Eu sou maravilhosa

Somos a história que contamos pra nós mesmos. Nossos pensamentos criam nossa realidade, sem precisar acreditar em energia ou vibrações, a neurociência te explica como o cérebro usa suas experiências prévias e suas crenças para que, de forma instantânea, o que você está vendo faça sentido. É tão instantâneo que você acredita ser o real, mas não é o real, é apenas o seu ponto de vista.

Você pode pensar que o mundo é real, sólido e indiscutível, mas não é. O império Asteca caiu facilmente porque seus governantes acreditaram que Cortez era um enviado dos deuses, uma benção prevista no calendário astrológico. Eles nunca tinham visto europeus. Quando viram, usaram seu conhecimento prévio e crenças para decidir como interpretá-los. Erraram. Morreram de forma miserável.

Sendo um pouco menos dramática, o fato é simples: todo mundo está o tempo todo olhando e interagido com o mundo tendo como grande influência suas experiências prévias, suas crenças, sua cultura no geral.

É por isso que é tão importante você alimentar seus pensamentos do quanto você é incrível, maravilhosa, linda, genial. Ou incrível, maravilhoso, lindo, genial.

Circule pela tag Como ser mais feliz, você verá que esse tema é recorrente. Ele é tão importante, mas vejo como é raro as pessoas atingirem esse estágio mental, o quanto o mais comum é as pessoas ficarem presas em medo de ser arrogante, medo de não ser boa o suficiente, medo de sofrer, medo de ser julgada, medo de rirem dele (um dos medos mais comuns dos homens), medo de decepcionar as pessoas, medo de ser chata, medos e medos…

O medo cria uma carapaça, uma armadura ao seu redor. Te embota, te impede de viver. Quanto mais receoso você estiver, mais reticente, mais vacilão, mais conservador, significa que maior é sua armadura e mais frágil o ser que a habita.

Leitores queridos. Você tem que olhar no espelho e saber que você é foda. Você tem que olhar no espelho e se achar lindo ou linda, uma pessoa incrível, genial, que já visitou vários infernos e voltou, que tem um oceano dentro de si, que é capaz de alcançar qualquer objetivo. Você tem que olhar no espelho e saber quem você é, de onde você veio, como você chegou onde está, do que você gosta, aonde você quer chegar, e tudo isso tem que ser uma história bonita. Sem precisar ir pro devaneio ou mentira, usando apenas a inteligência e a arte, crie a história da sua vida e do que você quer usando a luz bonita, os enquadramentos bem feitos, e você terá muito orgulho de quem você é. E ao ter orgulho de você, você passa a agir de outro jeito. Aparecem outras pessoas, outras oportunidades, sua história muda.

Eu juro. Eu sou a prova viva. Cresci numa cidade do interior de São Paulo, com muitos amigos frequentando minha casa, mas triste por ter esses olhos puxados, por não ser alta, magra, loira ou no mínimo com uma cara normal, prendendo a respiração e ficando tensa sempre que ia passar por um grupo ou por homens, esperando o momento em que iam tirar sarro de mim ou fazer aqueles olhares ou comentários nojetos. Cresci vendo uma grande diferença entre as pessoas descoladas, ricas, bonitas, divertidas ————— e eu. Cresci sem nunca conseguir interpretar quando um garoto queria ficar comigo, porque eu achava que só podia ser amizade, ninguém nunca poderia querer ficar com alguém como eu.

Vivi 20 anos assim.

Hoje tenho 40. Depois dos 18 fui mudando meus pensamentos e minhas crenças, minha visão sobre mim. Fiz isso a tempo de poder viver os 20 e poucos saindo com vários caras, experimentando, aumentando minha segurança sobre mim não porque eu me desse bem todas as vezes, mas só porque eu estava vivendo. Se você não vive, é fácil alimentar muita fantasia e insegurança. Viver, experimentar, faz com que você adquira muito mais amplitude, mais tranquilidade, mais capacidade de processar as coisas, inclusive o mal estar, a rejeição, as críticas.

Já me envolvi em milhares de discussões, saias justas, brigas.

Esse papinho de que a gente tem que evitar o conflito a qualquer custo é mentira, isso cria gente marica ou defensiva-agressiva. Todo mundo tem que aprender a conversar sobre assuntos difíceis, eventualmente brigar e se sentir mal — e depois sair do outro lado, como uma pessoa melhor. Mas quando você evita o conflito, ou faz de conta que nem é tão importante, você deixa de conhecer mais sobre você e sobre o outro, você perde a chance de se aproximar do outro e de se tornar alguém melhor.

Eu sou maravilhosa. Sou uma pessoa incrível, com inúmeras qualidades e que adora mesmo aquilo que as pessoas acham que é defeito. Meu grupo do primeiro grau, mesmo meus amigos mais próximos, acharam errado eu ter saído do grupo grande porque não aceitei gente promovendo o fascismo e os ignorantes rindo e achando tudo legal. Me falaram que eu devia procurar formas de controlar essa indignação, essa raiva. Não quero. Gosto e tenho orgulho dos momentos em que não sou uma mulher, sou uma tempestade com pele. Eu teria uma lista enorme de coisas boas pra falar de mim, e uma outra que eu posso pensar mas não posso escrever porque é indiscreto ou traz problema pros vivos.

E veja. Repare no que escrevo, ou quem me conhece ao vivo sabe: eu ser foda, maravilhosa, linda, incrível não faz com que em nenhum momento eu humilhe, trate mal, dê uma de gostosa ou arrogante, pelo contrário. Me ajuda a ter carinho e compreensão pelas pessoas que têm um mínimo de busca, faz com que eu saiba que eu sou foda e que qualquer um pode ser foda, melhor do que isso, eu sou foda em alguns aspectos e medíocre em outros, e outras pessoas são foda em coisas que nunca serei, mas ruins em outros que eu sou boa, e tudo bem, isso não me torna melhor ou pior. Somos todos peregrinos na bolota azul, querendo viver uma vida boa.

A gente tem que cultivar os pensamentos bons sobre quem somos. Criar nossas histórias, alimentar nossos valores. Isso muda nossa vida e muda o mundo.

Não somos um barco à deriva. Acredito no inconsciente, na psicologia, mas também acredito nos meus valores, e uma boa parte deles vem de filmes e livros americanos que exaltam o quanto a pessoa pode mudar a própria vida. Há o incontrolável e o imprevisível, mas também há uma boa parcela daquilo que só depende de nós mesmos. Nossos pensamentos, nossas decisões, nossas ações. E tudo começa com algo singelo como ser capaz de gostar de si, de saber contar pra você mesmo, e pra outros se for o caso, uma história bonita sobre quem você é.

Cultive pensamentos bons sobre você. Se olhe mais no espelho, especialmente na luz do dia, de preferência nos horários de luz bonita. Tire fotos suas, tire selfies, tire fotos com gente querida, sorrindo. Construa sua história.

Eu sou maravilhosa e tenho uma vida maravilhosa, e não é por acaso. Se eu não tivesse me livrado das neuras de achar que não era bonita ou boa o suficiente, nunca teria começado a namorar o Cris. Se eu não tivesse segurança sobre mim, talvez tivesse caído em alguma das várias armadilhas dos nossos primeiros 2 anos juntos, em que a gente quebrava o pau com frequência. Se eu tivesse algum tipo de culpa nipônica ou preocupação com o que os outros vão pensar, nunca teria me aposentado aos 34 anos, viajaria muito menos, fotografaria muito menos, e talvez nem tivesse um blog.

Viram como as coisas que você pensa sobre você e seus valores são cruciais nas suas escolhas e vão moldando sua vida?

Cultive gostar de você até se sentir foda linda incrível maravilhosa. E o mundo vai acompanhar.

Meninas boas vão pro céu e as más vão pra qualquer lugar

Esse mundo machista espera que a gente seja bela recatada e do lar. Mas qualquer cara que valha a pena conhecer e ficar não é machista no nível de pensar que você é uma vaca desprezível porque já saiu com outros caras, já transou com outros caras, e fica com outros caras sem precisar estar apaixonada por eles.

Se um cara te desprezar ou desvalorizar porque você não é virgem e recatada, ele não vale a pena, fique longe dele, que bom que você descobriu logo de cara.  Só gente muito idiota pensa que mulheres de 20 e poucos anos não têm todo o direito de fazer o que qualquer pessoa devia estar fazendo nessa idade: experimentando muito.

Essa é a idade pra experimentar, pra ousar, pra pagar mico, pra sair com vários caras. Quem não faz isso com 20 e poucos corre mais risco de se tornar um adulto idiota, ressentido, tapado, moralista. Uma pessoa que não tenha experimentado o suficiente nos 20 e poucos corre o risco de se tornar alguém capaz de cair facilmente na lábia de pessoas imorais porque falta experiência de vida e sobra fantasia do que poderia ter vivido.

Você já viu um filme dos anos 1990, Procura-se Amy? Tem o Ben Affleck no papel do macho babaca. Ele está apaixonado por uma garota, a Joey Lauren Adams, e o mundo desaba quando ele descobre que ela mentiu pra ele, que nem sempre ela foi gay, e que ela era muito promíscua desde o colégio. “Você não se importa de eu já ter dormido com metade das mulheres de Nova York, mas ficou arrasado porque eu fiz algum sexo quando estava no colégio!”. E esse “algum sexo” eram histórias como sexo a três, fazendo boquete num cara enquanto o outro fazia anal com ela (e os dois contam pra todo mundo), ser filmada transando (sem saber) e depois o cara passar o vídeo no circuito interno da escola, e ela fala “e qualquer outra história escabrosa que você tiver ouvido sobre mim provavelmente é verdade”. Ele fica bravo, fala que tem uma diferença entre sexo normal e o que ela fez, que ela foi usada. “Não, eu não fui usada. Eu usei eles! Eu fiz porque eu quis”.

Só gente bem idiota acha que existe essa história de sexo normal. Sexo é desejo e você faz com quem quiser como quiser, se é de consentimento entre ambos ou entre todos, seja mulher com homem, gay, suruba, as pessoas fazem o que quiserem.

Tem uma cena do filme em que o Ben Affleck está num bar, deprimido porque é apaixonado pela Joey, mas não consegue aceitar esse passado, e aparece o diretor (Kevin Smith), que faz o papel de Silent Bob. Ele e o Jason Mewes são uma dupla maconheira que inspirou uns personagens de sucesso do Ben Affleck, que faz papel de quadrinista. Affleck conta a situação, e fala “o que eu vou pensar disso?”, e o Mewes fala algo parecido com o que meu amigo de Limeira falou “você devia se sentir sortudo porque ela já experimentou de tudo e agora decidiu ficar com um babaca como você”.

Sexo é poder. Ter experiências sexuais aumenta o conhecimento e segurança sobre si, sobre os outros, sobre os seres humanos.

Claro, partindo do princípio de que há desejo. Entendo que tem gente que não tem o mínimo de desejo sexual, nesse caso não se deve fazer algo forçado. Mas acredito que é muito importante a gente vencer a barreira moralista do que não podemos fazer por medo de sermos julgadas, especialmente julgadas como putas vacas piranhas.

Pensa como é machista essa ideia de mulher fácil. Como se a mulher fosse um objeto passivo, e não que rolou porque ela também quis. Ou então, a ideia de que se ela quis ela é uma puta. O homem que sai com várias é garanhão campeão mito. A mulher que sai com vários é piranha vagabunda.

Saia com quem você quiser, faça o que você quiser, e coloca como nota de corte a questão da reputação. O cara que tiver alguma aversão a você porque você sai com vários, porque não é recatada, é alguém com quem você não vai querer um relacionamento sério, deixa ele pra lá sem se preocupar que ele poderia ser legal, simplesmente não dá pra fica com homem tão machista a ponto de pensar que uma mulher solteira, ainda mais nos 20 e poucos anos, não tem direito a uma intensa vida sexual.

E se tiver chance, faça um favor pro mundo. Todas as vezes que ouvir alguém falando mal de uma mulher que sai com vários caras, combata isso. Pergunte por que homens podem e ela não. Se a pessoa não é comprometida, está ofendendo quem? O que tem de errado em ficar ou transar? Se ela fez suruba, se foi uma sessão sadomasoquista, ou com frutas e chantilly, se teve anões besuntados ou sei lá o que, o que as pessoas têm a ver com isso? É inveja? Que elas sejam mais ousadas na própria vida sexual, entendam e aceitem que na privacidade e se for de consentimento entre todos os presentes, os adultos fazem o que quiserem.

— x —

Ok, experimente e viva muito, mas vou ter que falar das coisas chatas também.

Nunca custa reforçar: segurança sempre. Camisinha sempre. Engolir porra não é algo pra primeiros encontros, há risco de DSTs.

Há mais de 400 mil estupros por ano no Brasil (45 mil registrados com certeza de subnotificação). A maioria dos casos notificados é de menores de idade, porque uma mulher adulta que sofre um estupro em geral não notifica (no caso das meninas estupradas, um adulto fica sabendo e denuncia). No Brasil não tem muitos estudos, mas na época da USP a gente sabia que tinha estupros dentro do campus. Na faculdade é mais comum ainda o cara confundir liberdade sexual com o direito de abusar e violentar.

Lembra sempre que álcool e sexo é uma combinação perigosa entre gente que mal se conhece. Tenho uma amiga que bebia muito nas festas de faculdade, até que tomou um susto grande. Uma manhã acordou nua na cama de um cara e não lembrava como tinha ido parar lá. Não foi boa noite cinderela, ele era um cara legal, mas ela passou pela humilhação de ter que perguntar pra ele o que tinha acontecido, se eles tinham usado camisinha. Depois disso ela nunca mais bebeu tanto.

Beber bastante e ficar bêbada é maravilhoso, mas tenha certeza de estar num ambiente seguro, com pessoas em quem você confia. Infelizmente a verdade é que estar bêbada aumenta o risco de você ser abusada.

Se mesmo com todos os cuidados tiver algum problema com camisinha, não hesite em tomar pílula do dia seguinte (eu já tomei, duas vezes. Por camisinha mal colocada e pela bobagem de deixar o cara gozar duas vezes sem tirar).

Na minha época não tinha isso, mas sei que hoje em dia também é possível tomar os coquetéis antirretrovirais, mas não sei o quanto isso é fácil de obter num posto de saúde. Mas tem que procurar logo, quanto antes melhor, e estamos falando de horas. O tratamento diminui de eficácia conforme passam as horas, 72 horas é o limite máximo pra começar e o ideal é começar 2 horas depois da exposição.

http://www.drakeillafreitas.com.br/profilaxia-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv-o-que-voce-precisa-saber/

http://ladobi.uol.com.br/2016/11/camisinha-preservativo-estourar/

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

Lembra também que prazer sexual não é só coito com porra. Estou falando dos risco de contaminação com sêmen ou fluidos vaginais, mas lembra que os momentos de prazer com outra ou outras pessoas não é uma receitinha de bolo que começa com beijo, depois boquete, depois sexo vaginal, depois sexo anal. Isso é idiotice de filme pornô barato. Há muito prazer na pele, em várias partes do corpo, na provocação, na espera, na ansiedade por mais. É simplesmente experimentar e lembrar que filme pornô é só filme pornô, que somos muito melhores do que isso.

Outra merda que a gente tem que lembrar nos dias de hoje: cuidado com a ideia de nudes, ou de se deixar ser fotografada ou filmada transando. O cara pode parecer bem legal na hora, mas o mundo dá muitas voltas. Eu simplesmente não deixaria.

Desculpe se falei demais das coisas chatas, mas com as DSTs e estupros, infelizmente não dá pra sair pra farrear e experimentar sem ter isso sempre em mente. Na hora da excitação sexual é fácil esquecer de um monte de coisas, mas se esforce pra ser sempre conservadora na questão dos riscos. Camisinha sempre. Cuidado com álcool + sexo. Cautela ao se envolver. Não é errado beijar ou ficar ou até transar com um cara que você acabou de conhecer, mas se você sabe pouco sobre ele, evite ir pra algum lugar isolado de ajuda. Esse terceiro é o mais chato, e eu já quebrei isso muitas vezes, mas a gente sempre tem que lembrar que os riscos existem.

 

Misantropos são invisíveis?

oi …! Adorei seu email, estou bem animada pra falar disso, me pergunte sempre qualquer coisa que quiser.

Você me perguntou se misantropos são invisíveis.

Eu acho que somos sim, pra maioria das pessoas. É triste, mas é compreensível e óbvio. Mais de 90% das pessoas não valem a pena. Mais de 90% das pessoas não fazem ideia de quem nós somos, não há vibe, não há sintonia, não rola. Se mais de 90% das pessoas vivem confusas, sem saber seus valores, quem são, do que gostam, o que é importante, sendo facilmente enganadas e manipuladas, escravizadas pela publicidade, pelos orcs… pensa bem, não faz todo o sentido que essas pessoas não nos enxerguem?

Pra elas somos apenas gente quieta, tímida, feia, sapatas ou sei lá. Porque é assim que elas enxergam o mundo. Ou você é um estereótipo de gostosa, ou não é ninguém.

Quer deixar de ser invisível? É fácil, entre no jogo. Vista-se, mova-se, e fale pra ser vista. Você vai ficar horrorizada, mas é verdade que saia curta, decote, batom são grandes facilitadores. O dia que eu virei o pescoço do Angeli na Bienal estava brincando de colegial japonesa, com minissaia e meião até o joelho. Mas não teria chamado atenção se estivesse de roupas grandes e largas.

Se você tiver uma aparência mais chamativa, você deixa de ser invisível. Pelo menos à primeira vista, pelo menos pra ser considerada ser humano. Você pode escolher não entrar no jogo, mas isso diminui bastante suas chances de começar algo com alguém. Você viu como é.

Hoje eu me sinto bem confortável em ser invisível, em não chamar a atenção. Mas tenho o Cris, há 13 anos. Posso te contar como era quando eu estava na pescaria.

Como falei, cresci me sentindo feia e sem graça, achando que ser feliz como nos filmes não era pra mim, sem conseguir enxergar interesse dos garotos porque ninguém poderia se interessar por alguém como eu. Mas daí em São Paulo aconteceu a tal revolução, que foi o início da minha vida sexual e a descoberta de que padrão de beleza importa pouco se você está disposta a transar.

Fiquei e transei com vários caras só por ficar, por experiência de vida, por achar que isso era bom pra mim como ser humano. Há 20 anos atrás, no início dos chats, quando ainda havia reportagens que falavam do quanto era perigoso se encontrar com gente que você conheceu pela internet. Começávamos a conversar, às vezes a conversa evoluía a ponto de querer encontrar a pessoa, e às vezes rolava.

Você encontra gente ao vivo, às vezes se interessa por um cara, começa a conversar com ele e ele se assusta com você. Eu sei bem como é. E não vou te falar que é fácil. Os vários caras com quem fiquei, fiquei por ficar, mas não achava que ia dar alguma coisa mais séria. Um dos motivos de me apaixonar pelo Cris foi porque ele não tinha medo de mim, da minha intensidade. Claro, depois fomos descobrindo tantas coisas em comum. Mas só de encontrar alguém que não se assusta com você, que não reage com agressividade ou algo assim, já é muita coisa.

Eu também descobri que era mais fácil me relacionar com caras mais velhos ou mais novos. Os da minha idade em geral eram os mais inseguros e agressivos.

O que estou querendo te dizer é que você está mesmo numa situação difícil. Acho que não vai ser fácil ficar com um cara legal, da sua faixa etária, que você conhece conversando ao vivo. O que você me descreveu é o que provavelmente vai continuar acontecendo.

Estamos na pescaria, e talvez você encontre alguém que não tenha medo de você, alguém à sua altura. Mas é pescaria, entende? Tem a espera, o acaso, a sorte.

Você é uma misantropa. Portanto, inteligente, consciente, esperta. Talvez você tenha um pouco de timidez, e sabe o que penso da timidez. Não serve pra nada, é algo pra gente extirpar da vida.

Acho que você devia experimentar mais. Ficar com uns caras sem precisar pensar muito. Como experiência de vida, vivência, curiosidade antropológica. Quando eu tinha uns 24 passei um tempo saindo com um jornalista de mais de 60. Meus amigos estavam horrorizados. “Ele… ele… ele é um velho!” (15 anos atrás as pessoas de 60 eram bem mais velhas do que hoje em dia). Eu não me importava. Também passei um tempo saindo com um garoto de 18, que a gente chamava de meu Lolito, barely legal :).

Experimenta.

Vença o monstro da timidez, ou do medo de ser julgada, de ser rejeitada, e se exponha. Essas coisas fazem muita diferença na vida, tenho certeza de que sou uma pessoa melhor pelas coisas que eu vivi. Somos misantropos, mas também somos inteligentes, e sabe que a interação com as outras pessoas é uma das formas mais intensas e rápidas de aprender, amadurecer, ganhar mais tranquilidade, mais amplitude, mais visão do mundo.

Sabe que eu sou feminista. Mas não vejo nada de errado em jogar o jogo a nosso favor. Em se vestir pra ser vista, em passar batom, em usar decote, isso não diminui ninguém. É só uma forma de chamar atenção, de deixar bem claro que você está querendo chamar atenção. Seria mais fácil se a gente só pudesse ligar uma luzinha verde “tô a fim”, ou a vermelha, mas infelizmente, como não tem a luzinha, temos que lidar com aparência. E lembrando sempre que não importa sua roupa ou sua maquiagem, nada, absolutamente nada justifica um cara ser agressivo ou achar que pode abusar de você. Podemos nos vestir pra chamar a atenção, mas só um cara uga-buga acha que chamar a atenção é sinônimo de abuso.

Você é linda …, tenho certeza. Como todas as pessoas podem ser lindas quando elas se livram dos entulhos de neuroses com padrão de beleza, insegurança, medo de ser julgada, medo de que vão falar mal de você.

Você deve ter uns 20 e poucos anos. É uma fase terrível, os caras são muito inseguros e idiotas, é difícil mesmo… Um dos meus melhores amigos, alguém que eu conheço desde que ele tinha 12, reencontrei umas semanas atrás em Limeira. Fazia 7 anos que a gente não se falava, mas quando nos encontramos, parecia que ontem ele estava em casa tocando violão no meu quarto, a gente cantando músicas do Legião Urbana. Ele está namorando uma menina 17 anos mais nova, ela tem 23. Ele falou que um dos problemas é que ela é muito ciumenta, a ponto dele quase ter terminado. E ele fala coisas do tipo “… você é linda, você é nova, você tem seu trabalho, quem devia ter ciúme sou eu, você não tem motivo pra ter ciúme”. E que ela já perguntou “você não se incomoda por eu já ter transado com outros caras?”, resposta “imagine, de jeito nenhum, acho ótimo que você tenha tido várias experiências. Você ficou com vários e escolheu ficar comigo, é uma honra isso pra mim”, ela “puxa… como é diferente um cara mais velho”.

Imagino como deve ser difícil encontrar alguém legal da sua faixa etária.

Mas tentando ser mais prática, e me desculpa por um texto comprido e sem muita preocupação com estrutura, mas acho que é pela nossa… amizade, acho que podemos nos considerar amigas, faz meses que a gente conversa pelo blog :), estou escrevendo dessa forma mais frouxa, mas voltando, as sugestões são:

1 – experimenta entrar no jogo. Como experiência de vida, como experiência antropológica. Vista-se pra ser vista, usa batom, muda algo do cabelo. Use decote, use saia curta, use calça justa, ou roupas que mostrem que você se sente à vontade com seu corpo. E se olhe no espelho, e arrume seu rosto (daquele jeito que falei, que é menos maquiagem ou acessórios, mas principalmente magia. Energia, pensamentos), se olhe até saber que você é linda. Linda não pra seguir um padrão de beleza, mas linda por gostar de si, por saber quem você é, por ter orgulho de você, sei que você tem orgulho de ser quem é, deixa isso transparecer, deixa que seu olhar, sua linguagem corporal, o espaço que você ocupa transpareçam isso. Sei que também pode assustar os fracos, mas se você estiver vestida pra ser vista, o mix fica bom 🙂

— essa história de se vestir pra ser vista é triste, mas o fato é que os homens morrem de medo de serem rejeitados. Então você tem que dar sinais bem claros de que eles têm chance. Fora isso, na faixa dos 20 e poucos infelizmente rola muito insegurança também, o cara pode até gostar de você, mas ele não vai ficar com você se achar que os amigos podem rir dele porque ele ficou com uma menina que não está dentro de uns padrões mínimos de beleza, entende?

2 – Vista-se pra ser vista, e quando estiver conversando com o cara que te interessa, você tem que tentar a aproximação física. Sabe como é, certo? Você invade um pouco o espaço da pessoa e vê como ela reage, se ela gosta ou não. Toca a mão, o braço, o ombro, em algum momento da conversa passa a mão pelo ombro da pessoa como se fosse um semi-abraço rápido, e vai percebendo se ela gosta disso ou não. É uma dança com passos pequenos. Você dá um pequeno passo, e vê se ele corresponde. Se ele corresponder, você avança um pouco mais. Se ele não corresponder ou até recuar, você também recua. É bem fácil, basta você cultivar sua auto-confiança. E por isso que é importante se sentir bonita. Se você não se sente bonita, é fácil cair em armadilhas de insegurança, transparecer isso na linguagem corporal, na falta de coragem em tentar algo.

3 – Seu cabelo está bom? Eu tive cabelo curto por vários anos, depois cresceu, e hoje em dia sou ruiva a maior parte do tempo, em tons variados, às vezes mais pro cobre, às vezes mais pro incêndio. Pinto todo mês, uso água oxigenada 40. Descobri que faz muita diferença se eu uso cremes leave in ou não. Gostei bastante de uns da Forever Lizz, mas acabou, e resolvi experimentar um baratinho da Tresemeé Keratin Smooth, é ótimo.

4 – Cabelo e pele boas, batom, um pouco de decote ou saia curta, linguagem corporal de quem se sente à vontade com o próprio corpo, e você vai deixar de ser invisível.

Sobre eles tirarem sarro do jeito como você fala… as pessoas podem ser cruéis mesmo. Acho que a melhor estratégia é você tirar sarro de você quando alguém começar a falar. Não se deixe intimidar. Conte alguma história bem ridícula de algo que aconteceu com você, ou tire sarro, compare com algo. Demonstre que você não se incomoda com isso. Eu não saberia dizer qual exemplo usar, mas posso falar de outras situações.

Lembro de uns colegas de trabalho, um deles tinha acabado de ter um filho, o outro (eles são grandes amigos), falou “E o … acha que o filho é dele… mas tudo bem, pai é quem cria”, e o outro respondeu “Cara, sabe que o menino nasceu a cara de um amigo da … que é modelo, mas eu não consigo entender, não sei o que aconteceu”. E teve alguma vez, numa conversa com uns amigos, eu estava com uma mochila e falei “pode por aqui atrás”, eles falaram algo do tipo “sei, pode por atrás”, e eu respondi com algo como “claro que sim, pode por atrás que eu gosto” – e vi que eles ficaram surpresos, porque acharam que eu ia ficar constrangida, ou vermelha de vergonha, e não fiquei. A graça do bullying, mesmo quando não é um bullying pesado, mais aquela azucrinação entre amigos ou colegas, a diversão é incomodar o outro. Se você mostrar que aquilo não te incomoda, perde a graça. Ou vocês riem juntos, ou então eles mudam de assunto.

E os aplicativos pra conhecer gente, você já experimentou?

Experimente. Também é pescaria, mas ao mesmo tempo é mais fácil pra conversar com as pessoas, pra descobrir rápido se há interesses em comum.

Eu acho que você devia fazer tudo. Escolher os momentos que você quer ser vista, saber e sentir que você é linda, enfrentar os momentos de interação e não deixar mais ninguém te zoar pelo jeito que você fala, porque você vai zoar mais ainda, vai mostrar que aquilo não te atinge, que você tem bom humor e sagacidade. E experimentar os aplicativos também.

Será que falei demais? Será que consegui ajudar de algum jeito? Me fale o que você achou, o que você discorda, o que você tem dúvida. É sempre um prazer conversar com você.

Sobre a importância do vocabulário: diferença entre conversa e desabafo

… sempre troco emails com o … e ele disse que você ficou contente com nosso encontro da semana retrasada, que você desabafou muito.

Mulher, já que estamos falando da importância do vocabulário pra viver melhor, preciso te falar: você tem uma noção errada do que é desabafar.

Você não desabafou. A gente teve uma conversa normal, conversa entre amigos. Sei que estou no limite da licença poética, mas vou dizer: pra mim o que a gente teve foi uma conversa. O que as outras pessoas fazem, de se ver e ficar falando de notícias de jornal, reclamações do trabalho, piadinhas, isso não é conversa, isso é small talk. Uma conversa sempre vai ter um elemento de algo que é importante, que leva em conta quem o outro é, não é uma repetição de frases que você já falou pra dezenas de outros. Não precisa ser sempre íntimo, às vezes não há intimidade entre as pessoas, mas a conversa tem que ser pra fazer valer a pena ser um encontro ao vivo entre duas ou mais pessoas. (E você já vê porque faz anos que dei adeus pras festas que não sejam com gente bem querida).

Desabafo tem um elemento de pressão, de explosão, de não aguentar mais, de ter que abrir a boca pra falar de coisas que você está revoltada. É o que eu te descrevi que tenho aquela amiga pra quem posso ligar ou escrever só pra dizer “putaqueopariu, não acredito que fulano fez tal coisa”. Isso é desabafar.

Mas você falar sobre seus sentimentos, preocupações, trocarmos ideias sobre suas atividades — nada disso é desabafo. É só uma conversa entre gente que se gosta.

Liberte-se das ideias erradas. Extirpa de vez a ideia de que as pessoas têm que ser Polianas, isso não é ser humano. Ser humano, ser uma pessoa, significa ser um indivíduo, alguém inteiro.

É verdade que são poucas as pessoas com quem a gente pode se abrir assim, que na maioria das vezes só podemos fazer small talk, ficar em silêncio, ou mostrar uma versão bem editada de quem nós somos. Mas quero que você mude seu conceito do que é uma conversa.

E peloamordedeus, trabalhe na porra da lista, e tem que fazer também algo contra a ideia de que você não pode se olhar no espelho e se achar linda.

Nos vemos em breve, mas escreva. Escreva pra si, ou pra mim, mas escreva, pra ajudar a organizar os pensamentos, as descobertas, os planos. Escreva.

Os sentimentos não são intrínsecos e sim culturais e pessoais

New Neuroscience Reveals 3 Secrets That Will Make You Emotionally Intelligent

Fago, litost, and the rest are not emotions… to you. That’s because you don’t know these emotion concepts; the associated situations and goals are not important in middle-class American culture. Your brain cannot issue predictions based on “Fago,” so the concept doesn’t feel automatic the way that happiness and sadness do to you… Yes, fago, litost, and the rest are just words made up by people, but so are “happy,” “sad,” “fearful,” “angry,” “disgusted,” and “surprised.”

https://www.amazon.com.br/How-Emotions-Are-Made-Secret/dp/0544133315/?tag=geo045-20

Esta foi uma das leituras mais interessantes dos últimos anos.

Raiva. Amor. Saudade. Medo. Inveja. Em geral a gente pensa que sentimentos são coisas universais, originadas de alguma forma no cérebro de todo ser humano.

Mas não são.

Os estudos da neurociência dos últimos 20 anos não conseguiram rastrear um único sentimento, ou melhor, não encontraram um padrão. Descobriram que o padrão é a falta de padrão, não há uma área específica para cada sentimento.

Houve estudos, de pessoas que têm alguma síndrome, ou sofreram algum acidente e, por exemplo, passam a não ter mais medo, então a suposição é de que o medo residia naquela parte danificada do cérebro. Mas depois surgiram outros estudos, mostrando que aquelas pessoas sentiam outros tipos de medo, ou mesmo pessoas com as mesmas deficiências no cérebro mas que ainda eram capazes de sentir medo.

Sentimentos não são universais. Eles são aprendidos. Dependem do país onde nascemos, da nossa família, do meio social, da nossa vivência.

Falando assim parece bem óbvio, não parece? Quanto mais eu penso nessas coisas, mais elas parecem absurdamente evidentes. Mas a neurocientista que tem defendido essa teoria tem enfrentado reações bem adversas. Ela conta de um colega que apontou o dedo na cara dela, de outro que falou que ela só era capaz de dizer isso porque provavelmente nunca teve sentimentos autênticos, outro que falou que ia mostrar pra ela o que era raiva dando um soco na cara dela. Veja: todos colegas de trabalho.

Olha um exemplo simples. Raiva. As pessoas têm reações muito diferentes quando sentem raiva. Algumas querem bater, socar, gritar. Outras choram. Outras se recolhem, se fecham. Outras riem. E a mesma pessoa pode sentir raiva e ter reações diferentes em situações diferentes, com pessoas diferentes, em fases diferentes da vida.

Outro teste dos neurocientistas: mapear a atividade cerebral de pessoas que eles provocavam pra que elas ficassem com raiva. Um grupo que discutia política ou religião, e havia pessoas orientadas a ridicularizar as opiniões deles. Não só as reações eram diferentes, como no mapeamento cerebral pra cada pessoa havia uma área diferente com mais atividade. Não há padrão.

Duas grandes revelações do texto do Eric Barker, apoiado no livro da Lisa Barrett: (1) sentimentos não são intrínsecos, e sim aprendidos e (2) vocabulário faz diferença no seu grau de inteligência emocional.

É simples. A gente pensa em palavras, certo? Quer dizer, acho que a maioria das pessoas pensa em termos de palavras. Você pode lembrar de luz, sons, cores, mas pra elaborar algum pensamento, é difícil fazer isso se não for com palavras. É neste momento que quanto melhor for seu vocabulário, sua sensibilidade, sua capacidade de se entender e entender e analisar os outros, mais refinados serão seus pensamentos.

“Estou mal” é algo que traz pouca informação. “Me sinto frustrada porque tenho a sensação de que pessoas com quem me importo não se importam comigo no mesmo grau, e isso faz eu me sentir inferior, como se houvesse algo de errado comigo” — olha a diferença, com várias dicas de como pensar na questão pra parar de se sentir mal.

Vale a pena ver o artigo do Eric, e recomendo muito o livro da Lisa também. Comprei no Kindle, estou no começo, mas já adorando.

 

Homem ejacula no pescoço de desconhecida em ônibus na Paulista, é preso, mas juiz manda soltar

“O juiz diz que a passageira estava sentada em ônibus cheio. Ele não estava cheio. Não tinham 20 pessoas no ônibus. Ele premeditou tudo, escolheu a vítima e fez o que fez. Se tem uma brecha na lei para livrar cara de bandidos engravatados, com certeza tem brecha na lei para fazer com que esse cara fique preso. O juiz falar que o ônibus estava cheio? Ele tinha qualquer lugar para ficar. Se ele quisesse estaria sentado”, disse a economista.

(…)

[as palavras do juiz] “O crime de estupro tem como núcleo típico constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Na espécie, entendo que não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus cheio, em cima de uma passageira, que ficou, logicamente, bastante nervosa e traumatizada.

Ademais, pelo exame da folha de antecedentes do Indiciado, verifica-se que tem histórico desse tipo de comportamento, necessitando de tratamento psiquiátrico e psicológico para evitar a reiteração de condutas como esta, que violam gravemente a dignidade sexual das mulheres, mas que, penalmente, configuram apenas contravenção penal.

Como essa contravenção é apenas somente com multa, impossível a homologação do flagrante. Ante o exposto, relaxo a prisão em flagrante. Expeça-se alvará de soltura”.

Escrevi pra Ouvidoria do Tribunal de Justiça de São Paulo. Achei que é o mínimo que posso fazer. Se você também acha revoltante juiz dizer que ejacular no pescoço de desconhecida, em ônibus, não constitui violência ou constrangimento, escreva também.

http://www.tjsp.jus.br/CanaisAtendimentoRelacionamento 

Observação: ontem recebi resposta dizendo  “o usuário deve acessar o site: WWW.TJSP.JUS.BR => CONTATOS , clicar em FALE CONOSCO => Clicar em FALE COM A CORREGEDORIA.”

“Foi revoltante acompanhar o desenrolar da agressão a Cíntia Souza. Raramente um agressor é preso em flagrante. Nesse raro caso e que ele pode ser preso, o juíz considera que ejacular no pescoço de uma mulher não constitui violência ou constrangimento. É uma vergonha ver a atitude desse juiz, que realmente tratou a vítima como lixo.

Espero que um dia esse senhor consiga mudar de visão, que aconteça algo em sua vida que o faça enxergar que combater a violência contra quem não pode se defender é obrigação do sistema social. As mulheres são abusadas com tanta frequência porque raramente revidam, e os abusos prosperam na certeza da impunidade. Parabéns ao sr. José Eugenio que provou mais uma vez que não há punição no Brasil pra quem abusa de mulheres.”

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Repararam no que a mulher que acompanhou a vítima comentou sobre “deve haver alguma brecha na lei”? É porque na verdade, é doído reconhecer isso, mas o juiz só agiu ao pé da letra. Hoje não existe uma lei explícita pra punir quem bolina uma mulher, ou mesmo pra quem ejacula em cima de uma desconhecida. Você pode chegar em qualquer lugar e meter a mão nos peitos, passar a mão na bunda, por o pau pra fora e gozar olhando pra ela, ou até a porra jorrar nela, e isso não é crime.

Uns anos atrás Romário propôs um projeto de lei pra tornar crime bolinar mulheres dentro de transportes públicos. Mas não foi votado. Também já vi um projeto de lei pra multar homem que passasse cantada grosseira, ofensiva, e por uma conjunção das estrelas isso acontecesse na frente de um guardinha, o guardinha poderia multar — mas foi muito criticado, disseram que isso acaba com o romance.

E como comentei em outros post, o projeto de lei do Romário é um grande avanço, e mesmo assim talvez não cobrisse essa situação do homem que ejacula no pescoço de uma desconhecida no meio de um ônibus vazio. Porque o projeto de lei dele fala de contato físico, e o advogado poderia dizer que ele não encostou a mão nela, era só esperma, não muito diferente do que cuspir em alguém. 🙁

Ou como aconteceu comigo, na Paulista também, de passar pela situação de um homem sentar numa mesa próxima, horário vazio, só eu e ele na área da varanda, colocou o pau pra fora e começou a bater punheta. Isso também não é crime.

E entendam, não é só o constrangimento moral de ter que ver um idiota qualquer batendo punheta, é medo. Somos o país dos 45 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, e estimativa de ser algo como 450 mil. O cara que ficou batendo punheta do seu lado, ou que gozou no seu pescoço, que cruza seu caminho, vai te seguir? Vai aproveitar um momento que haja menos gente por perto pra te dar um soco e te estuprar? Você tem que andar com mais medo ainda, o tempo todo?

No Brasil não é crime bolinar, punhetar em público, gozar em cima de uma desconhecida, passar por uma garota e falar “quero saber se você é boa de meter”.

E aqui tem uma entrevista com a moça que foi bolinada num ônibus na Paulista também, fez escândalo, foi ajudada pelas outras pessoas do ônibus, inclusive o motorista, que fechou a porta pra impedir o agressor de descer e só parou o ônibus quando achou camburões da polícia. Ela prestou queixa, mesmo sabendo que não acontece nada, no máximo alguma multa ridícula, mas falou que é importante registrar pra no mínimo ficar mais explícitas as estatísticas que podem, talvez algum dia, contribuir pra políticas públicas.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/08/31/vitima-de-assedio-sexual-em-onibus-diz-que-foi-amparada-por-mulheres-nao-vamos-nos-calar-mais.htm

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SEGURANCA/471285-ASSEDIO-SEXUAL-NO-TRANSPORTE-PUBLICO-PODERA-SER-PUNIDO-COM-PRISAO.html

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/09/01/libertar-acusado-de-estupro-em-onibus-foi-erro-injustificavel-e-escarnio-dizem-especialistas.htm

Vítima de assédio em ônibus se revolta com soltura de agressor: “estou me sentindo um lixo”

Eu não vim até aqui pra desistir agora

Eu realmente adoro o Gessinger. A versão ao vivo MTV de Infinita Highway, ouvi dezenas e dezenas de vezes durante dias. Refrão de Bolero é outra música pra ficar na cabeça por muito tempo, e Até o Fim — que acho que não é mais Engenheiros, é só dele, tem uma melodia viciante pro meu atual estado de espírito.

Nas interpretações desse disco Pouca Vogal, é tanta ternura, um timbre de quem tem tanto carinho pelas pessoas, algo que sinto também no Infinita Highway MTV.

E nesse momento de ascensão da direita burra, versos como esse “E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada” confortam e doem ao mesmo tempo.

Engraçado que nesta semana estávamos falando como a dificuldade em desistir não tem nada a ver com a gente. Eu e o Cris somos muito pragmáticos e não temos medo de tomar um prejuízo pra evitar um muito maior. Não somos do tipo “Eu não vim até aqui para desistir agora”. Mas a melodia da música me comove, em especial a gaita.

Estou indo passarinhar, volto na quarta. Que vocês tenham dias maravilhosos, conectem-se com aquilo que deixa o coração e alma leves. Há muito motivo pra gente ficar deprimido, mas não dá pra viver assim o tempo todo.