. A economia vai melhorar, você vai encontrar um trabalho mais legal, talvez você consiga trabalhar na sua cabeça a certeza de que não precisa ficar passando desaforo com a família e vai parar de ir nesses encontros e ser torturada. Vai ter mais tempo pra você, e com você e seu marido. Vai rir baixinho por dentro todas as vezes que alguém te acusar ou insinuar que você é esquisita ou precisa de tratamento porque gosta de sossego, isolamento e tranquilidade. Pensa em mim, pensa que vou rir baixinho com você.

Fique bem e me escreva sempre que quiser.