A derrota dos misantropos

Atualmente meu blog favorito é do Eric Barker, o Barking up the wrong tree. Eric escreve textos curtos, cheios de referências e citações, em geral focado num livro que você pode ler se quiser se aprofundar no tema, e no final do post faz resumo dos principais pontos. Admiro o estilo – ele realmente quer ser lido, diferente de mim, que sou capaz de escrever textos monstruosos, ou seja, me importa muito mais o que eu quero escrever do que tentar conseguir mais gente que me leia. Parece que Eric tem uma missão. Ele tem escrito muito sobre como ser feliz, como viver melhor, como viver mais

Um dos últimos posts dele fala do livro “The Village Effect How Face-to-Face Contact Can Make Us Healthier and Happier”, de Susan Pinker. Susan mostra vários locais em que as pessoas são mais longevas, de ultrapassar os 80, 90, 100 anos, ou comunidades em que as pessoas têm uma média de vida pelo menos uns 5 anos maior do que a média regional, mesmo com condições ambientais adversas – e relaciona os números com a vida em comunidade.

Tem o livro pra Kindle, mas não preciso ler, eu sei que Susan está certa, que Eric está certo, e que nós misantropos estamos errados.

Quer dizer, não é tanto uma questão de certo ou errado, a misantropia é uma ideologia, mas eu sei que eles estão certos em dizer que se você tem mais contatos face to face com as pessoas de quem você gosta, se você vive numa comunidade e interage com frequência com as pessoas, principalmente depois que você chega na terceira idade, você vive mais feliz e por mais anos.

Não me sinto nada hipócrita em dizer que não sou contra a vida em comunidade. Na prática pode parecer que a gente é, mas não é isso: a gente não costuma ter muitas interações sociais porque em geral nos sentimos desconectados e até exasperados nessas relações. Mas não é uma questão de odiar pessoas ou ser contra pessoas: é apenas o simples fato de que ficar sozinho em geral é mais legal, produtivo e gostoso do que diversas interações sociais em que a gente se sente desperdiçando nosso precioso tempo na bolota azul.

Mas eu gostaria de ter mais interações sociais. Só preciso encontrar as pessoas certas, os grupos certos, os lugares certos.

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E daí vem a pergunta: o que é o grupo certo, as pessoas certas?

Quando você é criança e adolescente, e mesmo na juventude, uma boa parte do cimento das grandes amizades é formado pela inércia e falta de opção. As pessoas com quem você tem que conviver na escola, ou no bairro, ou em alguma aula. E de repente você se vê passando seu tempo com elas. Assistindo TV, ouvindo música, andando pela cidade, indo ao shopping juntos, ouvindo alguém do grupo tocar violão, eventualmente viajando juntos, e de repente essas pessoas se tornam as criaturas mais queridas, com quem você precisa conversar várias vezes durante a semana, e cuja ausência te deixa aquele vazio.

Muita gente diz que é bem difícil fazer novas amizades depois de adulto, e tenho certeza que tem a ver com isso. Depois de adultos, somos donos do e organizamos nosso tempo de uma forma que tem pouco espaço pra fazer nada, pra ter tempo pra ficar na companhia de outras pessoas, principalmente de recém-conhecidos, fazendo nada. E estamos sempre julgando e analisando e decidindo quem vale o nosso tempo ou não, quem é cool, quem é inteligente, quem é legal. Fica quase impossível crescer aquele carinho e amor fraternal (ou às vezes nem tão fraternal) que só surge depois de um bom tempo passado ao lado de uma pessoa, sem que haja tarefas ou objetivos, sem precisar falar coisas inteligentes ou espirituosas, sem precisar impressionar. A simples constatação de que vocês podem passar um tempo juntos, que isso é bom, e ninguém está sendo avaliado. Que vocês poderão voltar a se ver, em breve, que ninguém precisa provar seu valor em 3 minutos de conversa.

Claro que estou sendo cruel, não é só isso. Depois de adulto, também há o grande problema de ser tão difícil conseguir um tempo livre, ainda mais pra se investir em algo tão duvidoso quanto a companhia de um recém-conhecido. Nem preciso falar sobre a falta de tempo das pessoas.

E aqui vem o salto do gato, algo que tem flutuado pela minha cabeça faz um tempo. Ando com um grau razoável de certeza de que não é uma questão de procurar as pessoas certas, como se procura uma agulha num palheiro. Acho que é mais uma questão de procurar situações em que você possa conhecer as pessoas desse jeito manso, sem ter que provar nada pra ninguém, e com isso devem aumentar muito suas chances de conhecer de verdade gente de verdade.

 

E onde acontecem essas situações?

Há várias formas. A literatura e os filmes têm enredos em que as pessoas são obrigadas a passarem por situações de grande perigo, dificuldade e tensão e logo descobrem como é o outro ou se apaixonam. Imagino que seja verdade. Mas pra quem não tem a sorte de ser frequentemente raptado, bombardeado, alvo de ataques e conspirações, acho que as situações mais proveitosas são de vilas e aldeias. Reais ou figuradas. Locais com gente simples e honesta, fazendo trabalhos preferencialmente braçais, manuais, em que todo mundo sabe porque está lá, e impera um clima de camaradagem e bondade.

Situações em que você pode passar um bom tempo com outras pessoas fazendo nada, é disso que a gente precisa.

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Tenho certeza de que funciona. Eu vi. Tenho dois amigos muito queridos, que entraram fácil pro grupo de melhores amigos, de gente que você pode entrar em contato só pra gritar e xingar, ou que volta e meia um traz presentes pros outros. Eu os conheci há dois anos e ficamos amigos muito rápido porque logo no primeiro encontro, um passeio pra ver aves, descobrimos que podíamos ficar juntos em silêncio, que não havia tensão, e que todos estavam de alma presente. E logo depois descobrimos que podíamos xingar e falar mal das pessoas e do mundo e os outros entendiam.

Não acontece em todo passeio passarinheiro. Acho que aconteceu com a gente porque estávamos nessa mesma sintonia de nada, ócio, não preciso impressionar ninguém, não saí com objetivos, não estou atrás de lifers, estou aqui só curtindo a natureza.

Hoje em dia eu os vejo bem menos porque eles tiveram filhos, não um com o outro, cada um com seu respectivo cônjuge, um deles mudou de emprego e passou a ter menos flexibilidade pra passear. Mas continuam sendo super-queridos, o tipo de gente que eu veria sempre.

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Trabalhos filantrópicos e voluntários. Daqui a algumas semanas ou algumas décadas, provavelmente vou me envolver nisso. Eu já faço um trabalho voluntário, que é a divulgação do birdwatching, mas essa é uma tarefa solitária, estou falando de algo que envolva ter que se encontrar com outras pessoas.

Esse é outro tema sobre o qual o Eric Barker já escreveu, e também tenho certeza de que ele está certo. Fazer o bem, ajudar os outros, é o tipo de coisa que melhora sua vida, aumenta sua sensação de felicidade.

Em grupos desse tipo em geral há muito espaço pra frouxidão e incompetência. Não tem como haver muita pressão ou cobrança, pelo menos nos níveis menores de hierarquia do grupo. Participei de alguns na adolescência. Quem sabe em breve ou daqui a muito tempo eu encontre um grupo que tenha vontade de participar.

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Na semana passada estava pensando que o grupo poderia ser algo relacionado com a cultura japonesa. Até perguntei pros meus amigos e fiz pesquisas na internet. E fui numa festa japonesa no final de semana, é de onde vem a foto da capa do post, Toro Nagashi no 31º Akimatsuri em Mogi das Cruzes. Mas é uma vontade que já vai passando… o que eu procuro talvez exista em algum grupo budista ou de artes marciais.