A coisificação dos passeios de natureza

A África do Sul durante anos foi nossas férias favoritas. Fomos pra lá em 2006, 2007, 2008, 2010, 2011, 2013 e teríamos voltado em 2015 se não fosse uma leve preocupação com ebola.

Sei que tem os avistamentos de baleias, tubarões, mergulho, paisagens incríveis, mas a gente viciou em observação de fauna terrestre. São dias e dias e dias acordando cedo pra passar o dia inteiro rodando pelo parque pra fotografar. Você só pode sair do carro em áreas determinadas (imagine o motivo dessa regra num lugar com leões, leopardos, cobras, escorpiões). Um pouco antes de escurecer temos que estar de volta ao campo onde vamos dormir, os portões fecham, pegamos uma cerveja e vamos ver o pôr-do-sol em frente a algum buraco d´água. Daí vamos pra nossa cabana, acendemos a churrasqueira, descarregamos os cartões, colocamos as baterias pra carregar, assamos carne, batatas e cenouras vendo o brilho do nosso fogo e o das outras churrasqueiras ao redor.

“Quando eu morrer, queria ser um fantasma aqui no Kruger” – não é uma ideia original, há dezenas de bancos e placas espalhados pelo parque com frases como “em homenagem ao meu amado marido John Doe, que amava esse lugar”.

O Kruger o Kgalagadi são apaixonantes, lugares pra você se perder e esquecer que o mundo é um lugar ruim.

Ou eram.

Imagino que o sinal de internet nos parques melhorou muito desde 2013. Em 2013 ainda não tínhamos sofrido isso, mas agora dá pra ver que o negócio está selvagem:

https://twitter.com/LatestKruger

Que tristeza.

Um dos nossos avistamentos de leopardo na viagem de 2007 foi num cenário lindo, com árvores grandes, um leopardo sonolento deitado sobre um tronco bonito (este da foto de abertura). Ficamos cerca de uma 1h admirando essa maravilha da natureza. Era uma estrada com pouco movimento, mas depois de 1h passou uma van. O leopardo estava olhando pro outro lado. Eles ficaram lá 2 minutos, resolveram buzinar pra chamar a atenção do leopardo. O leopardo realmente olhou na direção da estrada, mas daí levantou e foi embora.

Com os twitters dos avistamentos, posso imaginar várias situações assim. Fora os carros correndo na estrada pra tentar chegar logo no local em que twitaram algo interessante.

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A olho nu você vê o leopardo mais ou menos assim. Passamos por ele, pedi pro Cris voltar “talvez tivesse algo no tronco”. E tinha.

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No birdwatching brasileiro de vez em quando alguém descobre um ninho de um bicho que não é fácil ver de perto, e daí vai todo mundo fotografar. Um dos casos famosos foi um ninho de um gavião-de-penacho na região do Petar. O ninho ficava numa propriedade particular, e o dono cobrava R$ 50 por pessoa. O lado bom é a pessoa saber que não deve dar um tiro de espingarda em bichos como esse, nem derrubar aquelas árvores grandes. E quem foi conseguiu fotos bem bonitas. Cris: “você não vai?” Não vou. “Por quê?” Sei lá… não parece tão diferente de ir pro zoológico. “Sei. Você acha que vai encontrar seu próprio gavião-de-penacho”. Por que não? Provavelmente nunca vai acontecer. Mas se acontecer, vai ser lindo.

Alguém poderia perguntar, justamente: “mas o objetivo não é fotografar os bichos?”. Imagino que pra maioria das pessoas é. Mas não o meu.

Quando saio pra fotografar não é torcendo pra aumentar minha life list ou pra conseguir fotos espetaculares. É legal quando você vê algo que nunca viu, ou consegue uma ótima foto. Mas eu faço isso há mais de 10 anos, e aprendi uma coisa: o inesperado tem um sabor muito mais doce. Muito mais.

Sei que ainda é possível aproveitar o Kruger, ainda mais com esse interesse por insetos, flores. Ficar nos campos. Um dos meus momentos mais legais na África foi num ano em que eu estava sozinha (o Cris tinha voltado pro Brasil com o Daniel), e o pneu do meu carro furou numa estrada com pouco movimento. Tive que rodar com o pneu furado até chegar na estrada principal, isso estragou totalmente o pneu, não tinha conserto. Fiquei sem step, só tinha mais um dia no parque e resolvi não sair pra passear, só iria usar o carro pra ir pro aeroporto. Nessa manhã andando a pé pelo campo vazio, topei com um bando de Vervet Monkeys, são macacos comuns, mas eles estavam fazendo isso:

A gente aproveitou muito da África pré-twitter. Provavelmente o pessoal de agora volta com mais fotos dos bichos incomuns. Fico pensando se sou como o diretor do Museo do Prado que proíbe a fotografia dentro do museu porque quer que as pessoas apreciem o museu de uma forma tradicional. Mas acho que não. Acho que a diferença entre mim e o diretor do Museo é que eu não proibiria o twitter, porque sei como as pessoas gostam da ideia de receber as informações de onde achar o bicho tal, tenho noção da realidade. Assim como não quero que o Wikiaves mude, eu sei como ele é ótimo pra dezenas de milhares de pessoas.

A coisificação do mundo, com as mudanças pra que você consiga as coisas mais rápido, em maior quantidade, com menos esforço é algo desejado por muita gente. Mas não pra mim. O que eu vivi, senti, minhas memórias, o gosto incrivelmente doce do inesperado continuarão pesando mais do que uma foto impressionante.