100% feliz

Hola, meu amigo

Não sei por que você diz que eu faço um mau julgamento seu. É porque eu te sugeri tentar ser feliz em 2018? E você fez questão de me dizer que é feliz, que já sofreu mas que agora está tudo bem, que você age de forma normal, que curte a vida e aproveita ao máximo tudo etc?

Peço desculpas se te chateei com as minhas palavras, e saiba que não vou te encher o saco, não vou escrever pro seu email, e este é o último post pra você (caso você não queira mais conversar).

O que é ser feliz?

Pra mim ser feliz significa viver sentindo satisfação, tranquilidade, orgulho, alegria, sentido, conviver com pessoas que você ama e que te amam, passar bastante tempo fazendo o que você gosta e pouco tempo o que você não gosta.

Eu me aposentei em 2011. Desde meados de 2011 tenho essa vida de conto de fadas de fazer só o que eu quero, ter só as obrigações que eu escolhi. Faz muitos anos que vivo em lua de mel com o Cris e o Daniel. Não tenho problemas sérios de saúde, não tenho ninguém próximo com algum problema grave de saúde, viajo bastante, não sou nem dona de casa porque tenho empregada duas vezes na semana. As obrigações com meu enteado são poucas. Não tenho gato, cachorro, plantas pra cuidar, meu tempo é muito meu faz anos.

Ainda assim no final de 2013 eu estava vivendo uma crise existencial. Sou feliz faz anos. Mas ninguém é estático, mudamos o tempo todo, e a felicidade não é um bloco de concreto e sim algo fluido. No final de 2013 eu estava me perguntando se vivia minha vida de forma errada. Se o fato de ter poucos amigos, não badalar, me exasperar com o tipo de conversas rasas em redes sociais ou eventos significam que eu devia procurar tratamento ou, no mínimo, mudar meus valores, parar de valorizar solidão, isolamento. Também tinha finalmente percebido que meu principal grupo de amigos, que eu conhecia há anos, não me convidavam mais pra sair, era só eu que os convidava (dando jantares na minha casa – sou besta, eu sei), e eu ficava pensando seu eu sou chata e sem graça.

No início de 2014 conheci dois novos amigos. De repente. Em poucas horas de convívio passamos a gostar muito uns dos outros e depois disso nos vimos várias vezes. Era uma amizade com um certo prazo de validade. Eles estavam pra engravidar (cada um com o seu respectivo cônjuge), crianças pequenas trazem muitas mudanças. Eu sabia que em menos de um ano a gente não teria mais os diversos passeios de manhã, as happy hours, jantares.  Às vezes eu pensava nisso e dava uma ponta de dor no coração, mas aproveitei.

No início de 2014 também descobri a misantropia. Já tinha ouvido o termo sempre de forma negativa, foi a primeira vez que alguém me chamou de misantropo “não sei se esse trabalho daria certo com a Claudia, ela tem umas restrições de grupos, contato com gente”, “ah, não se preocupe, o fundador da ONG também é misantropo, tenho certeza de que há funções que respeitam isso”.

Fiz a tal pesquisa que muita gente faz. Misantropia. Encontrei o baudasvariedades e outros blogs. E plin, adeus crise. Parei de ficar pensando que eu estava seguindo o caminho errado, que meus valores são errados, que é errado gostar de solidão.

 

Eu sou feliz a maior parte do tempo. Quando encontro com gente que não vejo há meses ou até anos, mas que sabem da minha condição de aposentada, e me perguntam “como você está?”, às vezes eu olho e falo “bom, você sabe… aquela mamata de sempre”. Eu viajo muito, no ano passado foi o ano em que mais viajei. Fui pra Áustria, Espanha, Nova York, Pantanal, África do Sul, Amazônia, Austrália. Na verdade, em geral nem falo disso. Não posto em Facebook, não conto no grupo de WhatsApp dos primos todas as vezes em que estou viajando. Quando alguém me pergunta como estou, em geral conto só um pedaço bem pequeno e nunca falo de todas as viagens que tenho feito, porque me sentiria esnobando.

Mas você acha que eu sou feliz o tempo inteiro?

Alguém poderia dizer que com a vida que eu tenho, eu deveria ter obrigação de ser muito feliz o tempo todo, e que se eu não sou, é porque sou uma babaca, idiota, não sei aproveitar.

Talvez seja verdade.

Mas tudo que posso lhe dizer é que não sou feliz o tempo todo. Tenho vários dias de me sentir sobrepujada por notícias de portal, especialmente as relacionadas com vitórias ruralistas e evangélicas. Tem dias que sinto tanta raiva das caixas de comentários sobre os temas feministas que tenho que escrever um post sobre o assunto. Tenho tantas dias que senti raiva, indignação, exaspero, desgosto, indiferença pela comunidade birdwatcher. Tem dias que brigo com o Cris, e algumas brigas não foi uma questão de uma discussão, mas de dias vociferando, e numa delas eu falei de separação. Tem dias que acontece algum problema em Limeira. Tem os finais de semana com obrigações com a família do Cris, e alguns deles eu já tive que gritar baixo no carro assim que ficamos só nós. Tem dias que estou só entediada. Tem dias que por algum motivo que nem sei o que é, em vez de me concentrar nas minhas ilustrações, ou leitura, ou escrita, fico dando refresh no gmail, em portais de notícias, vendo o que aparece no WhatsApp – e sei que isso é errado, é sinal de alguma inquietação. Tem dias que pego meu baralho de Tarot e fico fazendo perguntas diversas, só pra passar o tempo.

No ano passado meu melhor amigo se mudou de São Paulo. Eu não posso mais mandar uma mensagem e ir almoçar com ele. Uma das minhas amigas mais queridas mora em outro país. Meus dois amigos queridos, os que conheci em 2014, vejo de vez em quando, mas não pudemos mais fazer os passeios uma manhã toda, um dia inteiro.

Eu tenho um ticket dourado, mas se minha inquietação crescer, vou ter que sair da torre e me dispor a conhecer novos amigos.

 

Ninguém que aparece no meu blog está se sentindo 100%. Se estivesse, não estaria no meu blog, e sim lendo sobre restaurantes, receitas de drinks, viagens.

Eu raramente estou 100%, provavelmente nunca estarei. Mesmo tendo essa vida de contos de fadas, meu bruxismo continua. Eu tenho que dormir todas as noites com duas placas na boca. Já tenho um implante porque consegui rachar um molar e, mesmo dormindo com a placa, no ano passado quebrei uma cúspide. Tenho problemas digestivos, talvez uma pedra na vesícula, fiz cinco ultrassons e foi inconclusivo, ela apareceu em dois deles, não nos outros três. Passo mal com comida gordurosa, mas às vezes também passo mal de ouvir, ver ou ler coisas que me desgostam. Já tive gastrite e hipoglicemia, doenças associadas com estresse. Meu dentista acha que eu tenho bruxismo desde o 6 anos. Acho que faz tempo que eu sei que viver dói.

Se eu me sentisse sempre 100%, não blogaria.

 

Você me falou que te julguei mal, e me parece que não gostou de eu ter te sugerido ser feliz em 2018, porque você já é feliz.

Tudo bem.

Mais uma vez, peço desculpas pelo o que escrevi.

Mas se algum dia você achar que devia dar mais atenção pro ódio e os momentos de solidão, e ainda não quiser procurar ajuda de um profissional como um terapeuta, saiba que faz muita diferença na vida ter alguém com quem se abrir. Você falou que tem amigos e tem amores, e te julguei mal. Acredito em você. Mas talvez você precise dar um passo a mais com seus amigos e amores, ou encontrar outros amigos com quem possa se abrir. Não ter com quem se abrir, com quem você pode falar qualquer coisa inclusive os pensamentos que você mal consegue formular em palavras, cria uma tremenda panela de pressão dentro da gente.

Você já viu o The Mask you Live in? Documentário sobre o machismo nos Estados Unidos, as condições culturais que criam meninos, adolescentes, homens violentos. Tem no Netflix. Por que estou falando disso? Não porque ache que você é machista ou violento. Mas porque eu tenho certeza de que faz mal ter que sempre se apresentar como um rochedo e não poder falar sobre o que você sente.

Espero que um dia você entenda que ser fechado e não se abrir pra ninguém não é detalhe pequeno.