Coincidências e intuição

Minha mística de meia tigela, e os maldosos podem dizer que estou apenas procurando uma justificativa pra ser desorientada, mas juro que vejo acontecendo.

Eu tinha trocado emails com uns espanhóis que pediram algumas informações de lugares para passarinhar. Daí no sábado, indo pra Campos do Jordão, resolvi passar pelo arrozal de Tremembé. Estou lá numa estrada de terra, cruzo com um carro no sentido contrário, o carro tem um casal. O carro passou por mim e voltou, pediu pra abaixar o vidro e me perguntam: “desculpe. Você é a Claudia Komesu?”

Me reconheceram pela fotinho do Gmail. A mulher, Vega, disse que foi o Manoel que falou “acho que aquela era a Claudia Komesu”, “não, não pode ser, o que ela estaria fazendo aqui?”, “mas eu acho que era, e olha como ela está dirigindo devagar, deve estar vendo aves”, e daí decidiram voltar e me perguntar.

Ainda saindo de São Paulo eu errei uma indicação do GPS, segui reto em vez de virar, e isso me causou uns minutos de atraso. E na estrada decidi não parar num posto pra almoçar, e sim comer depois. Tudo pra dar o timing certo de encontrar com os espanhóis.

Papeamos um pouco e disse que ia mostrar pra eles uma área legal, “me sigam”. Mas faz tempo que não vou lá, e de novo fui pro lado errado. No rodovia virei à direita em vez de esquerda, andei umas centenas de metros e reconheci que estava indo pro lado errado, voltamos. E essa voltinha foi o timing exato pra dar tempo do irmão do Marco Crozariol chegar, quando estávamos pra ir embora porque não achamos alguém pra nos autorizar a entrar na propriedade. Se eu não tivesse dado a volta errada, poderíamos ter ido embora uns minutos antes dele chegar.

Teve um passeio na França, que eu e o Cris não sabíamos se estávamos longe do ponto onde queríamos chegar, se a gente deveria continuar ou voltar. Ficamos alguns minutos parados olhando pro chão. Foi o tempo de aparecer uma senhorinha, com um mapa na mão, pedimos informações “é fácil, vocês estão perto, vale a pena ir, pode ficar com o meu mapa”.

E também contei daquela vez que fui pro Fleury, errei o caminho, levei 15 minutos em vez de 10, e foi o timing exato pra na saída, na hora de passar pela lanchonete, dividir a mesa com a mulher que acabou me contando que estava em tratamento de câncer, que detestava o trabalho mas não podia sair por causa do plano de saúde etc. Que depois eu dei um abraço nela, e tive certeza de que meu atraso era só pra dar esse timing.

Essa viagem pra Manaus não estava nos planos. Os planos eram ir pra Ilhabela fazer fishwatching, já tinha até alugado uma casa de Airbnb. Mas, troquei umas mensagens com o guia, gostei dele, pensei “por que não?”, e marquei. Deu tudo tão certo, foi tão bom que curou meu trauma de Amazônia brasileira.

Não encontro a citação exata, mas há uma história sobre uma mulher que contava a Joseph Campbell sobre uma viagem que faria pra Grécia, descrevendo com detalhes todo o roteiro. Campbell se irritou, e perguntou como ela teria chance de se conectar com o divino se tudo estava tão esquematizado?

Acredito que há um fluxo com o qual podemos nos conectar se a gente se permitir. Fazer coisas sem saber o motivo, sem ter certeza, errar ou fazer coisas atrapalhadas e depois entender o sentido daquilo.

Talvez não exista nada disso. Meu misticismo é tão de meia tigela, que além de eu não seguir nada, nenhum grupo, nenhuma crença, eu também não sou capaz de jurar que existe. Tem o lado racionalista que vai dizer que as coisas que aconteceram são apenas eu dando sentido após os acontecimentos. Isso também é uma das possibilidades.

Mas acredite: a vida é bem mais divertida se você decide acreditar que coincidências não existem, que tudo faz sentido, e que quanto mais consciente dos eventos, mais você se conecta a esse fluxo.

Blogando: visões da ayahuasca e o reencontro com as criaturas fantásticas, nov/17, por Claudia Komesu

 

Todo mundo gosta do inesperado

Claro, estou falando do inesperado do bem, não do inesperado do mal.

Um amigo da faculdade se dizia encantado como nos filmes você está na sua casa, de repente tocam a campainha e é um amigo te convidando pra ir passear, ou a garota que você secretamente admira, mas não tem coragem de falar com ela, vindo te pedir ajuda. E que esse tipo de coisa nunca acontecia com ele.

Obviamente.

Moramos em São Paulo, acho que é impossível mesmo. Mas quando eu morava em Limeira às vezes meus amigos apareciam na minha casa, desse jeito mágico. Sem ligar, sem ter avisado que iam. A pessoa simplesmente toca a campainha da sua casa e passa a tarde com você ou te convida pra fazer alguma coisa.

Sei que hoje em dia deve ser impossível alguém não mandar um WhatsApp pra confirmar se a pessoa está em casa, se quer. Mas, acredite, a era pré-celular tinha suas vantagens. O inesperado do bem é algo mágico.

Meu semideus das frivolidades internéticas, com quem passei um bom tempo bodeada pela desuminanidade e machismo, mas que está passando, já me imagino vendo-o de novo e na diversão de tentar extrair diálogos humanos dessa criatura, nos conhecemos há… talvez uns 10 anos, mas nos aproximamos porque um dia ele decidiu me fazer um convite. A gente nem era tão próximos, mas ele simplesmente me escreveu e perguntou “quer vir pro lugar tal, ver a ave tal?”. Era uma ave bem rara, mas o lugar ficava na PQP, aquelas coisas que exigem um voo e mais 4h num ônibus. Primeiro falei que ia. Depois falei que não ia, mas pedi por favor pra ele me convidar pra alguma outra coisa mais perto, que eu iria. Um tempo depois surgiu a oportunidade de ir passarinhar com ele num lugar que exigia só um voo curto,  ele ia me pegar de carro no aeroporto, então eu fui. Foi bem divertido e com momento mágico — poder fotografar um beija-flor incomum maravilhoso nos últimos minutos de luz do dia, o bicho de frente pra mim, com as penas iridescentes, aquela luz de fim de tarde e uma revoada de aleluias.

No feriado de 2 de novembro eu estava em Manaus, eu e o Cris, indo passarinhar com um cara que eu nem sabia qual era o rosto. Eu só tinha uma noção de reputação de gente competente, trocamos alguns emails e eu gostei dele a ponto de falar “você pode ser meu guia no feriado de 2 de novembro?”, e ele podia, apesar de estar nos dias finais da entrega da tese do doutorado. Devo escrever sobre a viagem, mas posso dizer que também foi mágico. Curou meu trauma da Amazônia brasileira (viagem traumática em 2011), o cara é uma pessoa incrível com uma tatuagem linda no braço à altura das coisas que ele viveu. E teve momentos pros meus diálogos silenciosos com a Mãe Terra e pra pensar nas visões da ayahuasca.

Umas semanas antes eu tinha ido pra …. passarinhar e conheci outro cara super-legal, desses que você consegue passar dias conversando. Um dos momentos lindos foi saber que ele era um pai esclarecido. Ele tem uma filha adolescente, linda, conheci a menina. Ele é separado, a filha mora com ele, a mãe nunca foi presente, mesmo quando ainda moravam juntos. Quando a filha fez 14 anos ele a levou numa ginecologista, e pediu pra ginecologista falar pra ela sobre sexo e DSTs, ele estava junto. E depois falou pra ela “você entendeu tudo? Eu não vou ser hipócrita de achar que você não vai fazer sexo, todo mundo faz. Mas você tem que se cuidar. Se você pegar uma DST, vai ser doído, e é você que vai sofrer. Se você engravidar, você é quem vai ter que cuidar do filho. Não vou te proibir de fazer sexo, só quero que você seja responsável”.  Eu tinha contado pra ele que sou feminista, e adorei saber dessa história, falei que o mais comum é pai ter ciúme, fazer de conta que a filha não cresceu, e que ele merecia os parabéns pela visão feminista.

— x — x

sou uma misantropa na torre e com ticket dourado. Mas sei que as pessoas são lindas e há beleza em todos os lugares, e que não é difícil se conectar com isso.

É fácil sair da torre, ir pro mundo, e não é pra ir pra festas ou outros tipos de tortura, mas pra passar umas horas ou alguns dias na companhia de pessoas de verdade, com histórias de vida incríveis.

E qualquer um pode fazer isso. Ir pro mundo e conhecer gente que vale a pena. Não precisa ser o amor da sua vida, nem o crush, nem mesmo um amigo — essas coisas dependem de muitas variáveis posteriores. Mas tenha certeza de que é fácil conhecer alguém e ter algumas horas (ou no meu caso, nos passeios pra ver natureza) alguns dias de conversas bem legais.

Entra na vibe.

Faça propostas inesperadas pras pessoas, e esteja aberto pra receber propostas inesperadas. Deixa a magia entrar na sua vida.

Pra você que está cansado das notícias sobre denúncias de abusos, racismo, humilhações etc

Você acha que já deu essa história de todo mundo ficar denunciando qualquer apalpada, brincadeirinha, tirar a roupa e se masturbar na sua frente, falar que é coisa de preto, mandar adolescentes transarem ou tentar transar com adolescentes e outras chatices?

Senta e chora, porque não vai parar.

Bem-vindo ao mundo real.

Se você nunca se sentiu humilhado, constrangido, ameaçado por desconhecidos ou colegas e acha que as notícias sobre as denúncias dessas situações são só uma aporrinhação sem fim, tente, apenas tente, pensar no seguinte: se é chato ler notícias, imagine como é viver a situação.

Você tem ideia do que é desconhecidos ou colegas se acharem no direito de te falar qualquer bosta, te xingar, pegar no seu corpo, ou colocar o pau pra fora e bater punheta na sua frente — só porque eles sabem que não há punição pra isso, e eles podem fazer o que quiserem?

Tenta imaginar o que é ser negro e ser tratado com desconfiança ou desprezo em várias situações, não importa o que você faz. Tenta imaginar o que é não ser heterossexual e ter pessoas que xingam, espancam e às vezes matam só porque você não pensa como elas. No caso das lésbicas, já ouviram falar da cura? Mulheres estupradas sob o argumento de que vão “curá-las” e elas vão se tornar hetero?

Tenta imaginar o que é ser criança e depois adolescente, ter feições orientais e ficar tensa todas as vezes que você vai passar por homens ou garotos, a espera do momento em que eles vão te seguir andando do seu lado, puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles acham que soa como chinês, ou passam por você e gritam “banzai!”, “japoronga”, “japonês gosta de arroz, néeeeee”, ou as coisas como “gostosa”, “tesão”, e os sibilos e olhares nojentos. Eu menstruei com menos de 11 anos, aos 12 já tinha seios e tinha que lidar com essas situações todos os dias na volta da escola.

Faz mais de 20 anos que moro em São Paulo, onde ninguém mexe com você por ser oriental, e é raro mexerem com mulheres usando roupas comuns. Mas foram muitos anos pra parar de ficar tensa quando tenho que passar por homens na mesma calçada, e meu cérebro desenvolveu algo que talvez eu nunca perca: uma incapacidade de reparar no rosto das pessoas quando estou andando em lugares públicos. Eu sentia tanta raiva e vergonha, não queria ficar com o rosto daqueles homens na memória, então andava nas ruas como se essas pessoas não existissem, olhando pros carros, árvores, casas — mas nunca pra rostos. Até hoje sou capaz de passar do lado de um amigo meu, e se ele não falar comigo não o verei.

Pensar nessas coisas ainda dói, ainda trazem lágrimas. Parece que é coisa do passado, mas vi que não é, aquela história de dois anos atrás quando o condutor do nosso bote de rafting fez uma piada sobre japonês ser tudo igual, e eu fiquei triste na hora, e depois chorei várias vezes em casa e ainda choro agora. E isso é só um bullying leve. Tente pensar no que os negros e gays passam, todos os dias. Tente pensar no que as mulheres passam, todos os dias.

E o Rodeio das Gordas, sabe o que foi? Unesp de Araraquara, em 2010: “no ‘rodeio das gordas’ os alunos se aproximavam das garotas fazendo perguntas, como se fossem paquerá-las. Depois, agarravam as garotas, de preferência obesas, e tentavam ficar sobre elas o máximo de tempo possível, como se estivessem em um rodeio. Ao menos 50 estudantes participaram do ‘jogo’.” http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/05/envolvido-em-rodeio-das-gordas-tera-que-desembolsar-30-salarios-minimos.html

Bom exemplo do que o ser humano pode fazer quando acha que tudo que importa são os risos e a diversão (dos abusadores).

Se você é do tipo que fala “ah, esse assunto já deu”, tente imaginar ter uma filha, que corre o risco de ser abusada ou estuprada numa festa, na escola, pelo chefe, por um desconhecido. Ou xingada e humilhada se ela não estiver dentro de um padrão estético. Ou assassinada por um ex-namorado ou um garoto com uma paixão doentia e não correspondida.

Tratar os outros como coisas e não como pessoas cria tentáculos malignos, que vão além muito além da chacota e humilhação verbal.

Talvez um dia os abusadores parem de abusar porque entendem que estão machucando o outro. Mas por enquanto, que eles parem de abusar por medo de serem punidos.

 

Convide alguém pra sair

Pra qualquer um que esteja procurando companhia, e pra qualquer misantropo que ainda não tem ticket dourado: convide alguém pra sair. É simples assim: quer companhia? É bem mais fácil se você agir pra isso. Conhece alguém que pode ser interessante, quer saber mais sobre a pessoa? Manda uma mensagem e convida pra fazer alguma coisa. Seja uma exposição, um passeio, conhecer um boteco ou um food truck, street photography. Primeiro encontro não precisa ser jantar romântico, cinema com pegação, balada.

Convide. Talvez a pessoa não possa, por ene motivos, mas seu convite deixa claro que você gostaria de passar mais tempo com ela, e se ela tiver algum interesse por você, ou ela vai, ou então ela dirá “desculpe, neste sábado não posso porque x, mas podemos marcar pro dia tal?”.

É simples assim. Juro.

“ah, e se ela/ele não gostar de mim e ficar ofendido com o meu convite, e depois vai falar pros amigos e vão ficar rindo de mim”, gente do Céu, se o objeto do seu interesse for babaca assim, sorte sua descobrir isso mesmo antes de um primeiro encontro. Que tipo de adulto faz um carnaval ou uma tempestade só porque uma outra pessoa convidou pra fazer alguma coisa?

Sobre o que eu falo?

Quase todo mundo tem algo em Facebook, ou Twitter ou blogs ou Instagram, e se você está interessado na pessoa, deve ter feito alguma pesquisa, então tem ideia dos temas. Converse, papeie, sem decoreba demais pra não parecer serial killer. Fale olhando nos olhos da pessoa, faça perguntas diretas do tipo “por que você escolheu tal coisa?”, “o que você acha de tal assunto?” – e repare se o outro também é capaz de fazer perguntas sobre você, se o outro só fala de si e não te faz nenhuma pergunta, descarta.

Hoje é sexta, antes das 13h. Ainda dá tempo de fazer algo no fim de semana. Convide alguém pra sair.

Saber sobre o que você é boa, tirar selfies, ser capaz de dançar sozinha

Passei como lição de casa pra uma amiga com quem almocei nesta semana. Estava contando pra ela sobre uma conversa com uma outra amiga que tem um defeito comum a muitas pessoas, principalmente mulheres: incapacidade de reconhecer suas qualidades, especialmente as grandes.

Essa amiga com o tal defeito é uma super-especialista numa determinada área. Quando falei “você tem um grande conhecimento e experiência”, ela nem deixou eu terminar a frase, me cortou pra falar “tenho nada”. Eu “repara no que você acabou de fazer. Você nem deixou eu terminar de falar, tem algo dentro de você que te impele a negar que você tenha, mas o fato é que você tem, ou o tal fulano não teria te convidado pra participar do grupo de trabalho”.

Você é assim também? Nega que seja muito boa em alguma coisa? Se você faz isso, tem que mudar.

Sei que a gente tem horror a soar arrogantes, e provavelmente também temos uma insegurança de nos imaginar questionadas, ou verbalmente atacadas. Mas combata isso. É mais uma fraqueza pra gente se livrar.

Sabe como você aprende a lidar com situações desconfortáveis? Lidando. É uma mistura de alimentar o conhecimento sobre si, sua autoconfiança, e também ir pra arena brigar.

Já contei pra vocês que sou boa de briga (dentro dos limites da civilidade. Não sei lidar com a violência gratuita, ou o foda-se o que eu prometi, não vou fazer e pronto… mas acho que se tivesse que lidar com essas coisas com frequência, aprenderia técnicas brutas). Mas pra argumentar não tenho problemas, mesmo quando pego pessoas tensas, no agressivo-defensivo, irônicas. Quem me deu clareza sobre isso foi o Cris. Estávamos discutindo porque ele me disse que eu fico ansiosa demais com idas pra aeroportos, e eu tentando explicar que não sou ansiosa, eu sou é traumatizada (de tantas vezes que quase perdemos, ou que perdemos mesmo um voo, e mesmo assim o Cris insiste em não querer chegar adiantado), e ele tentando me convencer de que eu sou ansiosa sim, e daí, todo mundo é ansioso por algum motivo, que por exemplo ele ficava ansioso quando tinha uma reunião com pessoas possivelmente hostis, mas que isso não era um problema pra mim.

E eu pensei que era verdade. Não sobre eu ser ansiosa, isso eu vou continuar defendendo que é trauma, mas sobre em geral não ter medo ou preocupação de lidar com qualquer grupo (dentro dos tais limites). Leio artigos que contam as dicas do FBI sobre negociações sob tensão, e acho tudo óbvio.

Como fiquei assim? Desde a adolescência lembro de diversos embates verbais, às vezes com plateia, às vezes com crueldade das frases de efeito, só pra fazer a plateia rir. Depois que fui pra faculdade, e comecei a frequentar chats (o início da internet, 20 anos atrás), eu também participava de diversas discussões, inclusive com gente hostil. E depois quando comecei a namorar o Cris e a gente brigava tanto no começo, tanto, mas tanto… Sei lá. Me sinto temperada a ferro e fogo. Sem medo.

É uma habilidade que recomendo a qualquer um cultivar. Saber conversar e não fugir de situações difíceis é uma grande vantagem.

Poderia dar uma lista de coisas que eu sou muito boa, mas não é o caso do post de hoje. Vou só continuar explicando sobre a lição de casa pra minha amiga.

Os selfies fazem parte da nossa confiança sobre quem nós somos. A gente precisa ter uma imagem sobre quem a gente é, e se não tirarmos selfies, como disse o guruzinho (que também estava no almoço), ficamos sujeitos às imagens que os outros tiram da gente. E a maioria das pessoas não é fotogênica o tempo todo, mesmo gente linda pode ser pega num ângulo ruim, ou mastigando, ou numa pose estranha.

Precisamos dos selfies. E nem precisa compartilhar em Facebook ou Instagram, fotografe pra você, pra fortalecer o seu amor por você.

Peguei meu celular e mostrei vários selfies, e fotos com o Cris e o Daniel, e essa minha amiga soltava exclamações “oh, que lindos”, e estávamos lindos mesmo. E eu não sou linda. Mas numa foto com luz boa, e na companhia de pessoas queridas, posso ficar linda, e essa é a imagem pra eu guardar e cultivar como uma auto-imagem.

Essa amiga me contou que ainda não consegue dançar sozinha. Acho que foi uma outra lição de casa que eu tinha passado. Está tudo relacionado. Contou que tem vergonha de tirar selfie. Que não consegue dançar sozinha. E que não consegue xingar, gritar, ou falar palavrão. Que ela só grita um pouco de susto, mas que nunca gritou de raiva. Perguntei se ela já tentou o “porracaralhoputaqueopariu” quando está brava, ela falou que não consegue, porque é muito feio falar palavrão. Falei pra ela que eu também não costumava falar no dia a dia, mas que às vezes só um palavrão expressa nossa raiva ou frustração, e que se negar isso é um mau sinal, como se ela precisasse manter uma imagem de alguém muito perfeitinha. Ela entendeu, e disse que vai tentar. Não garantiu sobre os palavrões, mas que vai tentar falar pra si sobre o que ela é boa, tirar selfies, e conseguir dançar sozinha.

Não tenha medo de quebrar a cara

Quem acompanha o blog sabe que a neurociência é minha nova queridinha. Mesmo que não acompanha, o resumo é: você tem controle de muita coisa. Pros sentimentos por exemplo, não existe nada inato, é tudo cultural. E tudo que é cultural é aprendível e desaprendível. (A neurociência não fala isso, esta parte é a extrapolação minha, típica de gente que cresceu vendo Hollywood, adoras o EUA e a ideia de que temos controle sobre nossas vidas).

Mas realmente há uma parte da neurociência que diz que nossos sentimentos são coisas que a gente aprende.

Ora.

Eu acredito nisso.

E acredito de verdade que somos capazes de dosar o peso das coisas na nossa vida. Nossos pensamentos, nossos valores, nossas decisões moldam nossa realidade. Temos uma boa dose de controle com o quanto sofremos por alguma coisa.

Por exemplo, eu e o Cris já passamos por vários perrengues em viagens, de comprar passagem pro dia errado, de não poder embarcar porque faltou um documento, de quebrar o barco e ficar 2h sob um sol escaldante, de atolar o carro numa estrada com pouco movimento, estar sozinha no Kruger e furar o pneu numa estrada com pouco movimento, de sermos achacados pela polícia corrupta do México, que queriam levar US$ 800, do Cris perder a carteira com todos os cartões, de sermos azucrinados pelo controle de passaporte em Amsterdã, e depois ter que correr, correr mesmo, pelo aeroporto todo pra não perder nosso voo – várias histórias, e nenhuma delas deu um tom negativo pra viagem. Não ficávamos reverberando isso, entende?

No caso dos relacionamentos amorosos, acredite em mim, as coisas são simples assim:

– Você aprende a gostar de você, você entende que você é uma pessoa incrível, e se você ainda não se considerar uma pessoa incrível, você vai trabalhar pra mudar isso, seja cuidando da sua aparência, seja aprendendo mais sobre quem você é, tendo a porra da sua lista de qualidades, escrevendo sobre você, sabendo contar uma história bonita sobre quem você. Cultive auto-confiança.

– Você também vai cultivar a compreensão de que viver só se aprende vivendo, que a gente tem que viver e experimentar. Se der certo, deu, se não deu, vai aparecer outra oportunidade. Se não dá certo, depende de você o quanto você sofre com aquilo.

– E pros misantropos, então, como sempre apelo pro argumento da inteligência: pense o quanto é algo banal não dar certo. Quer dizer, é claro que pode dar muito certo. Mas pensando no worst case scenario. Se não der certo? Não deu, tudo bem, era uma das coisas possíveis de se acontecer.

– Eu insisto tanto sobre cultivar a certeza de que somos todos pessoas incríveis porque isso é uma força, isso nos ajuda muito a nos arriscar e a não ter medo de dar errado. Quando você tem confiança sobre quem você é, não é que você nunca vai quebrar a cara. E sim você sabe que tudo bem quebrar a cara. Que às vezes dá certo, às vezes não dá. E se alguém não quiser ficar com você, não significa que você é uma pessoa desprezível, feia, ruim ou sei lá o quê. Apenas não deu certo.

Todo mundo (que não tem o tal ticket dourado) tem que viver e experimentar. E fica bem difícil viver e experimentar se você fica alimentando receios de ser julgada, de se dar mal, de se machucar.

Querida nação misantropa: a gente entende muito de dor. Desde criança sabemos o que é a dor de se sentir diferente, à parte, excluído, errado, pária, sempre pensando demais e consciente demais. Algumas pessoas, como eu, passaram um tempo considerando a possibilidade de se matar.

A dor de levar um fora, de quebrar a cara, é apenas outra dor. E a gente não precisa ter medo da dor, ou do conflito, ou de discussões. Porque nós somos incríveis, e sobrevivemos a qualquer uma dessas situações. E somos inteligentes, e vemos o quanto aprendemos a cada situação vivida.

Todo mundo que não tem o ticket dourado precisa se relacionar e experimentar. Se ajude. Livre-se do medo de não dar certo. Se não der certo, se doer, é só outra dor. Você não precisa ter medo da dor. Você é forte. Passa. E sempre será uma pessoa melhor depois disso.

Sobre o ticket dourado: ando me pavoneando por aí, como se estivesse carregando um jarro de terra (coisas de cultura pop, Piratas do Caribe), e me vejo obrigada a comentar. Meu ticket dourado é o fato de eu estar casada há 13 anos, um relacionamento que parece ser pra vida toda, com um homem que eu adoro conversar, com quem adoro passar meu tempo, com quem tenho tantos interesses em comum, e que também me adora e também não imagina a vida dele sem mim. Além do Cris, tenho o Daniel, meu enteado, que conheço desde que era pequeno. Tenho alguns amigos muito queridos e totalmente confiáveis. Vivo em paz com minha família. Não preciso trabalhar, ou melhor, não preciso ganhar dinheiro, só trabalho com as coisas que eu quero. Viajo com frequência, adoro meus dias, e tenho vários dias que nem saio de casa (apesar de conversar com pessoas por email, blog, WhatsApp, Facebook). Não tenho carências. É o ticket dourado da misantropia, e antes de chegar aqui, tive vários relacionamentos, o suficiente pra ser quem eu sou. E quando penso em algumas pessoas queridas que fazem umas coisas bem idiotas, um dos padrões que vejo é o fato dessas pessoas não terem rodado quando tinha 20 e poucos. Tenho certeza de que isso faz muita diferença na vida. Por isso insisto sempre nesse ponto: se você é solteiro, seja misantropo ou não misantropo, tenha experiências, se relacione, se dê bem ou se dê mal. É o melhor jeito de evoluir como pessoa.

Sobre a chatice misantropa, e a necessidade de quebrar a imagem de autossuficiente

—– voltei pra este post umas horas depois e acrescentei um pedação no final. Sexta-feira 17h30, se você leu antes disso, talvez queira ver a nova versão, marquei com fúcsia (minha cor favorita por causa do nome tão legal).

Oi querida …, sempre gosto das suas perguntas. Pra variar vou responder pelo blog porque acho que pode ajudar outras pessoas.

Não imaginei que contar sobre minha irritação em ficar ouvindo “daí a gente viu a onça (…) e a onça” fosse render tanto. Quem primeiro falou do texto, a querida …, acho que a questão da chatice dela é… nem sei o que é, não consigo imaginá-la sendo chata. Ela não é misantropa, é só alguém muito sensível, ligada com a literatura, a música. E fiquei contente de pensar que posso ajudá-la a se expressar mais, a se preocupar menos em ser desagradável ou falar algo que os outros não vão gostar, a não ter medo do conflito.

Mas a chatice misantropa é outra história.

Não é certo deixar alguém querido e próximo, por exemplo, o namorado ou marido ficar falando “você é muito difícil, você é uma pessoa difícil”. Eu cortei essa do Cris porque isso é um caminho perigoso. Acredito de verdade que nossos pensamentos determinam o jeito como a gente vê as coisas e nossa realidade, e alimentar o “você é uma pessoa difícil” enfraqueceria nosso relacionamento, quem sabe levasse a uma separação. Então, pela saúde do nosso relacionamento eu falei “você não alimenta esses pensamentos sobre eu ser difícil, e eu não alimento os meus sobre os perrengues de você ser disperso, distraído, atrapalhado”.

Mas se nós misantropos somos chatos? Somos muito chatos. Essa história de pensar em tudo, de estar consciente de tudo, de perceber as intenções dos outros quando nem eles mesmos percebem o que transparece nas palavras, nas entonações… essa história de querer racionalizar tudo, inclusive presentes ou gentilezas, é uma chatice sim.

Minha mãe tem uma loja de roupas e ela sempre insistia pra eu pegar alguma coisa, mesmo eu falando que não precisava. Teve um fim de ano que limpei o armário e levei as coisas pra lá, ela tem conhecidas que recebem doações de roupas e sapatos pra bazar de igreja. Daí ela viu várias roupas que tinha me dado, com pouco uso, nessas sacolas, e ficou chateada. Mas também nunca mais insistiu pra eu pegar algo, e se o assunto surge, ela fala algo como “não, eu sei como você é chata pra roupa”.

Teve uma época que eu fotografava sempre com a câmera no tripé e, durante os passeios, os guias que eu contrato se ofereciam pra carregar minha câmera com tripé. Nunca deixei. Meu tripé é leve (mas as pessoas não sabem disso, elas só olham aquele trambolho e ficam aflitas), eu dizia “não se preocupe, meu tripé é leve, eu consigo carregar. No dia que não conseguir mais, troco de equipamento, mesmo que seja pra usar compacta). Num dos meus últimos passeios, eu levei o tripé, mas estava com a câmera numa alça no ombro, e o guia que estava comigo falou que levava meu tripé. Eu deixei. Porque era algo leve (diferente se fosse o tripé com a câmera), e porque eu sabia que ele queria fazer essa gentileza.

Você não faz gentilezas pros outros? Eu carrego sacolas pra minha sogra, abro e fecho porta do carro. Teve um passeio de barco que eu fui a primeira a descer, mas fiquei ao lado do barco, estendendo a mão pros outros. Ajudei um amigo meu e depois a noiva dele. Já escrevi sobre isso, adoro essa história, porque ela falou “obrigada. O Marcelo é tão cavalheiro, sempre me deixa pra trás”, e eu falei “sei como é”, e quando contei essa história pro Cris, ele falou “O QUÊ??? Eu não sou cavalheiro???”, e eu falei “não é”. E nas três semanas seguintes ele prestou atenção em mim, pra pegar sacolas da minha mão, chamar o elevador e abrir a porta (algo que sempre eu que faço). E depois esqueceu e voltou a ser como é 🙂

Fazemos gentilezas uns pros outros, e você devia aceitar a gentileza dos outros. Não é machismo, não pense que estão fazendo isso só porque você é mulher. Aceite. E retribua pro mundo, faça também.

Nossa natureza e tendência é de sermos pessoas tão racionais que é fácil ser dura, fria e desumana.

Como falei, hoje não cultivo nenhum relacionamento. Mas sou casada, não trabalho mais em empresa, tenho 40 anos. Eu tenho o ticket dourado misantropo, vocês não. Só por serem novos vocês ainda não têm esse direito de ficarem na torre. Vocês têm que se experimentar muito e se relacionar com as pessoas, faz parte do nosso aprendizado como ser humano, pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

O cara de que você falou, por exemplo. Acho que não é uma questão de cultivar ou de paparicar, mas, você tem interesse nele? Chama ele pra sair e descobre se vocês se interessam um pelo outro. Não precisa ser jantar romântico, aliás, os primeiros encontros é bom que seja de dia, algo despretensioso, fácil de encerrar se vocês sentirem que não rolou. Café, exposição, passeio, sorvete. Convide-o. Pelas coisas que você contou, ele tem bons motivos pra achar que você não tem interesse nele. Houve os azares, e fora isso, sempre leve em conta que os homens morrem de medo de serem rejeitados. É preciso um nível (ou vários níveis) a mais de coragem pra paquerar e tentar algo com um misantropo, então se você tem algum interesse, dá uma força, ajuda a começar.

Nas outras situações que você falou, exceto com a sua colega (já falo dela), acho que você tem que desenvolver alguma forma de se relacionar mais. Deixa eu tentar explicar.

Nossa tendência é de sermos rígidas, duras, sem traquejo e sem charme social. A maldição de ser racional demais. Nós temos direito de sermos o que somos, de sermos misantropos, de sermos exigentes e seletivos sobre o uso do nosso tempo. Mas também somos inteligentes, e eu sempre vou usar o argumento da inteligência pra mandar meus leitores misantropos queridos fazerem alguma coisa :), e uma delas é reconhecer que a interação com as outras pessoas é essencial pro nosso desenvolvimento. Pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

Viver só se aprende vivendo, e o vivendo significa relacionar-se com o outro. Mas o relacionar-se com o outro não significa ter que ir pra festas, baladas, shows e outras situações que em geral trazem muito sofrimento pra quem preza tanto o silêncio e a tranquilidade.

Olhe pra você de fora.

Pensa nas coisas que você me contou.

Não é fácil alguém se aproximar de você, certo? Porque no geral misantropos têm esse jeito de eu me basto e não preciso de ninguém. Isso é verdade a maior parte do tempo… Mas quem ainda não tem o ticket dourado tem uma parcela do tempo em que isso não é verdade. Somos humanos, somos mamíferos e precisamos de contato físico, de carinho, de nos sentirmos queridos.

Eu não vou te falar que existe um jeito certo de se fazer isso, ou mesmo que você é obrigada a fazer isso. Mas posso lhe dizer que sua vida será mais fácil se você desenvolver algo pra combater a dureza e o jeito de gente fria.

Por exemplo, eu cultivo um carinho por seres humanos que demonstrem um quinhão de busca. Me fale uma frase que mostra que você está falando algo que é mesmo importante pra você, algo de pessoal, e você tem minha atenção. Eu acho as pessoas lindas, se pudesse ser invisível, adoraria fotografá-las e mostrar pras elas o quanto elas são incríveis. Você sabe o quanto eu gosto de fotografia de natureza, mas quando entro nessa vibe de pensar no quanto o ser humano é algo espetacular, até penso que trocaria a fotografia de natureza por street – se eu pudesse ser invisível. Mas não gosto da ideia de incomodar ou de chamar a atenção, então fico na natureza mesmo.

No meu trabalho ninguém desconfiava da minha misantropia, eu era muito simpática com todo mundo, e não de forma falsa. Pessoas boas, com quem você encontra, dá um abraço ou beijinho, sorri olhando no olho, pergunta algo sobre a vida da pessoa, retoma alguma conversa.

Reparo nas pessoas que têm bondade e simpatia genuínas, e tento aprender alguma coisa com elas. Num dos livros do Patrick Rothfuss, o protagonista (que é de um circo) conta que existe um tom de voz e determinados gestos que impelem o público a aplaudir. Fiquei pensando no quanto existe de tom de voz e gestual das pessoas que fazem você pensar que aquela pessoa é gente boa, confiável. Reparo nas pessoas e tento aprender.

Por exemplo, eu sei chegar numa festa, entre desconhecidos, e ser uma pessoa legal. E é tão fácil: basta contar alguma história curta de bebedeira, ou algo tosco, vexatório ou atrapalhado que você fez, e logo isso cria um clima ótimo de pessoas contando das suas próprias histórias.

Quando há um pouco mais de clima, mesmo pra gente recém-conhecida, posso falar de momentos que me fizeram chorar ou que me comoveram – em geral com alguma encenação cômica e mudança no tom de voz, uma imitação de mim mesma sendo dramática, e isso também cria boas situações.

A gente tem esse jeito de gente que se basta. É nossa obrigação mostrarmos que somos humanos, que somos gente de carne e osso. Eu sempre tenho algo ridículo pra falar sobre mim, e isso sempre é útil pra deixar as pessoas à vontade.

Numa das visitas pra consultoria onde eu trabalhava encontrei o cara da área comercial, que é reconhecido por todos como alguém com muita lábia. Eu sabia que ele tinha ido pra Califórnia fazia pouco tempo, perguntei da viagem, ele contou, e em algum momento começamos a falar de Estados Unidos nos meses de férias, eu tinha ido pro Colorado e primeiro fiquei preocupada com os relatos de que os parques são lotados e têm filas, mas descobri que eram filas bem pequenas. Ele tinha ido num mês de julho também, e começamos a falar sobre o quanto esses americanos não sabem nada sobre o que é destino lotado “vai pra Ubatuba em qualquer feriadinho pra ver o que é fila e trânsito, peloamordedeus, porque tem uma fila de oito carros pra entrar no parque eles ficam falando que as férias são difíceis”, eu e ele falando as mesmas coisas e fazendo gestos com as mãos, como italianos, aqueles que querem dizer “como pode?” – e rimos e comungamos de um momento de brincadeira e descontração.

 

Não estou te falando como fazer, nem que você é obrigada a fazer. Mas os fatos são:

– pra gente ter uma vida mais rica e com mais significado, precisamos viver, nos relacionar com as pessoas. Gente de 20 e poucos anos tem essa obrigação. Misantropos de 40 anos que ganharam o ticket dourado têm o direito de ficar na torre, mas não vocês. Vocês precisam ir pra rua, quebrar a cara, se dar bem, se dar mal, viver.

– todo mundo de 20 e poucos anos precisa estar vivendo e experimentando muito, misantropos não são exceção. Faça isso agora, ou diminua muito suas chances de ter uma vida boa.

– e meus leitores de 30 e poucos que ainda não têm o ticket dourado, digo o mesmo: vão se relacionar, vão conhecer gente, vão quebrar a cara, se dar bem ou se dar mal, se apaixonar e depois ficarem arrasados, mas vão viver, é preciso. (pedaço novo, das 17h30)

– misantropos têm esse jeito de gente chata, dura, desumana. Porque essa maldita ou bendita super-racionalização do mundo nos leva a isso. Mas somos inteligentes (sempre o mesmo papinho), e podemos ser melhores do que o racionalmente burro. A gente sabe que só racional não é o certo, que o puro racional machuca gente querida e gente inocente.

– ou seja, a gente tem que se cobrir de glacê.

(me ignore, não resisti a ser infame)

– ou seja, a gente tem que desenvolver algo além do duro-racional-autossuficiente. Temos que encontrar o ponto em que podemos praticar, com sinceridade, a ternura, a generosidade, a comunhão, aceitar presentes e gentilezas.

– porque isso vai facilitar muito a tarefa de se relacionar com pessoas.

 

Eu não preciso mais pegar roupas da loja da minha mãe. Mas em geral aceito que ela me faça uma marmita, um pouco do almoço do domingo pra eu trazer pra São Paulo. Se eu não quiser comer no dia, congelo, como outro dia. Ligo pra eles toda semana, num momento que estou sem pressa, focada, conversamos mais de meia hora. Sempre tenho algo pra contar, seja do mundo do birdwatching, ou de viagens, ou alguma história com o Daniel ou o Cris. Tenho um amigo que dizia que não sabia o que conversar com a mãe, e que sentia que ela ficava frustrada. Se ele tentava falar dos assuntos que ele gostava, ela dispersava. Afe, qual  é, somos inteligentes, qualquer um sabe conduzir uma small talk, falei “conte algo do trabalho, alguma situação em que você agiu bem, fale algo pra eles sentirem que criaram um bom filho”.

Você devia aceitar o que sua mãe quiser te dar, mesmo que você não vá usar. E se ela sempre estiver comprando algo pra você, compre algo pra ela também. Pra algumas pessoas, isso é uma das demonstrações de amor. Há situações em que o mais importante é se colocar no lugar do outro, pensar na reação do outro. (Falou a pessoa que ganhou uma bolsa cara da irmã e devolveu pra ela, explicou que não ia usar… mas eu falei com muita delicadeza, e tenho certeza de que ela entendeu, e até gostou de eu ter falado). Mas veja que bolsa cara é diferente de pequenos presentes.

Devemos ser generosos e bondosos no relacionamento com a família, e isso não significa deixar de ser quem somos. Pense que há algumas coisas pequenas que não fazem muita diferença. É melhor ganhar o creme e não usar, dar pra alguém, do que negar, dizer que não vai usar, e chatear sua mãe, entende?

Com os pais não é tão difícil criar um relacionamento. Deixar eles sentirem que fazem parte da sua vida, que eles te ajudam.

Com desconhecidos, ou gente recém-conhecida que você ainda não sabe se vale a pena, você devia se mostrar aberta. Fazer alguma coisa pra incentivá-los. Lembre sempre que a gente tem esse jeito de eu me basto, e que precisamos fazer algo pra combater isso, pra dar coragem pra pessoa se aproximar.

Pro tal colega, ele tem vários motivos pra acreditar que você não está a fim, então se você talvez esteja a fim, convide-o pra sair.

A sua colega é uma outra história, é um karma. Não sei o que eu faria, eu também não suporto gente carente que precisa de elogios. Você conhece um seriado chamado Boston Legal? James Spader é um advogado na melhor tradição da eloquência americana, ele faz discursos incríveis. Sempre penso que foi por causa dessa atuação que o pessoal do Black List teve certeza de que ele seria a escolha certa. Num dos episódios a empresa está em polvorosa por causa da nova estagiária, uma loira peituda, e todos os caras ficam babando e falando dela, ela nem percebe, mas uma das mulheres fica muito ofendida com isso e a convence a processar a empresa. No final do episódio o que evita o processo é uma conversa honesta do Alan Shore (James Spader), em que ele chega pra estagiária e fala “você é uma mulher alta com peitos grandes, você sempre vai chamar atenção em qualquer lugar que você vá. Mas você não é só isso, você também é uma pessoa (e fala de qualidades dela, não lembro quais eram), mas até então eu não enxergava isso, e lhe devo desculpas por isso”.

Talvez algumas conversas francas com sua colega ajudem? Dizer algo gentil pra ela, sobre as qualidades dela, mas explicar que vocês têm diferenças da forma como vocês enxergam o mundo, que você fica chateada todas as vezes que ela tenta mostrar que você teria que mudar seu jeito de ser. Contar que existem milhões de outras pessoas que são como você, que também não gostam de badalação e que precisam de silêncio e sossego, e que isso não é um defeito. Se não me engano você disse que já tentou falar, mas como ela continua enchendo, eu falaria sempre.

—– mudanças a partir daqui

Minhas experiências em que tive que ter conversas sérias com pessoas que convivo… uma vez foi uma conversa com minha ex-empregada, outra uma bronca no Daniel. Resolveu a situação com a minha ex-empregada, e o Daniel, quando ele começa a sair da linha, só de ouvir a possibilidade sobre ter outra conversa séria ele volta a se comportar. Foram conversas longas, em que mantive a calma o tempo todo, fiz várias perguntas, dei exemplos, mas que o outro estava visivelmente desconfortável. Acho que uma bronca minha é algo do tipo sabugo enfiado no cu, e a pessoa que tem que passar por uma dessas faz qualquer coisa pra nunca, nunca mais na vida ter que viver isso. Acho que uma das coisas que fez o Cris aprender a rapidamente enxergar que está errado e pedir desculpas é a perspectiva de ter que encarar uma conversa chata comigo. Tem alguma chance de você ter uma conversa assim com sua colega pra ver se ela para te de encher? Não vai ser exatamente uma bronca, mas uma conversa pra se falar verdades, como o fato de “você me acha chata, mas você precisa entender que as pessoas têm valores diferentes, e que dependendo dos valores que você usar, você é a pessoa chata. Eu tenho defeitos, todo mundo tem defeitos, inclusive você. A gente convive, precisamos encontrar uma forma de fazer isso com harmonia. Tem várias coisas que você faz de que eu discordo ou não gosto, mas eu não fico falando tudo que eu penso, eu respeito seu jeito de ser, e queria que você respeitasse o meu também”. Quem sabe?

Somos pessoas chatas e difíceis. O que não dá o direito das pessoas ficarem falando isso, porque na verdade, quem nos diz “você é chato”, “você é difícil”, também é chato e difícil. As pessoas legais, as easygoing, os santos em que penso que pra mim são os exemplos de bondade, simpatia, esses nunca me falaram, nem me falariam nada, e acho que talvez nem pensem nesses termos. Eles parecem ter uma visão mais ampla e generosa sobre a vida e sobre as pessoas.

Só quem tem o direito de nos falar que estamos extrapolando no lado chato ou difícil é algum amigo querido. Alguém que vier falar isso não pra reclamar, mas porque nos ama e acha que estamos indo pra algum mal caminho. Eu posso me irritar de ouvir “onça”, na hora estava cansada e fragilizada a ponto de sentir refluxo quando pensava na história (meus tais blops, que às vezes tenho quando como algo que caiu mal, ou quando estou brava com pessoas, e sinto o refluxo só de ouvir o nome da pessoa. Quando o Daniel descobriu que eu estava tendo isso só de ouvir “onça”, me perguntou se eu já pensei em procurar um psicólogo). Mas não fui lá tirar satisfação com a carioca. Se eu tivesse ido, alguém próximo de mim teria que me falar que eu estava exagerando, provavelmente realmente precisando de tratamento.

Somos chatos e difíceis, com uma grande tendência a sermos duros e desumanos. Mas também está em nossas mãos combater essa tendência, de cultivar brandura, doçura, bondade, generosidade. Sou capaz de xingar muito alguém que tenha feito coisas ruins, seja atropelar um esquilo, ou me caluniar no Facebook porque (sei lá, acho que era porque não gostou de me ver numa posição de destaque). Mas é algo momentâneo, eu não fico pensando nessas pessoas, elas não me ocupam. No geral, o que tento cultivar são as ideias de que não conheço as dores dos outros, de que todo mundo tem um lado bom. Orson Scott Card me deu essa ideia: a de que se realmente pudéssemos conhecer as pessoas (ou outros seres, era um livro de FC), é impossível não amá-los. Não sei se eu iria tão longe, mas sei que todo mundo tem um lado adorável e que é possível se conectar com ele, se a gente não estiver traumatizada ou de saco cheio demais do lado ruim.

Tenho uma conhecida que uns amigos queridos adoravam falar mal dela, naquela maledicência inconsequente  e tão comum nas rodinhas. Pedi pra eles pararem. “Por que vocês ficam falando da …? Não tem por que a gente falar dela, a gente desperdiça nosso tempo falando dela, ela fica ocupando nossos pensamentos e tempo por quê?”.

Eu estava falando da questão do uso do tempo, mas também por achar injusto. E talvez um dia eu consiga fazer isso pela bondade. Tenho uma amiga que admiro muito, uma dessas que tem bondade genuína, e vejo que uma das coisas que ela não deixa é falarem mal de alguém que ela gosta. Mesmo que todo mundo do grupo tenha algo ruim pra se falar dessa pessoa, eu já vi ela falar “não falem assim dela, ela é minha amiga e eu fico triste de ouvir as pessoas falarem mal dela”. Guardei essa história, e agora presto atenção, quando alguém fala algo negativo sobre uma pessoa de quem eu gosto, e eu sei de algo que em parte explica o comportamento daquela pessoa, eu sempre falo sobre o motivo, e sobre as coisas boas que eu sei daquela pessoa.

E quero cada vez mais cultivar em mim a capacidade de ver as pessoas com doçura. Provavelmente nunca vou deixar de analisar, de perceber, de ver quando elas estão fazendo coisas idiotas, tentando me enganar ou se enganar, e posso até xingá-las muito na hora. Mas queria conseguir manter o tempo inteiro a consciência de que somos todos peregrinos na bolota azul, que todos temos nossas buscas, nossas dores, nossos sonhos.

Falei muito!

Me diga se algo do que te disse faz sentido, e pergunte o que quiser.

Beijos e abraços,

Claudia