A igualdade não existe – 8 de março, dia da mulher

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“Parabéns, hoje (conversa do dia 8) é dia da mulher”

— fiz um dos meus sons que é uma mistura de bufar, com aquele som que a gente faz pra divertir bebês, e que juntando tudo significava, naquele momento, um “I couldn’t care less” “Espero que não estejam distribuindo rosas no restaurante”.

“Rosas?”

“Detesto receber essas rosas de dia da mulher… dia da mulher. Só minorias têm dias”.

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E hoje, por acaso, topei com essa entrevista com Maria Berenice, a primeira juíza do Rio Grande do Sul, nomeada em 1973. Durante toda a carreira enfrentou muita discriminação dos colegas, tinha que ouvir coisas como “Onde já se viu, vão chegar lá e vão namorar o oficial de Justiça? Como vão instruir processos sobre crimes sexuais, morar sozinhas?” “Chegaram a alegar que não tinha banheiro feminino –eram apenas dois no Tribunal pleno. Queriam que eu chamasse um guarda cada vez que fosse usar”.

É boa, vale a pena ler na íntegra:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/03/08/sempre-foi-barato-bater-em-mulher-diz-maria-berenice-dias-1-juiza-do-rs.htm

Selecionei uns trechos abaixo. Mas antes queria comentar uma das opiniões de Maria Berenice, que diz que a igualdade não existe e que considera uma grande causa combater a violência doméstica. Concordo.

Vocês têm noção sobre isso? Porque eu já li vários comentários no maldito Facebook que me fazem acreditar que muita gente não tem. Eu sei que o FB é o show de horrores, mas caso você tenha alguma dúvida, considere minha opinião, e se quiser vá pesquisar um pouco sobre o assunto. Abra os olhos, abra a mente, perceba como em tantas situações as mulheres são desfavorecidas, só pelo fato de serem mulheres, tanto em dúvidas sobre sua competência intelectual, como pela fragilidade de serem objetos sexuais, que precisam temer não só o assalto ou a violência física, como também o estupro.

E por favor, não venha me falar que são as mulheres que se sexualizam, que são elas que provocam usando roupas decotadas ou curtas… se você é uma besta cega a qualquer impulso, vá se trancar numa jaula.

É verdade que o estupro e a violência contra fêmeas e filhotes é comum no mundo animal. Mas usar isso como justificativa de comportamento é ser tacanho demais, é ser bicho no pior sentido. O que possibilitou o desenvolvimento da nossa grande caixa craniana e o domínio do planeta foi a predisposição a viver em sociedade, e queremos acreditar que nessa gangorra em que tantas vezes pesa mais “mais forte + mais rico + poderoso + lucrativo”, nosso avanço continuará cada vez mais guiado por ” é pelo bem de todos, porque é o certo, porque temos coração”.

Quantitativamente acredito que somos uma minoria. A que acredita que deveria haver igualdade entre homens e mulheres – veja, a igualdade não significa todo mundo igual, e sim não haver proibições ou pré-julgamentos tendo como base o fato de ser homem ou mulher. Apesar de ouvir umas histórias de vez em quando, parece que homens não podem levar uma gestação no próprio corpo. Fora isso, não consigo pensar em “isso é coisa de homem” “isso é coisa de mulher”.

Chorar, ter pt, ser grosseiro, ser violento, ser fofoqueiro, ser maldoso, ser maternal, ser sedutor, ser garanhão, ser vaidoso, ser musculoso, ser fraco, ser inteligente, ser genial – qualquer um desses atributos pode ser tanto de um homem como de uma mulher.

Concorda? Faça um favor pro mundo: se policie pra nunca professar ou reforçar comportamentos sexistas, especialmente pra crianças. Não precisamos reforçar nas meninas o desejo de ser princesas, nem dizer a um garoto que ele tem que jogar futebol e comer todas.

A priminha do meu enteado é uma menina linda, que adora princesas, vestidos. E até semana passada, em todas as reuniões familiares eu sempre fiz elogios do tipo. Mas então estava num táxi, algum programa de rádio com uma pedagoga que explicava o quanto é problemático pra uma criança crescer tendo pais que estão sempre noiados com a aparência, em ser magros, em ser lindos. E a mulher deu exatamente o exemplo de você chegar pra uma criancinha e dizer que ela está linda, que o vestido dela é bonito, que o sapato é bonito.

Que merda a gente está fazendo?

Ela não falou isso, mas foi só aí que eu me toquei “que merda eu estou fazendo? Toda vez que eu faço um elogio da aparência da …, eu reforço pra ela que isso é importante. E depois, quando tem o jantar de família em que ela chega dormindo, e quando acorda descobre que está de calça e blusa, e não com o vestido que ela tinha pensado em usar pra ocasião e começa a chorar, a gente não entende o porquê”.

Sugestão da pedagoga: não fale da roupa. Pergunte que livro ela está lendo, ou do que ela tem brincado. Vivemos um mundo em que a aparência padronizada tem um valor absurdo. Entretanto, podemos e deveríamos policiar nossos pensamentos e o que falamos pra não contribuir, e talvez até combater essa loucura.

Sobre a violência doméstica, se você tem qualquer dúvida, vá papear num posto de atendimento de saúde. Eu trabalhei um tempo numa secretaria municipal de saúde, e o pessoal comentava sobre os tantos casos de violência contra mulheres e crianças, que incluíam fivela de cinto, metais quentes, faca, ferro de passar roupa. E mesmo que não trabalhasse na secretaria, tinha conhecidos pra lá e pra cá. Clientes da loja da minha mãe. Namoradas de amigos. Amigas de amigos.

Quer uns números?

– A ONU estima que 7 entre cada 10 mulheres no mundo foi ou será violentada

– 35% dos assassinatos do mundo são cometidos por um parceiro íntimo (um homem). A quantidade de assassinas é 5%.

– Pelo menos 5 mil mulheres mortas por ano, no mundo, “em nome da honra”. O Brasil é o sétimo do ranking (entre 84) em quantidade de assassinatos de mulheres.

– Duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres; em 51,6% dos atendimentos foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher.

– de 1980 a 2010 foram assassinadas no país cerca de 91 mil mulheres, sendo 43,5 mil só na última década.

– Seis em cada 10 brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. Machismo (46%) e alcoolismo (31%) são apontados como principais fatores que contribuem para a violência.

– Cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos no país.

– O parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos reportados.

http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/

http://www.compromissoeatitude.org.br/alguns-numeros-sobre-a-violencia-contra-as-mulheres-no-brasil/

 

O próximo infeliz que vier me falar que machismo não existe no Brasil, por favor, considere fazer um voto de 20 anos de silêncio, em que você só poderá ler, estudar, observar e aprender antes de poder expressar qualquer opinião verbal ou oral novamente.

 

==== trechos da entrevista com Maria Berenice

Redes sociais ajudam a disseminar ameaças contra as mulheres?

As redes sociais ajudam a prevenir a violência contra a mulher. As mulheres, que sempre foram muito isoladas, começaram a se sentir mais seguras. Dentro de casa elas tem acesso à informação, relatos de outras mulheres. As redes as encorajam a buscarem seus direitos. É muito mais favorável do que desfavorável.

Por que você deixou a magistratura e se envolveu com a causa LGBT?

Por ter sido vítima da discriminação, comecei a atentar para a questão dos excluídos. A discriminação dói muito. E as mulheres não são discriminadas apenas para entrar na magistratura, mas em todos os âmbitos. Me dei conta de que no direito de família era onde havia mais discriminação e comecei a trabalhar nessa área. Me surpreendeu ver que as pessoas do mesmo sexo não estavam ali. Fui a primeira pessoa do Brasil a dizer: “olha, as pessoas do mesmo sexo têm que ter direitos, são uniões”. O que é família? É um um comprometimento entre as pessoas pela responsabilidade do afeto.

Como você vê a chamada terceira onda do feminismo?

A onda virou marola. Sempre houve uma rejeição plantada pelos homens ao movimento feminista. A ponto de transformarem a expressão feminista em palavrão. “A mulher feminista é feia, mal amada, ninguém quis, sapatão…” Isso atrapalhou muito o movimento. Feminista são todas as pessoas minimamente inteligentes, tanto mulheres como homens, que reconhecem que a igualdade não existe. As mulheres conseguiram alguns ganhos importantes. Queda do tabu da virgindade, surgimento dos métodos contraceptivos, entrada no mercado de trabalho, ainda que ganhando menos. Mas me parece que se conformaram com isso.