A favor da Marcha das Vadias, a favor da legalização do aborto

Falei que se não fosse pela atividade no Tanquã, talvez eu tivesse ido à Marcha das Vadias. Talvez. Tenho um pouco de medo ainda, sou totalmente à favor do que elas defendem, mas sempre bate aquele medo de topar com as mulheres misândricas, essas que fizeram a caveira do feminismo.

Pra quem não sabe, a Marcha das Vadias começou em 2011, graças a um reitor de uma Universidade de Toronto que, frente a um problema de vários casos de estupro e abusos de estudantes, teve a brilhante ideia de dizer “por favor, não se vistam como vadias”. Craro. A culpa é sempre da mulher. Se a mulher usa decote, saia curta, calça justa, só pode significar que ela quer ser estuprada. Está pedindo. O homem não tem culpa se foi a mulher que provocou.

Neste ano a Marcha das Vadias de São Paulo focou na legalização do aborto, ou melhor, pra parar de ser crime. No mínimo pra parar com as mortes de mulheres que não têm dinheiro pra pagar alguma forma de abortar sem correr risco de morrer.

Não consegui confirmar o número, mas várias notícias falam de mais de 850 mil abortos clandestinos por ano, e mais de 200 mortes por ano.

Tanto sofrimento só porque a gente é uma merda de país em que a religião pode apitar tanto na vida de todos os cidadãos.

Meus pais casaram porque minha mãe engravidou com 21 anos. Se 40 anos atrás o aborto já fosse legalizado e eles não vivessem sob o peso de questões religiosas, talvez minha mãe tivesse abortado minha irmã, terminado a faculdade de Biologia na Unesp e seguido um rumo muito diferente. Eu e meus irmãos não existiríamos. Tudo bem. Queria muito que ela tivesse tido essa opção, que ela não precisasse ter passado tantos dias chorando, tendo que ouvir dos irmãos que ela era uma vergonha pra família.

Veja bem: adoro meus pais, me dou bem com a minha família. Mas sinceramente, nem minha mãe nem ninguém deveria ter que passar pelo desespero de lidar com uma gravidez indesejada, tendo que carregar um alien na barriga em vez de um bebezinho querido e desejado.

Não está fácil achar os números, mas vi um que diz que em 2007, quase 600.00 bebês com mães entre 10 e 19 anos. Li uns dias atrás e não estou encontrando de novo algo que falava que em 1995 48% das mães disseram que a gravidez não foi planejada, e que em… 2002, talvez, esse número era 46%. Não tenho certeza se era exatamente essa a formulação da questão, só sei que era algo desse porte.

Qualquer filhote causa mudanças estrondosas na vida dos pais biológicos, adotivos ou grupais. No caso dos seres humanos, existe o detalhe de que a fêmea é ao mesmo tempo um ser humano, que vai carregar o bichinho no ventre por 9 meses, e depois ter que mudar muito da sua vida pra ser capaz de cuidar dele.

Engravidar sem querer é das coisas mais fáceis que pode acontecer com qualquer uma, diga o que quiserem esse bando de filhos da puta que têm coragem de dizer “só engravida quem quer”, o que me fez desconfiar que além de filhos da puta eles são virgens e idiotas sem a menor noção de como os bebês são feitos. A mãe é um ser humano, ela tem o direito de escolher se quer levar aquela gravidez pra frente ou não. Sim, o pai também tem o direito de opinar, mas terá que ter uma lábia fenomenal pra convencer uma mulher que não quer ter filhos a ser a hospedeira durante 9 meses, mesmo que ele jure que ela nunca mais verá o bebê depois. Neste caso, o maior poder, responsabilidade, dor e capacidade de se foder muito é sempre da mulher.

Mãe é um ser humano, não é um hospedeiro. A mãe precisa ter o direito de decidir se quer ou não o filho. O corpo é da mulher, o corpo é a mulher. Por que as crenças religiosas de um bando de outras pessoas pode ser capaz de apitar no meu corpo e numa questão que vai influenciar crucialmente o resto da minha vida?