A doce ilusão de que a humanidade deu certo

O sorriso bobo ao ver as pessoas dançando pode ter um elemento genético-cultural. Todo mundo sabe, e quem não sabe basta assistir a Shall we Dance? (a versão original japonesa, não a do Richard Gere, que não faz o menor sentido) e vai saber como os japoneses são fascinados pela dança. Com certeza algo relacionado com a nossa falta de ginga.

Ver esses vídeos de gente dançando espontaneamente, pro telão, ou mesmo os filmes em que as pessoas dançam, aplaudem, se beijam: essas coisas deixam com o sorriso bobo, por alguns momentos parece que a gente deu certo como espécie, não existem violência, ódio, pobreza, xenofobia, terrorismo, corrupção, machismo, doenças, epidemias, refugiados, tragédias ambientais, nada. O mundo é bom, a vida é boa.

Mas tem outros momentos pra me sentir assim, e que tenho certeza que não dependem do meu sangue.

Como é doído passear nos Estados Unidos. Como dói olhar pras ruas largas, casas bonitas com jardim, sem muros, andar à noite sem medo de ser assaltado, ir pra um restaurante e o casal ao lado puxar papo, elogiar o Brasil, se oferecer pra escrever as dicas dos lugares favoritos de Los Angeles, pagar drinks, como dói andar pelos parques com asfalto perfeito, lanchonete, lojas, sanitários, postos de gasolina, alojamentos, você cruza com as pessoas e todo mundo sorri e fala oi, um monte de gente com tripé, nenhum – nenhum segurança pra ir lá dizer que não pode fotografar, pelo contrário, tem cartazes falando pra compartilhar suas fotos. Não tem lixo na estrada. Não tem música alta ou gente falando alto ou gritando.

O Getty Center é um negócio do outro mundo. Sempre doeu visitar as ruínas e pensar na beleza do passado, mas ir ao Getty é descobrir a nova Roma, o que as cidades ricas podem fazer em termos de arquitetura, beleza, harmonia, facilidade, transporte.

O Staples Center é a grande arena dessa cidade tão rica, o templo de um dos jogos favoritos dos cidadãos. Tudo funciona. Milhares de pessoas são revistadas pra entrar, mas entram a tempo, não tem muvuca, a fila de pessoas flui, na saída também é tranquilo, no intervalo é possível sair, comprar um pretzel ou um lanche, uma bebida, e voltar a tempo. Uma grande arena em que os heróis dão shows e ninguém morre.

Eu não sou idiota, não sofri o tempo todo. Mas de vez em quando batia a melancolia, e ante a visão da Sierra Nevada, ao som do Libertango do Piazzolla, daí doeu demais, doeu de me inundar de lágrimas, de me ver como um imigrante qualquer dizendo “quero morar na América, quero ser cidadão americano, quero trazer minha família e meus amigos pra morar aqui”.

Não foi minha primeira viagem pros Estados Unidos. Mas foi a primeira pra Costa Oeste. E a primeira depois de ter passado meses brigando com meus colegas birdwatchers, a Fundação Florestal e o ICMBio. Manhattan é uma cidade bacanuda, mas é só uma cidade grande. Las Vegas não é uma cidade, é um grande centro de diversões pra adultos com muitos hotéis, em Denver ficamos pouco e as cidadezinhas do Colorado pareciam lugares inventados pro turista.

Mas Los Angeles, e imagino que vários outros lugares da Costa Oeste trazem essa dor do idílio, portal dimensional.

Não era a dor de pensar “que merda ter que voltar pro Brasil”, e sim a dor de “aiputaqueopariu, o Brasil é um país tão rico, tão rico, e as pessoas são tão boas e trabalham tanto e são tão inteligentes e criativas, custava ter dirigentes não-corruptos, capazes de canalizar os impostos e esforços das pessoas de forma a ter qualidade de vida pra todo mundo?”

Se vivêssemos num país de terras áridas, estéreis, com gente subnutrida e retardados, se o país fosse pequeno ou vivesse assolado por pestes, doenças, cataclismas, então você nem sonha.

Mas saber que o que nos limita é só o fator humano, a falta de caráter das pessoas… não são coisas intransponíveis, são escolhas feitas todos os dias a favor da corrupção, negligência, mesquinharia, mentiras, desonra, tirar vantagem, não assumir erros, enxergar todo mundo com retardado, ladrão, besta. Em esferas diversas, o tempo todo.

Eu falei dos dirigentes, mas não são apenas dirigentes e políticos. Eles pesam mais, mas é tudo. Furar fila, qualquer fila, seja de espera, de carros – andar na faixa errada pra entrar 10 carros pra frente e ganhar 0,03 segundos no percurso. Não avisar o garçom que a conta está errada pra menos. Mentir pra não levar bronca, ou colocar a culpa em alguém. Não assumir erros. Querer tirar vantagem – golpe do bilhete premiado. Subornos, favorecimentos. Síndrome do pequeno burocrata. Proibições absurdas.

No Brasil não é fácil sentir que a humanidade deu certo.