A igualdade não existe – não defender as mulheres e outras minorias não significa ser neutro

É um truque sujo, eu sei, mas realmente não me parece boa ideia discutir por uma caixa de chat. Poderemos debater o assunto ao vivo, ou mesmo pela câmera do Skype, mas não por escrito. Não posso correr o risco de ter mal-entendidos com vocês, não com vocês, então como falei não vou alimentar a conversa no chat. Mas não posso deixar de blogar, e sei que vocês têm lido de vez em quando, por isso digo que é um truque sujo. Porque por um momento será uma mão única de comunicação, mas topo conversar sobre o assunto ao vivo ou pela câmera do Skype a qualquer momento se vocês quiserem.

O que é ser feminista? Hoje em dia tem sido palavrão e ofensa, sinônimo de mulheres que odeiam homens. Historias horríveis de mulheres promovendo agressão e humilhações contra homens, só por serem homens. Quem se identifica com isso? Nós não.

Mas não consigo concordar com a ideia de igualdade, de que não precisamos falar do feminismo porque homens e mulheres são iguais. Não somos, provavelmente nunca fomos, a maioria das sociedades se desenvolveu de forma que os homens tinham mais poder e isso repercute, se estende e influencia tudo nas nossas vidas.

Muitas mulheres do mundo vive num status de fêmea e de objeto de posse. Mulheres que precisam de homens para ter o que comer, onde morar, para não serem estupradas por desconhecidos (e às vezes, têm como preço serem estupradas pelos maridos). Que não podem ser vistas por ninguém exceto seus maridos, que não podem conversar com outros homens exceto seus maridos. Muitas mulheres que oficialmente só têm direito a ter um único parceiro sexual a vida toda: o marido, mesmo que o marido não seja obrigado a essa fidelidade. Mulheres que podem ter seus rostos queimados com ácido porque chatearam algum pretendente, mulheres que têm que viver o tempo todo com medo do estupro e são obrigadas a inventar coisas como uma calça com um dispositivo para emitir um alerta pra polícia se ela for atacada. Circuncisão feminina. O azar de nascer mulher na China. Crimes de “honra”. Morte por fogo: a terceira causa de morte no Sudeste da Ásia entre mulheres de 15 e 44 anos, 7a no mundo.

Este link, que já divulguei em outro post, é um slideshow sucinto e chocante com vários números da violência contras as mulheres no mundo: http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/

No pequeno estrato social que orbitamos, existem, e há cada vez mais mulheres capazes de viverem sozinhas, sem precisar de um homem para sobreviverem ou não serem alvo de violências constantes. Mas estamos muito longe da igualdade, muito. Mesmo nesse pequeno estrato mulher viajando sozinha é vista com suspeitas, mulher tem salários menores pelas mesmas funções, mulher em geral tem muito mais motivos pra ter medo de ser espancada e estuprada, mulher sofre com muito mais frequência assédios que nos enchem de ódio, mas que não há o que fazer a não ser tentar revidar e ter como resposta um soco na cara, mulher é vista como objeto sexual, e muitas vezes passa a viver em função de ser um objeto sexual ou no mínimo um acessório na vida do namorado ou marido, se anulando. Mulher não pode ser vista na companhia apenas de um homem, porque será mal falada, é preciso sempre ter a dama de companhia para comprovar que não houve pecado.

Não importa a palavra usada. Não tenho medo de me declarar feminista e causar uma repulsa instantânea, graças aos exageros que as mulheres que odeiam homens conseguiram causar na mídia.

Mas vou dizer pra vocês: estamos muito longe da igualdade, ou melhor, de uma situação em que as mulheres não estejam em tantas situações numa grande desvantagem. Homens e mulheres não são iguais. Não falar sobre isso ajuda a não mudar a situação, porque é como se o problema não existisse. Mas existe. E estamos mal na fita, tanto na questão de quantidade de mulheres no mundo que sofrem horrores só por serem mulheres, como pelo fato de haver tantas mulheres em posição de poderem trazer concretude e visibilidade à questão, mas que se calam, ou fazem de conta que os problemas não existem.

Há incontáveis mazelas no mundo, e precisamos escolher as nossas lutas. Nem todas as mulheres precisam ser feministas… acho que devemos escolher as causas que mais mexem com a gente. Passei muitos anos sem me importar, mas hoje em dia sei que realmente ferve o meu sangue as inúmeras situações em que as mulheres são tolhidas ou impedidas de fazer algo, ou sofrem bullying, violência verbal ou física só por serem mulheres que não querem viver dentro do quadradinho que diz “isto é o comportamento e as atitudes adequadas a uma mulher”.