A beleza da Caatinga

A Caatinga, sabe? Aquele lugar retratado como seco, mórbido, depressivo. Esqueletos de gado, crianças barrigudas de vermes e esqueléticas de fome. Uns dias atrás eu estava num pedaço da Caatinga do Rio Grande do Norte, mas não havia morte ou pobreza. O que eu via eram os cactos altos, com 2m, 3m, os formatos cilíndricos, os espinhos pontiagudos e perfeitamente distribuídos, as nuances do verde e dos tons de amarelo dos espinhos na contraluz. Uma árvore inclinada com o tronco retorcido. Umas poucas flores vermelhas, o solo claro, as pedras. Um trecho com um oásis de buritis, sobrevoado por andorinhões-do-buriti, e meu guia explica que eles não sabem se o buritizal (também conhecido como carnaúbas) era natural ou se tinha sido plantado.

Calor. Silêncio, muitos momentos de não ver nada de bichos. Longe, de rodar 200km num dia e 500km no outro. Mas eu só conseguia ver beleza. A beleza dos cenários, praias e salinas tão bonitas, tomadas pelos imensos aerogeradores, vazias de gente. A Caatinga, bioma único que só existe no Brasil, eu pensava no Cris e em outros fotógrafos de paisagem, queria uma armada deles fotografando a Caatinga, inundando a internet com a beleza do cenário, dos animais, das plantas, inundação até que a beleza do lugar sobrepujasse nossas memórias das cenas de morte, pobreza e miséria tão difundidas.

Não porque a pobreza não existe, claro que existe, talvez seja a pobreza mais triste do Brasil, a pobreza cultivada até hoje pelos coronéis que precisam dos seus currais eleitorais. A pobreza histórica de ser o pedaço mais explorado do país, talvez ainda assombrado pelos escravos torturados, um pedaço de terra chupinhado quase até o fim e mesmo agora que conservação se torna um assunto discutido, os interesses econômicos sempre como uma sombra sinistra. O estaleiro que poderia destruir uma das últimas áreas preservadas de mangue. Os parques eólicos construídos sobre dunas, perto de mangues, nossa suposição de como em determinadas épocas aquelas hélices podem ser trituradores de aves e o fato do Ibama ter liberado as licenças sem ter feito estudos aprofundados sobre o impacto das construções. Os boatos de que o aeroporto de Natal foi construído na putaqueopariu (a 1h da cidade – você pega um voo de 3h de São Paulo a Natal, e depois encara mais 1h dentro de um táxi) porque o terreno do aeroporto era de um político influente o suficiente para apitar onde deveria ser feita a obra.

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A impressão é de que o biguá passou muito perto da hélice

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Sei que tem pobreza, corrupção, violência, assaltos, cartel de drogas, assassinatos.

Mas não é só isso. É uma beleza imensa. Eu ficava olhando pros cenários e pensando quantas fotos um bom fotógrafo de natureza poderia fazer por lá, especialmente na Caatinga, não porque os outros locais não sejam bonitos (também passamos por dunas, salinas, faixas litorâneas, Mata Atlântica), mas porque a gente precisa renovar nosso imaginário do que é a Caatinga.

Fotografei pouco. Acho que por me sentir dividida se eu ia focar nas aves ou não, e por não querer chatear meus guias. Se eu desfocasse das aves pra tentar mais paisagens, a gente provavelmente veria menos aves ainda, e já foram poucas porque essa época do ano não é boa. Não queria que eles ficassem pensando que se a gente não ficasse parando pra fotografar paisagem poderíamos ter visto mais aves, então não pedi pra gente ficar parando, muita coisa está só na memória. Mas eu sei que há milhares de fotos pra serem feitas.

Quando você for pro Nordeste, tente conhecer uma área de Caatinga. Leve uma câmera, mesmo que seja só o celular, e se disponha a ignorar o calor ou qualquer desconforto do tipo, prepare-se pra ser inundado pela beleza.

O Nordeste deve ser a área mais injustiçada da história do Brasil. Mesmo antes de voltar pra São Paulo, vontade grande de ajudar a reverter pelo menos um pouco. Não o Nordeste com os resorts de diárias de R$ 1.500, dos bugs dirigidos a alta velocidade por garotos bêbados, não o Nordeste onde tantas mulheres são assassinadas. E sim o Nordeste onde, contrariando todo o mal que já fizeram, a beleza ainda sobrevive em fragmentos, em que jovens cientistas acordam às 3h30 para ir a campo coletar dados, escrevem artigos, e tudo que conversamos é sempre permeado pela visão de bondade, tolerância, pacifismo, humildade, auto-crítica, e uma grande vontade de mostrar pro mundo o quanto a terra deles é bonita.

Em breve faço relato da viagem e linko.

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Este pequeno artigo fala um pouco sobre a Caatinga: http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2012/03/animais-vitimas-do-trafico-sao-libertados-na-floresta-da-caatinga.html

“A caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Ao longo da vida, da história da gente, a gente sempre associou a caatinga à pobreza humana, como se o ambiente também fosse pobre. Só que a caatinga é um ambiente extremamente rico, de uma biodiversidade que a gente não conhece, com uma possibilidade de uso biotecnológico estúpido e que a gente nunca aproveitou”, diz a bióloga Márcia Chame, da FIOCRUZ e FUMDHAM.